Depois de mais de 1.000 dias de guerra, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, defendeu que Donald Trump deve aumentar a pressão sobre Vladimir Putin e deixe de o pressionar para aceitar um cessar-fogo. Numa entrevista ao Politico, concedida no palácio presidencial de Kiev, Zelensky mostrou-se agradecido pelo apoio internacional, mas considerou que este continua a ser insuficiente, sobretudo quando comparado com os recursos mobilizados para o Médio Oriente — região para a qual, segundo disse, a Ucrânia também mobilizou equipas para ajudar com para ajudar os aliados dos Estados Unidos a se defenderem dos drones Shahed. “Claro que as pessoas estão cansadas”, afirmou, acrescentando que embora queiram a paz, “não estão prontas para os ultimatos russos”.
No plano político e financeiro, Zelensky instou os líderes europeus a prepararem um “plano B” que assegure financiamento de longo prazo para a Ucrânia, contornando o bloqueio do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, a um empréstimo de 90 mil milhões de euros prometido pela União Europeia. “Não é um conflito entre a Hungria e a Ucrânia, é um conflito entre a Europa e a Hungria”, referiu. “Nós e a Europa precisamos deste plano B.”
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Depois de recentes trocas de acusações, na entrevista Zelensky acusou Orbán de estar alinhado com Vladimir Putin. “Ele está do lado do líder russo. Está a fazer o mesmo, a bloquear tudo para a Ucrânia”, afirmou. “Só há uma coisa que ele não faz: não está a atacar o nosso território com mísseis ou drones. E não está a enviar os seus soldados.” No plano da guerra retórica, o Presidente ucraniano acrescentou ainda que o primeiro-ministro húngaro tem replicado as mesmas narrativas da Rússia: “Ele está pessoalmente a fazê-lo”.
Apesar de sublinhar a necessidade de continuar a receber armamento, Zelensky reiterou que Kiev pretende terminar o conflito pela via diplomática. “Hoje queremos acabar esta guerra de uma forma negociada e diplomática”, declarou. Questionado sobre a forma mais dura com que tem lidado com Orbán, disse não acreditar que o “silêncio diplomático” seja uma estratégia eficaz na relação com o líder húngaro.
Uma semana depois de Trump ter manifestado frustração com Zelensky, dizendo também ao Politico que o líder ucraniano precisava de “se mexer” e chegar a um acordo, o Presidente da Ucrânia reconheceu que o chefe de Estado norte-americano será uma figura central em qualquer processo de negociações de paz. “Precisamos de negociações”, disse Zelensky. “Não confiamos na Rússia, mas acho, e acredito, que os americanos realmente querem acabar com esta guerra. Espero que eles nos ajudem, mas precisamos de pressionar mais a Rússia, não a mim.”
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Recordando uma conversa entre ambos, contou que Trump lhe perguntou se as garantias de segurança dos Estados Unidos poderiam ser mais fortes do que as da NATO. “Eu respondi: ‘Sim, hoje depende do senhor. Depende do senhor, Presidente. Que Deus nos abençoe se tivermos garantias de segurança mais fortes do que as da NATO. Mas o que virá depois do senhor? E o que virá depois de mim?’”, relatou.
Numa reflexão sobre o futuro, Zelensky considerou também que será difícil surgir “outro Putin com as mesmas skills e possibilidades”. Questionado diretamente sobre se odeia o líder russo, respondeu sem hesitar: “Claro, acho que nos odiamos um ao outro.” Afinal, reconheceu Zelensky, Trump estava certo quando disse que “odeia” Putin, mas ressalvou, entre risos: “Nisso ele está certo. Mas não em tudo”.