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Paris nas mãos da direita

A direita ganha se quiser. Paris poderá finalmente virar a página de um quarto de século de governação ideológica, burocrática e financiada por endividamento e aumento da carga fiscal.

João Cruz Ferreira
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Os problemas que assolam Paris não são diferentes dos das grandes capitais europeias, como a falta de acesso à habitação, falhas na mobilidade urbana ou insegurança. No entanto, Paris é um caso inédito entre as principais cidades europeias de governação socialista ininterrupta desde 2001, ora sozinhos, ora em alianças. Os efeitos estão à vista. Entre o agravamento da dívida municipal para valores recorde (10 mil milhões de euros) e a duplicação dos impostos sobre a propriedade para financiar a expansão do parque habitacional público para mais de 25% do stock municipal, o aumento sem precedentes do rácio de funcionários municipais por habitante (40:1), a guerra aberta contra os automóveis que tornou a vida um pesadelo para os habitantes dos subúrbios ou a normalização de acampamentos de sem-abrigo e migrantes no espaço público, o pensamento socialista foi sempre comandando os destinos da cidade. A cidade mais visitada do mundo, que deveria encarnar o melhor de França, passou a simbolizar alguns dos maiores fracassos políticos nacionais.

Neste contexto, as sondagens para a primeira volta das eleições municipais, em Paris, indicam uma passagem inédita de cinco candidatos à segunda volta, três deles do espaço da direita. Apesar da corrida aberta, ao alcance da vitória final parecem estar as candidaturas do socialista Emmanuel Grégoire, apoiado por comunistas e “verdes”, e da candidata dos “republicanos” e líder da oposição municipal, Rachida Dati.

Grégoire conduz uma campanha centrada na continuidade e no aprofundamento das políticas sociais de Anne Hidalgo, com destaque para a habitação, como a requisição de alojamentos vazios, o reforço do controlo das rendas e a criação de uma brigada de proteção dos inquilinos. Dati, por sua vez, propõe uma viragem em relação aos métodos de Hidalgo, com uma gestão financeira mais rigorosa. Na área da habitação, isso reflete-se num aumento da oferta e em reformas no sistema de atribuição de habitação social, em vez de uma expansão massiva. Porém, Dati termina a campanha com uma imagem beliscada por recusar participar no debate entre os candidatos e pela sua implicação em casos judiciais relacionados com conflitos de interesse e tráfico de influências.

À direita, a agradável surpresa da campanha tem sido a eurodeputada Sarah Knafo, que se estreou com 4% nas sondagens, ascendendo atualmente a 12-13% na maioria dos estudos de opinião. O seu programa, de um detalhe invulgar, impressionou pelo rigor e pela transparência, com cada medida quantificada e o respetivo método de financiamento explicado. As suas propostas urbanisticamente ousadas (como a abertura das vias ribeirinhas do Sena aos automóveis), high-tech (como o uso da inteligência artificial para gerir sinais de trânsito), liberalizadoras (como a redução para metade do número de funcionários municipais e do imposto anual sobre a propriedade) e pró-democracia direta (aprovação de projetos com um custo superior a dez milhões de euros por via de referendo local) marcaram pontos. Por fim, no que diz respeito à forma, foi uma candidatura moderna e refrescante como há muito não se via, aproveitando elementos inovadores da campanha de Zohran Mamdani em Nova Iorque, como o uso de cores vivas e a encenação meticulosa de mini-vídeos nas redes sociais para retratar uma cidade de Paris idealizada e encantadora (fazendo lembrar cenas de Amélie Poulain), criando uma marca visual cativante.

Os resultados desta eleição dependerão das alianças que se venham a formar (ou da ausência delas). Nesse sentido, Dati tem apelado a um acordo com o candidato de centro-direita apoiado por Édouard Philippe e Emmanuel Macron, Pierre-Yves Bournazel. Este, por sua vez, tem declarado que não pretende aliar-se nem a Dati nem a Knafo, mesmo perante um cenário de “tudo ou nada” para a direita. Knafo, pelo contrário, tem deixado a porta aberta a entendimentos com ambos.

Perante este quadro, a fusão de listas e a definição de um programa comum entre dois destes candidatos (ou uma aliança mais abrangente entre os três, no caso de uma eventual união da candidatura socialista com a da France Insoumise – cenário, para já, afastado por Grégoire -, partido cujo notório antisemitismo e ligações a grupos extremistas violentos como a Jeune Garde têm contribuído para o seu crescente isolamento), garantiria a alternância política em Paris para os próximos seis anos. Por outro lado, a manutenção de candidaturas separadas abriria caminho à continuidade do socialismo. Na ausência de um acordo formal, existe ainda – embora menos provável – a hipótese de desistências estratégicas entre as duas voltas para concentrar votos em Dati. Mas note-se que o mesmo pode acontecer, à esquerda, em relação a Grégoire. No fundo, tudo permanece em aberto. A segunda volta realiza-se apenas uma semana após a primeira, pelo que é provável que as configurações finais das candidaturas fiquem definidas na própria noite eleitoral de domingo. Uma coisa, porém, parece aritmeticamente evidente: a direita ganha se quiser. Paris poderá finalmente virar a página de um quarto de século de governação ideológica, burocrática e financiada por endividamento crescente e pelo aumento da carga fiscal.

Mais. Porque o eleitorado sensivel às questões de identidade nacional, imigração e segurança não deve ficar refém de um programa económico intervencionista e pouco credível, a direita francesa deve ter o sentido de responsabilidade de deixar de lado sectarismos, taticismos partidários e egos individuais e alavancar uma união simbólica em Paris de modo a preparar o terreno para apresentar um candidato único face a Le Pen ou Bardella nas presidenciais de 2027. À luz dos números, não parece haver outra hipótese, pois a divisão de votos entre os putativos candidatos do centro-direita liberal (Horizons), do centro-direita “gaulista” (Républicains) e da direita nacional-conservadora (Reconquête) terá como possível consequência a qualificação de um socialista – ou mesmo de um “insubmisso” – para a segunda volta, contra o praticamente já apurado candidato do Rassemblement National.