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(A) :: Alabama. 34 anos depois, foi anulada execução de um homem que roubou uma loja mas não matou ninguém

Alabama. 34 anos depois, foi anulada execução de um homem que roubou uma loja mas não matou ninguém

A dois dias de ser executado, Charles Burton escapou ao corredor da morte no Alabama. Participou num assalto a loja em 1991 com um grupo de seis ladrões, tendo um deles baleado um cliente, que morreu.

Larissa Faria
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A sentença de morte de um condenado por cumplicidade num homicídio em 1992, marcada para a noite desta quinta-feira, foi anulada numa decisão que não é comum ocorrer no Alabama, nos Estados Unidos. Charles “Sonny” Burton, segundo a CNN, participou de um assalto a uma loja de peças de carros em 1991, tendo um dos clientes que estava a fazer compras sido baleado e morto por um dos outros elementos que participou no roubo.

Burton, que era veterano do Exército dos EUA, já havia fugido do local quando Derrick DeBruce, um dos seis assaltantes, baleou o cliente Doug Battle, segundo testemunhas do caso. Mas a lei daquele estado norte-americano prevê a pena de morte não só para o assassino, mas também para os cúmplices. Provas apresentadas no processo judicial pela defesa de Burton, hoje com 75 anos, deixavam claro que este não atirou nem pediu que isso fosse feito. No entanto, permaneceu preso por quase 34 anos, a aguardar a execução por inalação de gás nitrogénio.

Organizações de direitos humanos e até mesmo a família do homem assassinado contestaram a decisão pelo menos nove vezes. Numa carta citada pela CNN, a filha da vítima, identificada como Tori, contestou a pena, dizendo que o “pai não acreditava na vingança”. E foi mais longe: “Não vejo como uma execução contribuirá para a minha recuperação. E perturba-me pensar num homem, agora idoso, a ser executado e que, se tivesse um advogado melhor, provavelmente nunca teria ido parar ao corredor da morte”.

Os tribunais estaduais e federais dos EUA, no entanto, indeferiram os pedidos com base na lei de cumplicidade do crime. A pena de morte do atirador, DeBruce, já tinha sido convertida por um tribunal federal em prisão perpétua, onde permaneceu até à sua morte. De forma a equiparar as punições, a governadora republicana do Alabama, Kay Ivey, aceitou na terça-feira os apelos para que Burton não fosse executado, comutando a condenação à morte para prisão perpétua e sem possibilidade de liberdade condicional.

“Não posso prosseguir em sã consciência com a execução do senhor Burton diante de circunstâncias tão discrepantes. Acredito que seria injusto que um participante neste crime fosse executado, enquanto aquele que apertou o gatilho não foi executado”, declarou Ivey em comunicado. A governadora do estado do Alabama, em exercício desde 2017, supervisionou 25 processos de pena de morte, tendo concedido perdão em apenas mais um caso para além do de Burton.

Num comunicado divulgado pelos seus advogados, o condenado afirmou à família de Battle: “Sinto muito. Se [eu] tivesse o poder de trazê-lo de volta, eu fá-lo-ia”. No mesmo texto, o detido agradeceu à governadora pela decisão de poupar a sua vida. “Dizer apenas ‘obrigado’ não me parece muito. Mas [a minha gratidão] é o que posso oferecer-lhe”.