Morreu Mário Zambujal, aos 90 anos. A informação foi adiantada pela RTP e confirmada pelo Observador junto da sua editora, a Clube do Autor, que entretanto fez uma publicação a homenagear o escritor. “É com grande pesar que comunicamos que o nosso querido bom malandro nos deixou. O seu legado será sempre relembrado por todos, sobretudo pelos seus fiéis leitores, bem como a sua enorme alegria de viver”, lê-se na descrição.
Com uma carreira literária de 45 anos, Mário Zambujal foi responsável por alguns dos mais populares romances publicados no Portugal democrático, aliando capacidade narrativa sintética mas empolgante a um sentido de humor raro na literatura nacional. “A minha escrita tende mais a divertir ou a entusiasmar os leitores do que a colocá-los perante grandes dramas”, diria a este jornal.
Foi com Crónica dos Bons Malandros, publicado em 1980, que se apresentou ao público, romance picaresco que acompanha as desventuras de uma quadrilha de ladrões pouco talentosos e como chegaram até a esse submundo do crime. Foi um sucesso de tal ordem que, em 2008, já ia na sua 32.ª edição pela Bertrand, antes do autor passar a publicar pela Clube do Autor. Na nova casa, chegou à 9.ª edição, comprovando a sua perenidade mais de 40 décadas após a publicação.
Tamanho foi o sucesso desta obra inaugural que Crónica dos Bons Malandros foi adaptado ao cinema por Fernando Lopes em 1984, contando com João Perry, Maria do Céu Guerra e Nicolau Breyner no elenco. Seguiu-se uma peça de teatro musical, em 2011, levada a cena por Francisco Santos no Rivoli, no Porto, e uma série televisiva, já em 2020, produzida e transmitida pela RTP e com realização a cargo de Jorge Paixão da Costa.
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O seu livro seguinte, a novela Histórias do Fim da Rua, de 1983, não logrou o mesmo sucesso, mas o romance À Noite Logo se Vê, lançado três anos depois, voltou a ser imensamente popular, acompanhando a vida delirante de Mino Miralva, um investigador do sobrenatural.
Ao longo da sua carreira, Mário Zambujal publicaria 20 obras, a última das quais, O Último a Sair, lançada em 2025, tratando-se de um regresso ao policial. Por ocasião da celebração dos seus 90 anos, feitos a 5 de março, a Clube do Autor reeditou edições comemorativas de três das suas obras: Crónica dos Bons Malandros, Dama de Espadas e Cafuné. Este último, um romance histórico centrado na Lisboa do início do século XIX originalmente editado em 2012, foi para si o melhor livro que escreveu.
“Penso que consegui localizar num período extraordinário na história de Portugal, quando estavam a entrar os franceses e houve uns gajos que ficaram cá. Nesse quadro, que foi real, introduzi-lhe as personagens de ficção. Movem-se como se fossem figuras desse tempo. Esse jogo e a forma como se desenhou a história, fico a pensar que este texto está bem sacado”, partilhou com o Observador.
Nascido em 1936 em Moura, Mário Joaquim Marvão Gordilho Zambujal viveu a primeira infância na vila da Amareleja, antes de mudar-se com a restante família para o Algarve, aos cinco anos, sendo que a sua chegada a Lisboa só ocorreria já em idade adulta. O seu percurso com a palavra escrita iniciou-se timidamente aos 16 anos, com a escrita de contos para um jornal satírico, “Os Ridículos”, tornando-se mais séria ao ingressar no mundo do jornalismo desportivo, ao integrar a redação d’A Bola, em 1961, aos 25 anos.
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Daí, passou pelo O Jornal, pelo Diário de Lisboa, pelo Record e pelo diário O Século, do qual era chefe de redação por alturas do 25 de abril de 1974, tendo saído no ano seguinte para dirigir o entretanto defunto Mundo Desportivo. O cargo seguinte foi o de chefe de redação do Diário de Notícias, a convite de Vítor Cunha Rego, fazendo depois parte do núcleo fundador do semanário cultural Se7e, do qual foi o primeiro diretor.
Mário Zambujal seria ainda diretor do Tal & Qual e presidiu o Clube de Jornalistas durante 14 anos. Além do jornalismo impresso, tornou-se uma cara conhecida da televisão ao ser o apresentador de programas como “Grande Encontro” e “Domingo Desportivo”.
Veio da escola do jornalismo onde as redações eram “salas cheias de fumo, tudo a fumar a sua cigarrada”, com a “música de fundo do batuque das máquinas de escrever, que desapareceu” e as conversas, substituídas hoje por “um quase silêncio nas redações em que cada um está debruçado sobre o seu interlocutor que está dentro de um computador”.
Tendo trabalhado em muitos dos jornais sediados no Bairro Alto, assumiu-se como um parte de um grupo de noctívagos que “saiam desgraçadamente tarde do trabalho e queriam ir jantar às duas ou três da noite”, como contou numa entrevista ao Clube dos Jornalistas. Daí formou-se um núcleo, os “Empatados da Vida”, que incluia outros jornalistas como Eugénio Alves, Armando Baptista Bastos, Mário Ventura, António Borges Coelho, Vítor Bandarra e José Manuel Saraiva.
A sua produção serviria vários argumentos televisivos ao longo das décadas, sendo importantes exemplos as séries de comédia Gente Fina É Outra Coisa, Lá em Casa Tudo Bem, Sozinhos em Casa, Nico d’Obra e Os Imparáveis, assim como o concurso Faz de Conta.
A sua desenvoltura na escrita para vários meios explica-se pela sua filosofia, que explicou em entrevista ao Observador. “A comunicação só acontece quando o conteúdo é recebido e entendido pelo destinatário”.
“Isso não quer dizer que se vá escrever com um léxico muito pobre. Mas de uma forma entendível. Contar uma história é falar por escrito, é conversar por escrito. Sei que me estão a entender. Presumo, pelo menos. Há a clareza e a claridade. A clareza é escrever de uma maneira muito entendível, o que não invalida que haja a claridade, que é coisas, até poéticas, mesmo mesmo bem feitas”, afirmou.
Entre as distinções que recebeu em vida constam ter sido feito Oficial da Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República Ramalho Eanes em 1984 e ter recebido o Prémio Gazeta de Mérito, atribuído pelo Clube de Jornalistas, em 2025. Em 2020, a sua carreira literária foi homenageada no festival Escritaria, em Penafiel.
Em 2016, recebeu a medalha de Mérito Cultural da Câmara de Lisboa e, em 2022, a Junta de Freguesia de S. Domingos de Benfica, na capital portuguesa, homenageou-o com um mural, na Estrada de Benfica, de autoria de Mariana Duarte Santos.
Um bom malandro, que gostava de ver as pessoas felizes.
Do tempo dos jornais.
Mário Zambujal, 1936-2026(a foto é de 2022, na Estrada de Benfica) pic.twitter.com/jbjD5OXkzM
— João M Fernandes (@jmmfernandes) March 12, 2026
Além de ser irmão de Francisco Zambujal, que trabalhou como caricaturista no jornal A Bola, foi pai de Isabel Zambujal, autora de literatura infanto-juvenil.
Quando falou com o Observador, já tinha 84 anos, pelo que a questão da mortalidade já se avistava no seu horizonte. Mário Zambujal, todavia, encarou-a com naturalidade, sem complexos. “Desde criança que tomei conhecimento de que a vida é um contrato a prazo com recibos verdes. Um dia acaba o contrato”, confidenciou, acrescentando a seguir: “estou tranquilo nesta parte final da minha vida. Não tenho de dramatizar uma coisa que é a normalidade”.
Ministra da Cultura recorda um “escritor excecional e talentoso”, Montenegro destaca o seu legado
Entre as primeiras reações à morte de Mário Zambujal, Luís Montenegro fala na despedida de um “jornalista, escritor e contador de histórias que marcou gerações com o seu talento”.
Hoje despedimo-nos de Mário Zambujal – jornalista, escritor e contador de histórias que marcou gerações com o seu talento. A sua forma de comunicar cativava a atenção de quem o via e ouvia e fez escola no jornalismo português. O seu legado permanecerá na nossa memória coletiva.…
— Luís Montenegro (@LMontenegro_PT) March 12, 2026
“A sua forma de comunicar cativava a atenção de quem o via e ouvia e fez escola no jornalismo português. O seu legado permanecerá na nossa memória coletiva”, lê-se na publicação feita na rede social X.
Nessa mesma plataforma, a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, lembra um “escritor excecional e talentoso, uma inspiração para várias gerações”. “Além da literatura, também deixou uma distinta marca criativa no jornalismo, na rádio e na televisão”, apontou ainda.
Morreu Mário Zambujal, escritor excecional e talentoso, uma inspiração para várias gerações. Além da literatura, também deixou uma distinta marca criativa no jornalismo, na rádio e na televisão. À família, amigos e leitores, sentidas condolências.
— Margarida B Lopes (@margaridalopes) March 12, 2026
António José Seguro entretanto já reagiu também, através de uma nota publicada no site da Presidência da República. “Foi com tristeza que o Presidente da República tomou conhecimento da morte do jornalista e escritor Mário Zambujal, figura que nos deixa uma marca muito própria no jornalismo desportivo nacional, em todos os meios por onde passou, e que obteve vários êxitos com a sua escrita”, começa o comunicado.
“Orgulhosamente alentejano, foi sempre, nas suas palavras, ‘um desalinhado’ a que juntava um sentido de humor marcante. O seu romance Crónica dos Bons Malandros, adaptado mais tarde a cinema, foi um dos mais populares nos anos 80″, recorda Seguro, lembrando também a distinções com que Zambujal foi agraciado.
“O Presidente da República recorda Mário Zambujal e envia as suas sentidas condolências à sua família, amigos, ao Clube dos Jornalistas e demais colegas de profissão”, termina a nota.
Do lado da oposição, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, afirma que Portugal “perde hoje uma das suas figuras mais marcantes da cultura e do jornalismo”, com a morte do escritor a deixar “um vazio profundo na crónica e na literatura contemporânea.”
Tendo Mário Zambujal sido sócio do Sport Lisboa e Benfica desde 1959, o clube emitiu uma nota de pesar onde destaca a “figura marcante do jornalismo e da literatura portuguesa” que se destacou “ao longo de várias décadas pela qualidade da sua escrita e pelo olhar atento sobre a sociedade portuguesa”.
“Benfiquista assumido, manteve sempre uma ligação de afeto ao Clube, fazendo parte da grande família benfiquista que, ao longo de gerações, ajudou a construir a identidade e a dimensão do Sport Lisboa e Benfica”, lê-se ainda.
Câmara de Lisboa lamenta morte do jornalista e escritor
O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas (PSD), lamentou esta quinta-feira a morte do jornalista e escritor Mário Zambujal, recordando-o como “um contador de histórias” e enaltecendo a capacidade de “rir de Portugal sem nunca o trair”.
“Partiu Mário Zambujal e, com ele, uma dessas raras ironias luminosas que sabiam rir de Portugal sem nunca o trair. Ficamos mais pobres em graça e elegância, daquelas que não fazem ruído, mas deixam eco, como a palavra bem-dita”, expressou Carlos Moedas, numa declaração publicada no site da Câmara Municipal de Lisboa, em que envia as mais sentidas condolências à família e amigos.
O jornalista e escritor Mário Zambujal morreu esta quinta-feira, aos 90 anos.
“Hoje despedimo-nos de um contador de histórias; amanhã voltaremos a encontrá-lo onde verdadeiramente vivem os escritores: na memória viva dos leitores”, afirmou o presidente da Câmara de Lisboa.
O município recordou ainda a atribuição, em 2016, da Medalha Municipal de Mérito Cultural de Lisboa a Mário Zambujal, reconhecendo a forma como “retratou a cidade”, enquanto escritor e jornalista.
Nesse momento, segundo a Câmara Municipal de Lisboa, Mário Zambujal disse: “Senti-me sempre muito bem nesta cidade.”
Câmara de Moura enaltece percurso profissional e ligação à terra natal
A Câmara de Moura, no distrito de Beja, manifestou esta quinta-feira “profundo pesar” pela morte do jornalista e escritor Mário Zambujal, que era natural deste concelho alentejano, enaltecendo o seu percurso profissional e a ligação à terra natal.
Numa nota de pesar, o município lamentou a morte de Mário Zambujal, aos 90 anos, e realçou que o escritor e jornalista de “reconhecido mérito” era natural do concelho.
“Nascido em 1936, em Moura, Mário Zambujal manteve sempre uma ligação afetiva às suas origens alentejanas”, salientou, recordando que o jornalista e escritor “ainda criança viveu na Amareleja”, povoação deste concelho.
Segundo a câmara municipal, a família de Mário Zambujal mudou-se depois para outras regiões do país e, mais tarde, o jornalista acabou por se estabelecer em Lisboa, onde desenvolveu grande parte da sua carreira.
“Autor prolífico, Mário Zambujal conquistou sucessivas gerações de leitores com o seu humor subtil, o apurado sentido de observação e a forma singular de retratar a sociedade portuguesa”, sublinhou.
O município recordou que o livro “Crónica dos Bons Malandros”, publicado em 1980, marcou a sua estreia literária, assinalando que a obra se “tornou um verdadeiro clássico contemporâneo da literatura portuguesa, sendo posteriormente adaptada ao cinema e à televisão”.
“Com queda para a escrita desde muito cedo, publicou o seu primeiro texto aos 15 anos, um conto no semanário ‘Os Ridículos’”, lembrou a autarquia, frisando que, ao longo da sua carreira literária, o jornalista e escritor publicou diversas obras.
A par da atividade literária, aludiu a câmara municipal, Mário Zambujal “destacou-se também no jornalismo e na comunicação social”, tendo sido jornalista de A Bola, subdiretor do Record, chefe de redação de O Século e do Diário de Notícias, primeiro diretor do jornal Se7e e do semanário Tal & Qual e colunista do 24 Horas.
“Na televisão, tornou-se uma figura muito popular como jornalista desportivo da RTP e apresentador do programa Grande Encontro, tendo igualmente colaborado em rádio, nomeadamente no programa Pão com Manteiga, da Rádio Comercial, ao lado de Carlos Cruz”, mencionou.
A Câmara de Moura destacou igualmente o Prémio Gazeta de Mérito que lhe foi atribuído pelo Clube de Jornalistas, reconhecimento do seu “relevante contributo para o jornalismo e para a cultura”.
Sindicato recorda vida dedicada às palavras e ao jornalismo
O Sindicato dos Jornalistas (SJ) recordou a vida de Mário Zambujal, que morreu esta quarta-feira aos 90 anos, como dedicada às palavras, à curiosidade e, em particular, ao jornalismo.
“Hoje despedimo-nos de Mário Zambujal, jornalista e escritor, que nos deixa aos 90 anos. Despedimo-nos de uma longa vida, dedicada às palavras, à curiosidade e ao compromisso com o jornalismo”, referiu, em comunicado, o SJ.
Para a estrutura sindical, a morte de Mário Zambujal representa não só a perda de um profissional respeitado, mas de um colega, que pertencia à geração que “acreditava profundamente no valor do jornalismo como serviço público”.
O sindicato defendeu que Zambujal construiu o seu percurso com serenidade, tendo sido jornalista, numa época em que o trabalho exigia coragem e paciência, que deu, nos livros e reportagens, sentido ao tempo que viveu.
“Hoje despedimo-nos com tristeza, mas também com gratidão. Gratidão por uma vida dedicada às palavras, ao pensamento e ao jornalismo. Em nome do Sindicato dos Jornalistas, prestamos homenagem a Mário Zambujal e apresentamos à sua família, amigos e colegas as nossas mais sentidas condolências”, referiu.