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Monstra: 25 anos e um grande festival em perspectiva

A competição de longas é apenas a secção mais visível de um festival com quase 500 filmes na programação, além de encontros, exposições, instalações, masterclasses, peças de teatro e a Monstrinha.

Francisco Ferreira
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A nova edição da Monstra, festival que todos continuamos a tratar no feminino (dizemos que “vamos à Monstra”, não “ao”), chega agora ao quarto de século e traz, outra vez, um programa extraordinário à capital, no Cinema São Jorge, casa que o abriga ao longo de dez dias, com extensões na Cinemateca Portuguesa e no City Alvalade. Nos seus caprichos de calendário, há anos em que o festival lisboeta de animação coincide com os Óscares — 2026 é o caso — e a programação assinala-o com a ante-estreia em solo luso de A Pequena Amélie, animação muito conseguida da dupla francesa Maïlys Vallade e Liane-Cho Han, nomeada para o Óscar da categoria (chega às salas para a semana, dia 19, pela mão da Cinemundo). É o filme mais sonante da Competição de longas-metragens deste ano.

Mas não é o único. De Sylvain Chomet, nome histórico da animação em França (é o autor de Belleville Rendez-vous), surge, também em ante-estreia, Marcel e Monsieur Pagnol, que acompanha graciosamente a vida do escritor e cineasta do título, autor, entre tantos outros, de A Mulher do Padeiro (1938). Também tem estreia portuguesa nas salas para breve, a 26 do corrente — uma aposta da distribuidora Outsider. Tal como A Pequena Amélie, é filme que vem de Cannes 2005 e, posteriormente, da edição de Annecy do ano passado, onde competiu igualmente Chao, que custou sete anos de trabalho ao japonês Yasuhiro Aoki.

O concurso principal desta Monstra traz ainda Decorado, do galego Alberto Vázquez, co-produção com a portuguesa Sardinha em Lata que acaba de vencer um GoyaContos do Jardim Encantado, fabulosa stop-motion checa assinada a oito mãos (David Súkup, Patrik Pašš, Leon Vidmar, Jean-Claude Rozec). E Uma História sobre Fogo, animação em pintura com tinta da china (shuimo donghua, técnica desenvolvida pelos estúdios de animação de Xangai, nos anos 60, inspirada em tradição de desenho milenar), de Li Wenyu.

Por fim, La mort n’existe pas/A Morte Não Existe, uma das animações que mais impressionou o autor destas linhas ao longo desta década, do canadiano (e quebequense) Félix Dufour-Laperrière (o filme vem da Quinzena dos Cineastas de Cannes 2025), policial adulto, tremendamente sombrio, em torno de um grupo de jovens activistas que decidem dar um passo sem retorno quando abraçam a luta armada. A protagonista em fuga reconsidera então as suas acções e convicções após um ataque que acaba em carnificina. Crianças: fiquem em casa. Não é filme para dentes de leite.

Está nesta Monstra a nata da animação contemporânea em longa-metragem, à qual não falta (mas fora de concurso) a exibição de outro filme também chamado aos Óscares, o fabuloso Arco, de Ugo Bienvenu, Cristal de Annecy 2025, já estreado comercialmente entre nós (em versão dobrada).

A competição de longas é apenas a secção mais visível de um festival com quase 500 filmes na grelha de programação a partir de hoje, pleno de encontros, exposições, instalações, masterclasses, peças de teatro, assim como a tradicional Monstrinha, para os espectadores mais novos. Não nos será possível referir tudo neste texto. Está programada uma homenagem que celebra os 50 anos do estúdio britânico Aardman. Olá, Vasco Granja! é uma exposição patente na Sociedade de Belas Artes sobre o espólio do célebre apresentador, professor e cine-clubista português — inaugurou dia 6. Uma das masterclasses traz a grande animadora inglesa Joanna Quinn que, além de vir a Lisboa apresentar o seu novo livro, Beryl, traz um projecto colectivo por ela lançado, “Para Gaza com Amor – Uma Anijam Global”, que reúne 329 curtas-metragens de mais de 50 países, incluindo Portugal, num gesto artístico de solidariedade com a Palestina.

Fundador e director artístico da Monstra desde a primeira edição, divulgador incansável da técnica da animação em Portugal (animação é técnica, não é género — nunca será de mais repetir), Fernando Galrito, 25 anos e uns quantos cabelos brancos depois, ainda encontra forças para ir ajustando o festival às suas necessidades: “Para ter uma ideia, demo-nos conta este ano de que nos faltava uma competição exclusiva de médias-metragens. A questão parece estar arrumada para o cinema em imagem real [o conceito de médias-metragens desapareceu] mas, para a animação, que é muito cara e em que cada segundo conta, faz toda a diferença. Nem toda a gente tem dinheiro na animação para chegar às longas, mas as médias já permitem um desenvolvimento substancial de personagens. Reparámos que, cada vez mais, estão a ser produzidas animações na casa dos 20 a 30 minutos. Inauguramos, por isso, uma nova competição este ano, paralela às de longas e curtas.” A Filha da Água, de Sandra Desmazières, e Kosmogonia, de Karolina Chabier, são co-produções portuguesas que integram a nova secção.

Galrito destaca igualmente os nove filmes da produção nacional que formam a Competição Portuguesa Vasco Granja. São eles Sombras de Nós Próprios, de Pedro Serrazina, A Última Meia, de Carolina Batista, Lembra de Mim, de Bárbara Barreto, Caroline Soares e João Cadima, Argumentos a Favor do Amor, de Gabriel Abrantes (competiu em Cannes no ano passado), Amarelo Banana, de Alexandre Sousa, Machinarium, de João Pedro Oliveira, Cão Sozinho, de Marta Reis Andrade, Corça, de Maria Lima e Porque Hoje é Sábado, de Alice Eça Guimarães. No júri desta secção, destaca-se a visita de Marcel Jean, director artístico de Annecy. Sombras de Nós Próprios — que é uma fabulosa animação em areia, exibida em Roterdão 2025 — foi também chamada à Competição Internacional de curtas.

“Outra secção, o Clipanim”, prossegue Galrito, “reúne uma seleção dos melhores videoclipes da última década e meia criados por realizadores e músicos portugueses. A relação entre o cinema de animação é vasta.” O director do festival salienta ainda o programa Natureza e Sustentabilidade e o desenvolvimento, durante esta edição, do Encontro de Produtores de Animação Ibero-Americanos e Bálticos, entre criadores destas origens. “Conhecemos mal o trabalho dos países bálticos, pese embora a tradição muito forte que eles têm no cinema de animação, investindo, aliás, bem mais do que nós. Vamos promover um encontro entre estas três zonas do globo. Realço que o país em foco este ano é a Letónia.” Aquela cinematografia andou recentemente nas bocas do mundo no que à animação de respeito pelo êxito do multi-premiado Flow — À Deriva, de Gints Zilbalodis.

A Monstra abre na noite desta quinta-feira (São Jorge, 19h) com um cine-concerto e seis curtas-metragens de diferentes anos e latitudes, em que se incluí a obra-prima em stop-motion da inglesa Suzie Templeton, Pedro e o Lobo (2006), baseada na peça homónima de Prokofiev (e outra obra premiada em Annecy e nos Óscares). O filme de Templeton comemora agora 20 anos; a peça de Prokofiev, 90. “Quando os meus miúdos eram pequenos e lhes mostrei este filme”, recordou Galrito no fim do telefonema, “eles tinham tanto medo da expressividade do lobo que nem o DVD queriam ter em casa!” A sessão desta noite será musicada ao vivo pela Orquestra de Sopros da Academia de Música de Santa Cecília.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.