(c) 2023 am|dev

(A) :: Do campo à Eurovisão: o “gregoriano do povo” conquistou o Festival da Canção

Do campo à Eurovisão: o “gregoriano do povo” conquistou o Festival da Canção

Se o Canto Gregoriano foi durante séculos a voz orante dos mosteiros, o Cante Alentejano continua a ser, ainda hoje, a voz profunda de um povo.

Sérgio Carvalho
text

A vitória do grupo Bandidos do Cante no Festival da Canção 2026, transmitido pela RTP, no dia 7 de março, pode parecer apenas mais um resultado num concurso musical. Contudo, vista com alguma atenção cultural e histórica, ela revela algo mais profundo: o reencontro do país com uma das suas expressões musicais mais antigas e identitárias que é o Cante Alentejano.

Num tempo dominado por ritmos globais e produções cada vez mais semelhantes entre si, ver um grupo inspirado numa tradição coral popular vencer um festival televisivo nacional é um sinal cultural significativo. Não se trata apenas de nostalgia ou de folclore. Trata-se de reconhecer que há tradições que continuam a falar ao presente.

Há muito tempo que alguns estudiosos e observadores da cultura portuguesa utilizam uma expressão sugestiva para descrever o cante alentejano como “o gregoriano do povo”. A comparação não pretende afirmar uma origem direta ou exclusiva no canto gregoriano, mas ajuda a compreender certas afinidades profundas entre estas duas formas de cantar.

Tal como o antigo canto litúrgico da Igreja – o chamado cantochão – o cante alentejano nasce da força da voz humana e da experiência comunitária. Em ambos encontramos características semelhantes: a ausência de instrumentos, o ritmo lento e sustentado, a importância do coro e uma melodia que se prolonga no espaço, criando uma atmosfera quase meditativa. Não é música feita para o espetáculo imediato; é música que se desenvolve lentamente, quase como uma respiração coletiva.

Historicamente, não é impossível imaginar que o ambiente religioso medieval tenha deixado marcas na cultura musical das populações rurais. Durante séculos, a liturgia cristã foi uma das principais escolas de escuta musical para o povo. Nas igrejas, os camponeses ouviam o cantochão e o gregoriano, absorvendo modos melódicos, cadências e formas de entoação que, com o tempo, podiam ser reinterpretadas na vida quotidiana.

Assim, quando os trabalhadores do Alentejo cantavam nas tabernas, nas ceifas ou nas romarias e procissões, é possível que algumas dessas sonoridades antigas ressurgissem transformadas em canto popular. O que no mosteiro era oração, no campo tornava-se companheirismo; o que na liturgia era louvor, na vida rural tornava-se memória, saudade e resistência.

É por isso que o cante tem algo de profundamente solene, mesmo quando fala de temas simples. O seu andamento pausado, a entrada sucessiva das vozes: o «ponto», o «alto» e depois o coro, bem como a forma como a melodia se prolonga criam uma sonoridade que muitos descrevem como quase litúrgica.

Quando um grupo coral alentejano canta dentro de uma igreja, essa proximidade torna-se ainda mais evidente. O eco das paredes de pedra amplifica a impressão de que estamos diante de algo muito antigo, como se a tradição popular e a tradição religiosa se encontrassem no mesmo espaço acústico.

Talvez seja precisamente essa dimensão que explica a força simbólica da vitória dos Bandidos do Cante. Ao levarem esta sonoridade ao Festival da Canção, e posteriormente ao palco da Eurovisão, não estão apenas a apresentar uma música. Estão a levar consigo uma memória coletiva que atravessa gerações.

Não é por acaso que o Cante Alentejano foi reconhecido em 2014 como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Esse reconhecimento internacional sublinhou precisamente aquilo que os alentejanos sempre souberam: que esta forma de cantar não é apenas uma expressão artística, mas um modo de viver a comunidade, de transmitir valores e de preservar a identidade de um povo.

Num mundo cada vez mais acelerado, o cante lembra-nos que há músicas que não nasceram para correr, mas para durar. E que, por vezes, aquilo que parece mais antigo é precisamente aquilo que continua a tocar mais fundo no coração das pessoas.

Se o Canto Gregoriano foi durante séculos a voz orante dos mosteiros, o Cante Alentejano continua a ser, ainda hoje, a voz profunda de um povo que aprendeu a cantar em conjunto para não esquecer quem é.