“Todas as mães iranianas querem que os filhos se tornem engenheiros ou médicos”. Seguindo esta máxima, Farid* estudou e tornou-se engenheiro eletrotécnico. Também Samira*, apesar de ter nascido num país onde há quatro vezes mais homens que mulheres no mercado de emprego, decidiu seguir o seu sonho de ir para a universidade e estudar Microbiologia.
Casados desde 2023, Farid e Samira conheceram-se pouco mais de meia década antes, quando frequentaram aulas de inglês em Teerão. Agora, ambos estão a continuar o respetivo percurso académico em Portugal — ela o doutoramento, ele o mestrado —, a quase cinco mil quilómetros das famílias com quem só conseguiram falar durante um minuto ao telefone nas primeiras duas semanas de conflito entre o Irão, Israel e os Estados Unidos da América. O casal optou pelo anonimato nesta entrevista por medo de possíveis consequências que possam atingir os familiares ainda no seu país de origem.
Até ser aceite por um centro de investigação e começar o seu doutoramento, a microbióloga iraniana passou por muita rejeição. “O processo para começar a investigar no Irão até é semelhante ao de Portugal. Cá, contactas um coordenador de laboratório na tua área de interesse e esperas que ele tenha uma vaga e te aceite. Em Teerão fazes o contacto, se for preciso fazes algumas provas, mas depois têm o hábito de pedir um pagamento para te deixarem investigar com eles”, conta ao Observador, num parque a poucos metros do sítio onde trabalha.
Não é um procedimento necessário nem consta sequer no regulamento interno das diferentes instituições. Porém, “é uma prática muito comum” em território iraniano, como relata o casal e confirma ainda outro investigador ouvido pelo Observador, Mohammad Hosseini. “Este pagamento, que acontece sempre debaixo da mesa, às vezes chega a ser mais alto que o valor das propinas”, garante Farid durante a conversa com o Observador.
Esta é uma das barreiras ao acesso à investigação no Irão, onde de acordo com um levantamento feito pelo Islamic World Science Citation Institute no final do ano passado, mais de mil investigadores estavam entre o top 1% mundial de cientistas mais citados de 2025. É nas ciências médicas que os investigadores iranianos mais se destacam, segundo o ranking de instituições de investigação SCImago, que coloca a Universidade de Ciências Médicas de Teerão em primeiro lugar no país, mas apenas na 701.ª posição a nível mundial.
Ramazan Ahadi, um membro do conselho de administração da Sociedade Iraniana de Medicina Nuclear, afirmou à agência estatal Mehr, em outubro de 2025, que o Irão estava entre os dez países mais avançados nesta área de fármacos com radiação — motivando a contínua exploração da indústria nuclear no país que estará na origem do conflito atual. A nanotecnologia é também uma área onde os iranianos estão em peso, com a rádio nacional iraniana a destacar a invenção de nanomedicamentos contra o cancro e outras doenças nos últimos anos. Mas, ainda assim, os profissionais do setor admitem que estão a viver “uma situação complicada”, como escreve o investigador Mohammad Hosseini numa carta publicada na revista Nature.
“Aqueles que estão no Irão enfrentam salários baixos, inflação alta, instabilidade sociopolítica, má gestão de recursos, opressão das autoridades e sanções internacionais de longa data”, descreve Hosseini, num sentimento que é partilhado pelo casal de cientistas iranianos em Portugal. Estes foram os motivos que fizeram Farid e, mais tarde, Samira abandonar o país com rumo à Península Ibérica, e que se vieram a intensificar desde os protestos no início deste ano até ao conflito em curso.


Sem contactos ou subornos, “não se entra em lado nenhum”. O acesso restrito e as burlas que barram o acesso à investigação científica
O Pasteur Institute of Iran é um dos principais centros de investigação médica no país. Com a sua licenciatura em Microbiologia e um mestrado em curso na mesma área, Samira, como muitos outros jovens investigadores iranianos, sonhava com um lugar num laboratório naquele instituto reputado. “Passei os exames de admissão, passei à entrevista e fui aceite. Mas, no último passo, perguntaram-me se eu conhecia alguém. Disse que não e fiquei por aí”, desabafa com o Observador.
A pergunta sobre o contacto feita naquela última etapa do processo de recrutamento foi o que definiu o destino de Samira naquela instituição. A atual estudante de doutoramento iraniana confessa que esta questão, feita também na grande maioria das instituições na capital, implicava que se não tivessem uma cara conhecida no governo, não iriam conseguir entrar. Sem contactos e sem dinheiro para conseguir financiar o próximo passo dos seus estudos, Samira trabalhou num laboratório médico num hospital em Teerão durante 12 anos.
“Quando acabei o meu mestrado, queria escrever um artigo científico para publicar numa revista. Durante o processo, o filho do meu orientador, que até era boa pessoa, morreu e, depois disso, deixou de estar disponível para mim. Por isso, tive de encontrar outro professor para poder escrever o meu artigo. Encontrei um, paguei muito dinheiro para que ele me orientasse e consegui escrevê-lo”, conta Samira. Um mês após a entrega do artigo finalizado, recebeu um “comprovativo” da publicação.
Contudo, quando tentou aceder à suposta publicação para ver o seu nome em primeiro lugar na lista de autores de um artigo científico, não encontrou nada. As tentativas de contacto com o professor que a orientou em primeiro lugar — e a quem pagou 7 mil euros para o fazer — não foram devolvidas e aquele artigo que tinha passado tanto tempo a escrever acabou por nunca ver a luz do dia. E o dinheiro, que correspondia a mais de três meses do seu salário no hospital, também não voltou para a sua conta bancária.

“Publicar papers é uma das coisas mais difíceis para estudantes no Irão”, confessa Samira, apoiada pelo marido, que diz que episódios semelhantes acontecem com frequência naquele país. “Só o fazem para melhorar o currículo. É muito fácil e simples [para os responsáveis pelos laboratórios], porque se és um estudante e queres publicar o teu primeiro artigo, como não tens experiência e não sabes nada, usam-te”, completa Farid.
“Só queria continuar a minha educação no meu país”, afirma Samira. Apesar de não conseguirem concretizar um valor, dizem que a inscrição num programa de doutoramento é “muito, muito caro”. Quando acabou o mestrado, depois de ter sido rejeitada pelos centros de investigação a que se tentou candidatar, decidiu sair. “Parei a minha vida académica e estive a trabalhar até vir para cá”, conta. O “cá” é um dos principais centros de investigação de Portugal e agora, apesar de ainda não estar a fazer a investigação pura e dura que sonhava em Teerão, Samira está cada vez mais perto de atingir esse patamar.
A investigação “fantástica” que está a ser “dificultada” pelos “desafios” da guerra
Mohammad Hosseini só esteve em Portugal de passagem mesmo antes da pandemia, mas é um investigador iraniano que também saiu do país em 2009 para continuar os estudos na área da Filosofia. Contudo, apesar de nunca ter exercido a sua profissão no Irão, sentiu a necessidade de escrever uma coluna na revista Nature a pedir apoio aos investigadores no seu país natal.
“Os iranianos sentem que não receberam tanta simpatia ou apoio como os ucranianos, quando começou a guerra”, admite ao Observador, referindo que existe uma parte dos investigadores iranianos que se sentem “esquecidos” pela comunidade científica. “Estão a fazer um trabalho fantástico, extremamente inteligente, mas os desafios mais recentes dificultaram a capacidade de levar este trabalho avante”, acrescenta.
Desde os protestos do final do ano passado que não existe internet no Irão. Há quem tenha uma conexão “secreta” via Starlink, mas a grande maioria da população está “isolada” do resto do mundo. Como explica o investigador que trabalha numa Universidade em Chicago, nos Estados Unidos da América, existe uma espécie de “intranet” que permite o funcionamento das aplicações de homebanking e a comunicação entre iranianos no país. Tudo o que seja virado para fora das fronteiras, está bloqueado ou severamente restrito.

“Sem internet, não conseguem fazer investigação”, confessa, referindo que este isolamento está a impedir os avanços científicos e a parar os projetos em curso. “E esta tem sido a realidade com cada conflito que temos tido”, afirma Mohammad Hosseini, apontando semelhanças para a reação do governo iraniano durante a Guerra dos 12 Dias contra Israel, à situação atual, onde as famílias e os investigadores iranianos continuam excluídos do resto do mundo.
Uma vez que passou largos anos a fazer investigação nos Países Baixos, Mohammad constata que o ecossistema de investigação no Irão é significativamente subfinanciado quando comparado com o europeu. “Na Europa, a infraestrutura também é topo de gama, algo a que nós, no Irão, não temos acesso”, continua. Para além destes entraves que colocam o Irão num patamar não tão avançado como o de outras regiões do mundo, o investigador refere que as restrições de mobilidade são também uma grande barreira para o avanço da Ciência.
“Por causa do passaporte iraniano, a possibilidade de ir a uma conferência e partilhar conhecimento é extremamente limitada”, acrescenta, relatando que as oportunidades para obter financiamento para deslocações internacionais é “muito difícil”.
“Disseram-me que para trabalhar tinha de usar hijab“. No Irão, “as mulheres têm de lutar todos os dias”
Samira esteve 12 anos a trabalhar num laboratório hospitalar, apesar de ter sido aprovada em todas as provas de admissão ao Instituto Pasteur. Diz que lhe faltou o tal contacto para agilizar o processo e admite que no mundo profissional, as mulheres sentem bastante mais dificuldades do que os homens.
“Não interessa se és investigadora ou a trabalhar noutro lado qualquer. Enquanto mulher, no Irão, tens de ser uma lutadora por tudo”, diz ao Observador. Recorda, um exemplo, em que sentiu a grande disparidade de tratamento entre trabalhadores. “Na altura da pandemia de COVID-19, o Irão estava muito, muito mal e perdemos muitas pessoas. E trabalhava no laboratório [hospitalar] central, por isso estava sempre cheio e foi uma altura em que trabalhei muito. Mas lembro-me perfeitamente deste dia em que apareceu um inspetor que me disse que para trabalhar tinha de usar um hijab corretamente”, conta Samira.
Foi com a revolução de 1979, com a chegada ao poder do aiatola Khomeini, que as mulheres passaram a ser obrigadas a utilizar o véu islâmico, algo que se foi mantendo ao longo dos anos e subiu ao topo da atenção mediática com a morte de Mahsa Amini — detida por não utilizar o seu hijab e morta às mãos da chamada polícia da moralidade — e a criação do movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, que tem sido uma presença assídua nas ruas iranianas e em todo o mundo para reivindicar direitos iguais para as mulheres no Irão desde 2022.


“Temos de lutar”, reforça Samira, admitindo que mesmo que a utilização do véu possa parecer “um pequeno problema”, é uma luta constante que tem de ser feita. “Tens mesmo de provar o teu valor se fores mulher”, acrescenta. Além desta diferença de liberdades entre homens e mulheres que vigora no atual regime iraniano, a doutoranda que vive em Portugal há menos de dois anos sublinha a clara discrepância salarial que existe entre géneros — e que acaba por complicar o acesso das mulheres à educação mais avançada.
“No Irão, infelizmente, as mulheres valem menos que os homens. Por exemplo, eu sou uma mulher casada e imagina que tenho um colega no mesmo local de trabalho que é homem. Só pelo facto de ser um homem, vai receber mais dinheiro no final do mês”, explica Samira, reforçando o caráter “lutador” que “tem” de estar presente em cada mulher iraniana. Em 2025, o Índice Global da Disparidade de Género (Global Gender Gap Index) publicado pelo Fórum Económico Mundial colocou Portugal em 34.º lugar entre os 148 países analisados, ao passo que o Irão ficou em 145.º lugar.
“Temos séculos de pessoas a fazer Ciência. Acredito que este legado vai continuar a inspirar pessoas e que a Ciência nunca vai parar”
Fora do Irão há um ano e oito meses, Samira anda pelo seu centro de investigação com o cabelo solto, um símbolo da resistência que diz apoiar. No fundo do seu telemóvel está uma fotografia da bandeira iraniana, não a que tem no seu centro o símbolo islâmico, mas sim o sol e um leão. É a bandeira que estava presente em todos os edifícios governamentais antes da Revolução de 79, mas que agora é utilizada como forma de protesto contra o regime atual.
Aliás, Samira e Farid estiveram presentes nas manifestações que reuniram dezenas de iranianos espalhados por vários pontos do país, em paralelo com os cerca de nove milhões que compõem a diáspora que se manifestou publicamente contra o regime. O descontentamento com o regime e o aumento do custo de vida em Teerão foi o que os fez vir para Portugal.
Farid chegou primeiro, em 2019. O processo de escolha foi bastante simples, revela ao Observador. “O primeiro fator que pesou foi o bom tempo”, admite. “O segundo foi a hospitalidade. Os portugueses são pessoas de coração quente”, continua, referindo que os portugueses e os iranianos são, na verdade, bastante semelhantes nesse sentido. Mas o processo até chegar a Portugal não foi linear — e não foi preciso sair de Teerão até encontrar a primeira barreira.


O processo de Farid ficou perdido numa longa fila de documentos a aprovar depois de um funcionário da embaixada portuguesa na capital iraniana ter sido alvejado, o que levou ao encerramento provisório daquelas instalações e, por sua vez, atrasou a chegada do então engenheiro elétrico a Portugal. Mas o processo ficou concluído e, em 2019, aterrou pela primeira vez em solo português. Neste período, Samira continuou a trabalhar no laboratório hospitalar onde havia estado desde os tempos do seu mestrado e a relação foi à distância, se bem que por pouco tempo.
Farid, que entretanto começou o seu mestrado em engenharia civil e montou uma empresa, regressou ao Irão em 2023 para o casamento com a companheira de longa data. Samira teve assim a possibilidade de sair do Irão e continuar a sua educação ao fim de quase uma década “parada”. Demoraram cerca de um ano a obter a autorização para o reagrupamento familiar, mas Samira conseguiu integrar um laboratório no âmbito do seu doutoramento.
O sonho implicou deixar para trás a mãe, o pai e a irmã. Ao fim de um ano e oito meses, Samira comprou os bilhetes de avião para a sua primeira visita à família desde que emigrara. 15 dias antes de partir, o voo foi cancelado e poucos momentos depois, a guerra começou.
Desde então, só conseguiu falar com a família uma única vez, na véspera da conversa com o Observador. Foi uma chamada de dois minutos — devido a uma restrição a chamadas internacionais — sempre com um registo cuidado na informação que revelavam, acautelando a hipótese de a conversa estar a ser gravada pelas autoridades iranianas. “Foi só dizer que estávamos bem e ouvir as vozes uns dos outros”, recorda Samira.
Mesmo a quase 5 mil km de distância de casa, Samira e Farid continuam a acompanhar todos os desenvolvimentos — mesmo com pouco contacto com aqueles no país — e sonham com um dia em que o país fique “livre” do regime. “Tenho a certeza que [a mudança de regime] vai acontecer e, depois disso, certamente voltarei”, promete a investigadora — que continua comprometida com o objetivo de terminar o doutoramento. “Mas é óbvio que há muito que tem de mudar depois da mudança de regime”, acrescenta.
Farid deseja um regime encabeçado por Reza Pahlavi, o filho do último Xá do Irão, e espera que os resultados da “revolução” se reflitam no mundo da investigação. “Se o país ficar livre, tudo será melhor, mais do que no passado. E claro, qualquer investigador, baseado no seu currículo, baseado no seu trabalho de investigação, vai estar lá, independentemente de conhecer ou não alguém no governo”, manifesta.
Mohammad Hosseini partilha o sentimento de otimismo com Farid e Samira sobre o futuro da investigação no país, apoiando-se nos séculos de história persa que acredita estarem enraizados em cada um dos mais de 90 milhões de iranianos. “Temos séculos de pessoas a fazer Ciência. Acredito que este legado vai continuar a inspirar pessoas e que a Ciência nunca vai parar, aconteça o que acontecer. A guerra só dificultou as coisas, mas nunca vai matar a curiosidade nem a criatividade dos cientistas iranianos”.
*Os nomes utilizados neste texto são fictícios para proteger a identidade dos entrevistados*