O primeiro-ministro britânico foi avisado dos perigos que a nomeação de Peter Mandelson como embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos representava, nomeadamente pela “relação particularmente próxima” com Jeffrey Epstein. Após ser despedido, Mandelson recebeu 75 mil libras, mais uma indemnização especial de pouco mais de 34 mil libras.
O Governo britânico publicou, na tarde desta quarta-feira, a primeira tranche dos “ficheiros Mandelson”, que inclui documentos sobre a nomeação de Peter Mandelson como embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos. Mandelson foi afastado do cargo em setembro do ano passado, depois de a publicação dos “ficheiros Epstein” ter revelado a verdadeira extensão da amizade, já conhecida, entre Mandelson e o criminoso sexual norte-americano Jeffrey Epstein, que morreu na prisão em 2019.
Um dos documentos agora publicados revela que o primeiro-ministro britânico foi avisado dos perigos que a nomeação de Mandelson representava. Numa nota enviada para Downing Street, no dia 11 de dezembro de 2024, Keir Starmer foi informado da “relação particularmente próxima” entre Mandelson e Epstein e avisado que a sua nomeação como embaixador podia ser um “risco geral de reputação”.
Os documentos são um dossier com 147 páginas que revela detalhes sobre o procedimento interno em Downing Street antes da nomeação de Mandelson. Porém, os documentos não foram publicados na sua totalidade a pedido da polícia, de modo a não prejudicar a investigação criminal que as autoridades têm a decorrer contra Mandelson.
Entre as informações que foram retiradas dos documentos estão três questões que Matthew Doyle, advogado do primeiro-ministro, e Morgan McSweeney, à data chefe de gabinete mas que apresentou a demissão na sequência da saída de Mandelson, concordaram que tinham de ser feitas a Mandelson antes da sua confirmação como embaixador. Porém, a BBC avança quais são essas questões:
- Mandelson manteve-se em contacto com Epstein depois da sua condenação em 2008 por solicitação a um menor?
- Mandelson ficou em casa de Epstein enquanto o empresário estava na prisão?
- Quais as suas relações com a empresa de caridade fundada pela parceira de Epstein, Ghislaine Maxwell?
O nome do Presidente Donald Trump também aparece nos ficheiros publicados pelo Governo britânico relativos a Peter Mandelson. No dia 27 de janeiro de 2025, o subsecretário permanente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Oliver Robbins, enviou um email em que menciona que discutiu a nomeação de Mandelson com o então conselheiro de segurança nacional de Trump, Mike Waltz.
Na conversa por telefone “não houve qualquer sugestão que a nomeação de Peter pudesse ser um problema para o p/c de Trump”, referindo-se ao conselho que reúne secretários da administração norte-americana, chefes das Forças Armadas e líderes da comunidade das secretas. Em 2025, já era conhecida a relação próxima entre Mandelson e Epstein.
Depois de ter sido despedido do cargo de embaixador, em setembro do ano passado, Peter Mandelson pediu ao Ministério dos Negócios Estrangeiros uma indemnização de mais de 500 mil libras. O valor a ser pago acabou por ficar estabelecido, após negociações, em 75 mil libras, mais uma indemnização especial de pouco mais de 34 mil libras, segundo emails que foram trocados entre Mandelson e os serviços do Ministério.
O pagamento está a ser criticado pelos partidos da oposição que questionam a esta hora o primeiro-ministro Keir Starmer no Parlamento. O Partido Conservador considerou que o povo britânico “vai ficar revoltado” com o pagamento, enquanto o líder dos Democratas Liberais classificou a indemnização como “um insulto às mulheres e raparigas que sofreram às mãos de Epstein”.
Mandelson organizou encontro entre Blair e Epstein
Os documentos agora publicados revelam que Mandelson foi responsável por organizar um encontro entre o então primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e o criminoso sexual Jeffrey Epstein, cujos seus crimes só foram tornados públicos aquando da sua primeira condenação criminal, em 2008.
Seis anos antes, a 7 de maio de 2002, Mandelson enviou um email ao chefe de gabinete de Blair em que escreve que “quando [Bill] Clinton [antigo Presidente dos EUA] viu TB [Tony Blair] disse que o queria apresentar ao seu amigo de viagens, Jeffrey Epstein”. “Eu mencionei a TB que Jeffrey está em Londres na próxima semana e ele disse que gostaria de o conhecer”, acrescenta Mandelson no email para Jonathan Powell.
A BBC confirmou, em 2025, que o encontro se concretizou, numa conversa “de menos de 30 minutos em Downing Street em 2002”. Mas em 2024, Keir Starmer já tinha sido informado que o Conselho de Ministros detinha os documentos que davam conta do papel de Mandelson na organização deste encontro, pode ler-se numa nota enviada ao primeiro ministro no final desse ano e que também foi publicada agora.
Muitos dos documentos publicados estão relacionados com o encontro entre Jeffrey Epstein e Tony Blair, que terá acontecido no dia 14 de maio de 2002, às cinco da tarde, segundo uma nota de agenda enviada pelo secretário pessoal de Blair, Matthew Rycroft, ao próprio primeiro-ministro.
“Ele é um consultor financeiro dos super-ricos e um promotor imobiliário. Ele é amigo de Bill Clinton e Peter Mandelson”, escreveu Rycroft. Nas notas sobre o “background” de Epstein surgem outras figuras britânicas cujo nome aparece sempre próximo do do empresário. “[Epstein] é próximo do Duque de Iorque. Parece que conheceu o Príncipe André através da filha de Robert Maxwell, Ghislaine, com quem teve uma relação intermitente. Ele visitou Sandrigham e Windsor no ano passado”, lê-se no email enviado a Tony Blair.
“Peter diz que Epstein agora viaja com Clinton e que Clinton quer que o conheça. Ele acha que vai valer a pena ter uma conversa com ele sobre (a) ciência e (b) economia internacional e tendências monetárias”, escreveu ainda Rycroft.