“I ain’t no punk. I’m one of y’all (não sou nenhum punk, sou um de vocês)” foi uma das míticas frases de Wallace na série The Wire. Com cara de criança, uma cabeça cheia de tranças, mas com atitude de gangster (ou gangster wannabe), foi assim que o mundo descobriu Michael B. Jordan, aos 15 anos. Já tinha aparecido aqui e ali — Cosby, Os Sopranos, Hardball —, mas foi o mafioso adolescente que, mesmo com uma participação pequena, se destacou no meio dos grandes (mafiosos e atores).
Um dia, alguém que o ainda jovem intérprete não conhecia de lado de nenhum, olhou para ele e sugeriu: “Devias fazer castings de ator ou modelo”. Algures, essa pessoa anónima acaba de ver que o seu comentário banal resultou numa carreira brilhante que culminou no Óscar de Melhor Ator. Michael B. Jordan recebeu na madrugada desta segunda-feira, 16 de março, o prémio máximo pela interpretação dos gémeos Smoke e Stack em Pecadores.
A vitória não deixa de ser inesperada, já que Timothée Chalamet foi o favorito durante praticamente toda a temporada de prémios, mas o Actor Award que Jordan recebeu no início de março virou as atenções para ele. O Óscar — já tinha sido nomeado para Melhor Ator Secundário em Black Panther (2018) — chega numa altura em que, aos 39 anos, Jordan muda de direção na carreira — mas de forma bem mais calma e ponderada do que as velocidades loucas a que conduz na autoestrada —, focando-se cada vez mais na realização. Está em fase de pós-produção de uma nova versão de The Thomas Crown Affair, um projeto no qual trabalha há mais de uma década, e tem uma data de outros projetos fora do mundo da representação — incluindo um clube de futebol inglês.
Eleito Homem Mais Sexy do Mundo pela revista People, em 2020, está no top 15 da lista dos Melhores Atores do Século XXI elaborada pelo The New York Times, é dono de uma produtora e o símbolo de uma geração de atores afro-americanos (sucessores de Denzel Washington ou Morgan Freeman) com quem toda a gente quer trabalhar. Até agora, está a cumprir-se a “promessa nobre” que os pais desejaram para ele quando lhe chamaram Michael Bakari [que significa precisamente “promessa nobre” em suaíli] Jordan.
Corridas ilegais, droga na rua, mas paz em casa
Nasceu a 9 de fevereiro de 1987 em Santa Ana, na Califórnia. Tem uma irmã mais velha, Jamila, e um irmão mais novo, Khalid. Quando ainda era bebé, a família mudou-se para Newark, em Nova Jérsia, para estar perto da avó materna. Os miúdos estudaram numa escola privada, Chad, onde a mãe, Donna, foi assistente social (apesar de ter estudado artes visuais). O pai, Michael A. Jordan, veterano da marinha, criou um negócio de catering — e acreditava que para os filhos serem alguém na vida tinham de estudar e ter um curso superior. “Esperava-se que lêssemos não só os livros escolares, mas também livros que nos falassem de quem éramos, de onde vínhamos e de como poderíamos fazer a diferença. Sempre que passava pela sala de jantar, encontrava o meu pai absorto noutro livro, a ler sobre questões de justiça, direitos civis e história negra”, recordou Michal B. à revista Guideposts, em 2018.

Em casa, a ginástica financeira era complexa. “Venho de [uma realidade em que tinha de] dormir na cozinha com a minha família, com o forno aberto para nos manter aquecidos durante o inverno”, contou à GQ em 2018.
As contas faziam-se ao cêntimo, como revelou recentemente ao aceitar o Actor de Melhor Ator. “Mãe, obrigado por me levares e trazeres de Nova Iorque [para as audições] quando não tínhamos dinheiro suficiente para passar pelo túnel Holland, quando estávamos à procura de dinheiro para a gasolina, lugares de estacionamento… obrigado.”
No bairro de Newark onde vivia, acordar de manhã, sair para a rua e encontrar sacos de crack e preservativos era normal — também foi assaltado à mão armada e viu cenas de crime. Os pais tentaram protegê-lo, criando um mundo contido: igrejas de afro-americanos, escolas de afro-americanos, clubes de afro-americanos. A família era religiosa e ele considera-se espiritual. Quando a avó ficava a tomar conta dele, o que mais fazia era colocá-lo a ler escrituras ou a meditar.
Para que nada estivesse fora do alcance e supervisão dos pais, os amigos dos filhos eram muitas vezes convidados para dormir lá em casa. “A minha casa era o ponto de encontro. Tinhas uma ótima refeição e podias jogar basquetebol lá fora, videojogos ou assistir a um filme.” Continua a gostar de anime e, de vez em quando, ainda joga Call of Duty.
Numa ida ao pediatra, enquanto estava sentado na sala de espera ao lado da mãe, alguém sugeriu que Michael B. Jordan tentasse fazer trabalhos de modelo ou de ator. Tinha 11 anos. “Um pequeno comentário de um completo desconhecido, mas motivou-me. Comecei a ter aulas de representação e a ir a audições”, lembrou em entrevista à Guideposts.
Entrou em campanhas da Toys “R” Us, da Kmart e foi quando o pai o acompanhou a um casting para um anúncio a uma marca de aperitivos que a opinião dele em relação ao futuro do filho mudou. Jordan estava doente e passou o dia a dormitar e a vomitar entre as fases da audição, mas o pai foi registando o que se dizia sobre ele e reproduziu-o anos depois. “Bakari [a família trata-o pelo segundo nome próprio], foi quando percebi que eras especial. […] Eu vi, tinhas motivação, estavas concentrado”, contou em entrevista ao The Hollywood Reporter em 2021.
A estreia em televisão aconteceu em Cosby, em 2000. Bill Cosby pediu-lhe que praticasse pentear o próprio cabelo para uma cena. O miúdo esteve uma tarde inteira a fazer aquilo, tanto que o couro cabeludo ficou a arder. O papel em The Wire foi o primeiro digno desse nome. Aos 15 anos, Michael B. Jordan interpretou um miúdo, membro de um gangue, que acaba morto por um amigo mais velho depois de assistir a um assassinato e, por isso, se transformar numa testemunha perigosa. O ator Andre Royo, que interpretava Bubbles, viciado em drogas, contou, numa reportagem de 2018 da Vanity Fair, que Jordan lhe pediu conselhos para interpretar alguém que está drogado. “Veio ter comigo, um miúdo pequeno, mas ansioso por aprender, e disse: ‘Ei, Dre, importas-te de me dar algumas dicas? Achas que me podes ajudar com isto’? E eu ri-me para mim mesmo, pensando: ‘Espero que ele esteja pronto’.”

Sempre foi obcecado por carros, sobretudo o Acura NSX — modelo que acabaria por ter depois do primeiro filme de Creed. Mas muito antes disso, no final da adolescência, quando conseguiu juntar algum dinheiro da representação, comprou um BMW 330Ci e ia para parques de estacionamento fazer corridas ilegais com os amigos. Quando estragou a transmissão do carro, teve de ligar ao pai (que não fazia ideia do que se passava). “Estava a morrer de medo. Sabia que ia dar porcaria. […] Fui posto no lugar. Lembro-me da primeira vez que pensas que podes desafiar o teu pai e depois percebes que ele é um homem adulto e tu pesas 55 quilos molhado e tens os bolsos cheios de cêntimos só.”
Depois de terminar o ensino secundário, teve de optar: ir para a faculdade ou tentar encontrar espaço no mundo da representação. Escolheu a segunda hipótese. Em 2009 mudou-se para Austin, no Texas, para entrar na série Friday Night Lights, criada por Peter Berg. O projeto durou dois anos, mas com o showrunner Jason Katims criou uma ligação forte que lhe garantiu depois um papel recorrente em Parenthood. Estas duas figuras plantaram uma semente importante na carreira de Jordan. “Disseram-me: ‘Sabes, Mike, propriedade. Começa a escrever, começa a construir coisas. Vais cansar-te de esperar que o telefone toque e tens de assumir o controlo do teu próprio destino’.”, recordou à IndieWire em dezembro de 2025.
O conselho seria guardado para mais tarde porque, nessa altura, o ator não tinha assim tantos papéis à escolha. “Nos meus 20 e poucos anos e no final da adolescência, isso significava apenas trabalhar no que estava disponível. […] Havia os filmes que eu sempre quis fazer, mas não via muitos papéis disponíveis para mim. Essa era a geração mais velha. Filmes como Dia da Independência, MIB — Homens de Negro e a infinidade de filmes com o Denzel [Washington].”
Em Los Angeles, os primeiros tempos foram feitos de sobressaltos, sempre com a mala feita para voltar para casa dos pais. “Houve muitos momentos em que pensava: ‘Meu, como é que vou conseguir passar o próximo mês’? Sempre que sentia que estava quase a ter de voltar para casa, ou que as coisas não estavam a correr bem, conseguia um trabalho”, recordou à Vanity Fair em fevereiro deste ano.
Foi a partir de Red Tails (2012), filme produzido por George Lucas do qual também faz parte Daniela Ruah, que começou a respirar sem ter de contar os tostões na conta bancária. “Foi nesse momento que comecei a fazer o caminho que me permitiu acumular uma série de empregos que seriam a base a partir da qual eu poderia começar a crescer”, contou à GQ.
Em 2013 a interpretação em Fruitvale Station: A Última Paragem — que acompanha as últimas 24 horas de vida de Oscar Grant, um jovem de 22 anos de Oakland que foi morto a tiro sem motivo por um agente da polícia de transportes numa plataforma de comboio no dia de Ano Novo de 2009 — valeu-lhe muitos elogios, incluindo a comparação a um “jovem Denzel Washington” e marcou também o início da relação colaborativa com o realizador Ryan Coogler, cujas primeiras palavras para Jordan foram: “Yo, escrevi isto para ti”. O ator retorquiu: “OK. Acreditas em mim? Oh, merda. Achas que eu sou assim? Eu também acho que sou assim. Nunca ninguém me disse isso. Tudo bem, vamos lá fazer isso”, disse à IndieWire.

Ainda antes de começarem as filmagens, já Coogler lhe tinha falado também de Creed (saga que já produziu três filmes]. “Tinha dois filmes [combinados] com o Ryan antes de ter filmado um único frame.”
Em 2015 encarnou então Donnie Creed, filho do pugilista Apollo Creed, em Creed, spinoff de Rocky. Preparou-se fisicamente durante um ano, com seis treinos intensos por semana, e focou-se numa dieta com baixo teor de gordura. Nas filmagens dispensou ter um duplo e, por isso, estava constantemente ensanguentado, tonto e com nódoas negras.
Entrou em Quarteto Fantástico (2015), Black Panther, Farenheit 451 (ambos de 2018) e Tudo Pela Justiça (2019). Estreou-se na realização com Creed III (2023). “É o momento pelo qual esperei toda a minha vida. É agora. Isto pode ditar os próximos 10, 15, 20 anos”, disse à revista The Hollywood Reporter.
Desde 2016 produz todos os filmes em que participa através da produtora Outlier Society (uma homenagem ao livro Outliers, de Malcolm Gladwell), onde um dos grandes objetivos é quebrar rótulos e estereótipos. “Quando andava na escola, pensava sempre que talvez estivesse a prestar atenção a algo a que ninguém mais prestava atenção”, explicou, sabendo que há mais artistas que sentem o mesmo e que têm muita dificuldade em fugirem às categorias onde são constantemente colocados.
Mudou-se para Los Angeles em 2006 e, poucos anos depois, os pais e o irmão Khalid foram viver com ele na casa que comprou em Sherman Oaks. “Tudo o que pudesse fazer para melhorar a vida deles, da minha mãe, que tem lúpus, e do meu pai — infelizmente, agora tem diabetes. Eles cuidaram de mim durante tantos anos, foi bom ter a oportunidade de cuidar deles. Um pouco como na minha infância, quando a nossa casa era o ponto de encontro de toda a gente. Graças a eles”, justificou à revista Guideposts.
As paredes tinham grandes pinturas impressionistas (da autoria da mãe) e fotos de Martin Luther King e Malcolm X. As estantes estavam cheias de livros sobre história afro-americana. Quando fazia reuniões em casa, o pai aparecia sempre com um tabuleiro de sanduíches. Em 2018 mudou-se, sozinho, para uma penthouse numa localização mais central e depois comprou uma quinta, que está agora a pensar vender por ser demasiado grande para uma pessoa só. Não tem filhos nem planos imediatos para tal e sobre a vida pessoal é pouco expansivo, embora tenha deixado escapar que a relação mais duradoura que já teve não foi além de um ano. Admite estar completamente focado no trabalho, o que deixa muito pouco tempo para o resto.

Tem uma linha de bebidas saudáveis, Moss, e há-de chegar uma de rum. Um dia gostaria de abrir um restaurante, até porque adora cozinhar — além de passar a ferro, que diz ser o seu super-poder. Quando era miúdo, o canal Food Network estava sempre ligado na televisão e ele devorava tudo: Iron Chef, Beat Bobby Flay, Top Chef. Essa obsessão fez dele um ótimo cozinheiro. E qual é o prato que cozinha para impressionar? “Faço umas pêras cozidas em Merlot bastante especiais — e até saudáveis, tirando o açúcar que lhe pomos. É uma boa sobremesa”, garantiu à W Magazine em janeiro de 2026.
É raro sair para jantar, prefere encomendar, mas gosta tanto de comer que, em novembro de 2025, quando estava em Londres — e ainda tinha uma paragem para fazer em Itália para filmar The Thomas Crown Affair —, salivava com o regresso a casa. “Assim que voltar para a Costa Leste, meu, vou ter de ir buscá-lo [frango de Cluck-U Chicken, uma cadeia que existe sobretudo em Nova Jérsia, onde cresceu. […] Tenho de ir buscá-lo”, garantiu ao jornalista da Vanity Fair que estava a entrevistá-lo.
É fã dos New York Giants e, na Europa, é adepto do Everton. Em 2022 foi anunciado que é o detentor de parte do AFC Bournemouth, da primeira liga inglesa — esta época até contribuiu para desenhar as camisolas. Também é um dos investidores da Alpine F1 (equipa de fórmula 1), juntamente com os atores Ryan Reynolds e Rob McElhenney.
Os carros sempre foram um dos grandes vícios e, em dezembro de 2023, despistou-se contra um carro Kia que estava estacionado e destruiu o Ferrari 812 Superfast que conduzia. Saiu incólume do acidente e, apesar de haver testemunhas que garantiram que estava a fazer uma corrida, nada foi provado e o caso foi encerrado.
Uma consagração feita de Pecadores
Pecadores é a quarta parceria de Michael B. Jordan e Ryan Coogler — depois de Fruitvale Station, Creed e Black Panther (além de uma pequena participação em Black Panther: Wakanda Para Sempre). Passada nos anos 30, em plena segregação no sul dos EUA, esta história é conduzida pelos gémeos Smoke e Stack (interpretados por Jordan), que voltam ao antigo bairro com um plano para finalmente ganharem dinheiro de forma legal. Porém, há uma entidade maligna que parece estar precisamente à espera desse regresso e a narrativa toma um rumo sobrenatural.
Para começar a preparar os papéis, o ator arranjou dois diários, um para cada gémeo, onde começou a escrever as histórias de fundo. “Tivemos a oportunidade, com o Ryan, de realmente explorar a infância deles e de sermos tão coloridos quanto precisávamos. Passar por esses marcos, o trauma infantil que carregavam com eles, o trauma do ambiente e do mundo em que viviam, da época em que viviam. Tudo o resto é como construir uma casa — são camadas e camadas e camadas nas quais precisamos de mergulhar”, explicou no podcast da Vanity Fair, Little Gold .


Foi, admitiu, o filme mais difícil que já fez porque a espontaneidade e o improviso tiveram de ficar completamente fora da equação. “O irmão que entra primeiro define as regras e os limites, porque no segundo take tenho de me encaixar nessa primeira atuação. Se andei numa determinada área ou se ocupei um determinado espaço no set ou disse alguma coisa, quando me torno o outro gémeo, não posso andar nesse mesmo espaço ao mesmo tempo, não posso falar por cima dele.”
Nos bastidores trabalhou também com um consultor de gémeos e com gémeos idênticos, que lhe foram tirando todas as dúvidas. “Também fiz algum trabalho espiritual e com chakras para determinar onde é que o Smoke e o Stack guardavam os traumas de infância e como isso influenciava a sua postura e cadência de fala”, contou à W Magazine.
Chorou durante as filmagens e chorou no visionamento — quase tanto como quando vê Armageddon. Quando era mais novo tinha dificuldade em libertar-se dos papéis. “Parte destas personagens nunca vão deixar-me, são parte de mim, isso é reconfortante.”
Porém, a terapia tem ajudado o ator a arrumar tudo isso para arranjar espaço para novos desafios. “Eu encorajo isso [a terapia]. Como comunicar os teus sentimentos — especialmente para os homens, e homens negros —, essa masculinidade tóxica e como ela se manifesta. Sou a favor de conversar”, disse à Vanity Fair.
Pecadores já tinha feito história com 16 nomeações para os Óscares — o máximo que um filme alguma vez recebeu. Depois desta noite, não terá muito tempo para digerir o que está a acontecer, porque tem de voltar a fechar-se na sala de edição para terminar The Thomas Crown Affair, que realiza e protagoniza, e que tem estreia prevista para março de 2027. Há dez anos que está a trabalhar no remake, mas a história protagonizada por Pierce Brosnan em 1999 (e antes por Steve McQueen, em 1968) não lhe sai da cabeça desde a época em que passava a vida a ir a Nova Iorque fazer castings. “Aquele filme [mostrou-me] um lado diferente de Nova Iorque que eu nem sabia que existia”, recordou em entrevista à revista GQ em fevereiro de 2025.
The Thomas Crown Affair é a prova de que está sempre a pensar 30 passos à frente, como confidenciou ao The Hollywood Reporter em 2021. “O Phil [Sun, o manager] e eu estamos sempre a fazer um plano a três, cinco anos.” Porém, admite que quer atuar cada vez menos e realizar cada vez mais. “Estou ansioso por realizar algo em que eu não apareça de todo”, disse à Vanity Fair.
Ideias não lhe faltam e, por vezes, até são demasiadas. “Fico acordado a noite toda, entende? É difícil para mim dormir à noite, porque é difícil desligar o cérebro”, explicou à GQ. Admite que é em autoestradas desertas que muitas vezes encontra o espaço e a paz de que precisa: “Aprecio a vida a 250 km/hora”.