À falta de melhor novela, o país entretém-se com a política. Por estes dias, a questão divide-se em dois temas: as “declarações” de Passos Coelho e a tomada de posse de Seguro. Pelo meio, as “reacções” — aquilo que faz o jornalista soltar frémitos de pequena excitação é sempre a “reacção”, pede-se a “reacção”, pergunta-se ao colega se já tem a “reacção”, faz-se o directo para obter a “reacção” — às ditas declarações, bem como à celebrada tomada de posse. É, explicam-nos, a “festa da democracia”.
1 Comecemos pelo fim. Seguro, o anti-Marcelo, vispou-se para o lugar que agora ocupa graças à promessa de ser o oposto do seu antecessor. Assim, onde o outro, o que em hora demasiado tardia ora se foi, passou o tempo a correr, saltar, gritar, dançar, espernear, já este, o que vem, promete serena tranquilidade, assim jorrando relaxe no seu discurso de lançamento, em monótona cadência, para entorpecimento generalizado da audiência e adormecimento da população, enquanto cospe o maior acervo alguma vez escutado de banalidades políticas.
Partindo da garantia de “estabilidade”, da promessa de que “vale a pena acreditar”, da enumeração dos problemas de sempre, aqueles com os quais todos se indignam quando eleitos e se esquecem quando condecorados, como bom socialista, Seguro lá bateu as capelinhas do costume, lembrando a “pobreza sistémica”, a “falta de produtividade”, a “desigualdade”, a “morosidade da justiça”, os “baixos salários”, o “envelhecimento demográfico”, a “insegurança”, a “falta de acesso”, no caso à “saúde”, à “educação” e à “habitação”, bem como a “desconfiança nos políticos” — ora, pudera, estranho seria se o povoléu continuasse a comprar discurso velho e batido com esperança de que alguma coisa mudasse.
Ainda assim, após a dose de cafeína regada a metanfetaminas e Fortimel com que nos engasgámos nos passados dez anos, o tom monocórdico, insípido, embalador de Seguro foi quase reconfortante. Quase, porque, claro está, depois dos problemas, seguiram-se as soluções com que prometeu devolver, imagine-se, “a esperança aos portugueses”. A contrastar com a seriedade compungida do novel presidente, só mesmo o facto de também estas não passarem de bem-estudados clichés habituais nestas ocorrências políticas: vai daí e lá veio a necessidade da “estabilidade”, da “previsibilidade” das medidas políticas, do “reformismo”, da “capacidade de diálogo”, da preocupação do “longo prazo” ao invés do “interesse partidário” imediato, etc., etc., etc…
No final, tudo junto, foi a lengalenga do costume, incluindo o pernicioso hábito de condecorar o presidente anterior, neste caso desvalorizando a condecoração ao nível de uma lata velha de Coca-Cola. Sobre Marcelo, o condecorado, o principal elogio foi o do “amor” deste a Portugal, a historieta ridícula dos “afectos”, bem como o facto de, e cito, “durante dez anos os portugueses o terem sentido sempre presente” — aqui, admita-se, até é verdade, o homem foi omnipresente, permanentemente a respirar ofegantemente por trás de cada um de nós, com os queixos em cima dos nossos pescoços, a babar-se e largar perdigotos contra as nossas orelhas.
Politicamente, no entanto, é precisamente nesta substituição que reside a novidade. Onde Marcelo, com a sua hiper-activa bipolaridade, chamando a si os doces holofotes da fama e da importância gravítica política, entrevia razões atrás de razões, quer à frente das câmaras, quer bufando para os jornais como “fonte anónima da presidência”, para, “eventualmente”, “nesse caso” ou “se assim for”, de gelado na mão e toalha de praia à cintura, ver-se forçado a dissolver a Assembleia da República, já Seguro, que até não o pode fazer por constrangimento constitucional durante os próximos seis meses, promete o exacto contrário: no caso, “acabar com o frenesim eleitoral”. Veremos se consegue, quanto mais não seja, o povo já celebra se simplesmente acabar com o frenesim do antecessor – tudo o resto é bónus.
2 Nos entretantos, a comprovar a ideia de que os “mandatos políticos são para cumprir” não passa de um chavão, o Primeiro-ministro e o seu marechal de campo que todos os modos, tiques, jeitos e trejeitos imita ao chefe na esperança de uma espécie de sucessão futura por osmose — falo do duo maravilha Montenegro e Soares —, resolveram criar uma mini-crise política por causa das tais “declarações” de Passos Coelho. Veja-se a força eleitoral, o arcaboiço político, o ânimo reformista de um Primeiro-ministro que, apenas por um seu antecessor lhe pedir que fizesse mais e melhor, logo se atira para o chão a chorar falta e a pedir eleições directas no PSD — é assim a modos que um Vinícius Jr. da política portuguesa.
Aliás, se a situação é ridícula, pior mesmo é perceber que o comportamento até é recorrente. Lembremos, por exemplo, no ano passado, quando por causa de umas coisas com contratos, amigos, empresas, filhos e coisas que tal, numa historieta que nunca se percebeu muito bem, Montenegro, vendo-se em apuros, logo mostrou a estratégia de jogador da bola: à mínima coisa que te belisque, atira-te ao chão e diz que te empurraram. O resultado foi aquela moção de confiança apresentada no parlamento e que, mesmo sabendo que não passava — porque todos disseram pública e atempadamente que não a aprovariam — não teve pejo em utilizar como fajuta arma de arremesso para convocar eleições e concorrer com o slogan “deixem o Luís trabalhar”. Ou seja, perante a primeira dificuldade e logo o Primeiro-ministro preferiu lançar o país em eleições com a ideia, própria do terceiro mundo, que a aprovação eleitoral tudo lava e tudo legitima.
Como a coisa até resultou, a táctica foi repetida, sendo agora o motivo para a grande penalidade auto-infligida o facto de Passos Coelho vir exigir-lhe que fizesse aquilo pelo qual tanto lutou — no fundo, que “trabalhasse”.
Aliás, Passos Coelho, em bom rigor, nada disse de extraordinário. Afirmou, atrevo-me a dizer, o óbvio: se não há reformas eleitorais porque não há aritmética política para as aprovar no parlamento, então que se tentem criar as condições políticas para exista tal necessária aritmética. Isto não deveria ser complicado de perceber. Aliás, é nisso mesmo que a política consiste: ter ideias, propostas, projetos, sim, senhor, é bonito e tal, mas também convém criar as possibilidades para que tais desideratos sejam implementados e não morram inutilmente no papel.
Mais, relembremos também que a falta de condições políticas não caiu propriamente do céu. Pelo contrário, ela deriva de uma estratégia que, por sinal, é da inteira responsabilidade do Sr. Primeiro-ministro: o “não é não” ao qual, por fraqueza, depois de muito instado pelo PS e demais comunicação social, se subjugou e que consubstancia a divisão que, cindindo a direita, impede a maioria no parlamento de se entender, esse “não é não” é famosamente seu — e de mais ninguém.
Desde o nascimento das famigeradas “linhas vermelhas” com o virtuoso manifesto dos conselheiros Acácios da direita portuguesa que muitos alertaram, incluindo eu por aqui, que tal estratégia apenas teria dois resultados, e nenhum deles particularmente positivo: o primeiro, seria fazer crescer Ventura e o Chega na medida em que os colocava, literal e efectivamente, na posição de única oposição a um sistema que se unia por inteiro contra eles. O segundo, seria tornar a direita incapaz de governar na medida em que mesmo que conseguisse sucessivas maiorias no parlamento, ao dividir-se de forma inconciliável, tornar-se-ia inconsequente. O tempo comprovou a perversidade das “virtuosoas” linhas encarnadas.
De igual modo, e ao contrário de tudo o que é político neste país, Passos Coelho também foi muito claro. O país precisa de reformas estruturais, estas são impossíveis de fazer com o PS, sobra a possibilidade de as fazer à direita. Até pode ser que não seja exequível criarem-se condições para que tais medidas sejam aprovadas, mas o interesse nacional força a que, ao menos, se tente. A obrigação dessa tentativa recai, obviamente, sobre o Primeiro-ministro.
Aliás, a divergência é tão clara que não se compreende a celeuma: ou o PSD se vira para a direita e procura o entendimento para um conjunto de reformas, mostrando ao eleitorado, pelo menos, as razões pelas quais deverá dar condições “ao Luís para trabalhar”; ou, em alternativa, o PSD contenta-se com a gestão do poder ao centro, no vazio, focado no curto prazo e manobrando as oportunidades como melhor der jeito, com o custo de oportunidade de ver o seu prometido reformismo enfiado na gaveta.
Escolher o primeiro caminho foi o repto que Passos Coelho lançou publicamente a Luís Montenegro. Já este último, ao virar-se contra Passos e recorrer à farsa ridícula das directas como forma de se “legitimar” — um truque que hoje em dia já nem no plenário de secção do partido faz grande efeito —, mais uma vez mostrou que entre a responsabilidade de governar e o truque da vitimização, Montenegro escolhe reiteradamente o segundo. Ou seja, infelizmente, o Primeiro-ministro não parece alcançar a importância da escolha que tem pela frente. Pior, e verdade seja dita, a leviandade com que a cada vez que tem uma dificuldade mediática se atira para o chão e coloca a sua liderança em jogo — neste caso a partidária — apenas revela uma falta de seriedade que não se coaduna com o cargo que ocupa. É pena.
Depois, como se não bastasse, lá vem de novo o pretendente a sucessor Hugo Soares com a lengalenga recauchutada de Rui Rio afirmando que “o PSD é um partido do centro”. Apre, haja paciência! Não apenas a liderança do PSD insiste na estratégia que mais fortalece o Chega e Ventura, mantendo o “não é não”, como trata de recuperar agora o slogan que, fazendo o PSD desocupar o centro-direita que sempre tradicionalmente representou, levou, desde a versão original com Rio, ao aparecimento de vários partidos políticos, incluindo o Chega. Extraordinário.
Aliás, de tão estapafúrdio, no final, sobra uma dúvida: insistir no “não é não” e continuar a alimentar o Chega não o encostando à parede com a responsabilidade da governação — ou pelo menos da aprovação publicamente escrutinada da reforma A ou B — é algo que não parece assustar Montenegro e Soares. Por que será? Será que lhes escapa a subtil dificuldade da situação política para o futuro? Ou, pelo contrário, espertalhaços, percebendo-a bem demais, compreenderam que, em eventualmente perdendo futuras eleições para Ventura, o “não é não” de fragilidade e limite passa a boia de salvação, garantia de sobrevivência política, porque permitindo, “em nome da salvação democrática nacional”, virarem-se para o PS e, mesmo não ganhando eleições, recuperar o “bloco central” e continuar a governar?
Fica a dúvida. E existir a mera dúvida, admita-se, já é muito mau sinal. É que se for esta segunda possibilidade, a situação política ganha contornos de muito maior gravidade do que de outro modo se poderia imaginar: não apenas se desbarata agora a oportunidade que a actual configuração parlamentar poderia oferecer para reformar o país, como se garante que o impasse político que vivemos vigore durante os próximos anos — quem sabe teremos mais uma década perdida como a de 2015-25. Do mesmo modo, a prazo, esgotado o ciclo político, entalado entre Ventura e quem vier a liderar a próxima geração do PS, é a própria sobrevivência do PSD que ficará em causa.
Vendo por esta perspectiva, talvez se perceba bem o que poderá motivar tanta preocupação a Pedro Passos Coelho.