(c) 2023 am|dev

(A) :: A história que fizeram de Gisberta

A história que fizeram de Gisberta

Reduzir a complexidade humana a símbolos políticos exige sempre o mesmo método: escolher um fragmento, amplificá-lo até ocupar a história inteira e deixar cair o resto no silêncio.

Margarida Bentes Penedo
text

Na quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2006, foi morta no Porto uma senhora, Gisberta Salce Júnior, atirada ao fundo do poço de um prédio abandonado por um grupo de catorze rapazes com idades compreendidas entre os doze e os dezasseis anos. Entre os três rapazes que a transportaram até ao poço estava Fernando, filho de uma prostituta colega de Gisberta. Por se tratar de um homicídio brutal praticado por menores, o caso atraiu a atenção dos media.

Aparentemente, Gisberta, nascida em São Paulo em 1960, chegara a Portugal com cerca de vinte anos. Era considerada particularmente bonita. Já submetida a terapia hormonal e colocação de silicone, começara a trabalhar com algum êxito na chamada “vida nocturna” – incluindo espectáculos em bares gay e prostituição bem paga – que lhe permitira viver com uma certa comodidade. Viciou-se em drogas, contraiu SIDA, desceu para casas cada vez mais baratas até acabar sentada na borda do passeio. Instalou-se naquele prédio e armou ali uma espécie de barraca.

Quem a encontrou primeiro foi Fernando, pela ligação de Gisberta com a mãe dele. Tornaram-se amigos, conversavam, o rapaz levava-lhe comida que ele próprio cozinhava. Os outros rapazes foram aparecendo até se juntarem ali regularmente e aproveitavam o abandono do prédio para desenhar grafitis. A pouco e pouco mudaram de atitude até que insultaram, agrediram, bateram, torturaram, forçaram Gisberta a actos degradantes e por fim assassinaram-na. Gisberta acabou no fundo do poço. No mesmo dia, um dos rapazes contou à professora o que haviam feito, entre outras razões por achar que Gisberta merecia um enterro.

Vinte anos depois, a história de Gisberta continua a ser lembrada, já não como história, mas como pretexto. Na terça-feira desta semana, na Assembleia Municipal de Lisboa, um Voto de Pesar extraía com uma pinça a parte da história escolhida para alimentar a mitologia política da extrema-esquerda – desta vez inteiramente suportada pelo PS. Gisberta era identificada como “mulher trans”; a interpretação descrevia o crime como resultado de opressões estruturais; os catorze adolescentes deixavam de ter relevância e, às vezes, nem mereciam menção; em vez de uma pessoa, tinha sido assassinado um símbolo. Finalmente, tornavam-se indispensáveis políticas públicas identitárias.

Reduzir a complexidade humana a símbolos políticos exige sempre o mesmo método: escolher um fragmento, amplificá-lo até ocupar a história inteira e deixar cair o resto no silêncio. Onde estava a escola?, onde estava o Estado?, onde estava a sociedade?, onde estavam a família e os pais daqueles rapazes? A história de Gisberta é muito mais profunda do que um cartaz. É uma história de miséria, pobreza, abandono e exclusão. Essa história continha uma vida, um meio social degradado, catorze adolescentes desprotegidos e uma escalada de violência difícil de compreender. Transformada em emblema identitário, tudo isso desaparece. Ficam apenas os interesses da extrema-esquerda, prontos a usar quaisquer recursos para forçar políticas públicas desequilibradas.