Numa época em que tanta gente ganha o seu caviar Beluga a professar virtudes histriónicas, a virtude já não está no meio, mas na polarização desenfreada. O meio, coitadinho, parece cada vez mais a definição de Pascal do universo: “Uma esfera cujo centro está em todo lado, e a circunferência em lado nenhum”. Só que um centro ubíquo obviamente não centraliza nicles.
Para o bom & velho Aristóteles, fazia sentido a virtude fintar os extremos. A coragem é o meio-termo entre a cobardia e a temeridade; a generosidade, entre a avareza e o esbanjamento; a confiança, entre a insegurança e a arrogância. Segundo o Estagirita, o equilíbrio é calibrado na prática, não em piloto automático, e por isso a via mais árdua. Em tese todo o ser humano estava sempre “no meio” – a beneficiar no presente das gerações passadas, enquanto cumpria as suas obrigações para com as gerações futuras. Já não: para a geração presente, as gerações passadas foram do piorio, e por isso a atual não tem futuro.
Segundo Churchill, “quem não é progressista aos 25 anos, não tem coração. E quem não é conservador aos 35, não tem cérebro”. A dicotomia direita/esquerda, até certo ponto natural (nossos pés e mãos, canhotos e destros), remonta à Assembleia dos Estados Gerais de 1789, quando, no início da Revolução Francesa, a nobreza sentou-se à direita, e o Terceiro Estado à esquerda (sim, a burguesia já foi a esquerda, e voltou a sê-lo com os wokes radicais chics).
A polarização reina até individualmente, com os nossos hemisférios cerebrais a puxarem cada um a brasa para a sua sardinha, com os seus pontos cegos e vieses de confirmação. É mais fácil aceitar o ponto de vista do hemisfério esquerdo, enunciável sem ambiguidade e que simplesmente se opõe à perspectiva do direito, do que perfilhar a opinião deste, multifacetada e sutil, e inerentemente aberta à perspectiva do esquerdo. Na Itália, chamam à esquerda “sinistra” – bom, eles lá sabem. Mas alegam os neurologistas que precisamos de ambos os hemisférios como de pão para a boca.
Como notou a franco-hispânica Anais Nin, “não vemos os outros como eles são: vemo-los como nós somos.” Daí a tentação totalitária do conforto unidimensional: o “centralismo democrático” de Lenine, em que tudo o que não era proibido, era obrigatório. Hoje habitamos um mundo que permite tudo, mas não perdoa nada (Nelson Mandela já lá vai). A internet revolucionou a imprensa com a perda dos monopólios publicitários nos mercados jornalísticos, obrigados a correr atrás dos likes nas redes sociais, cujos algoritmos exploram as nossas lealdades tribais.
Assim, o centro político – onde com sorte às vezes pulsavam a clemência, a flexibilidade e o sentido de humor – tende a mirrar por causa da polarização centrífuga. O debate reduz-se a impropérios vociferados por todos os lados das barricadas, com a profundidade de um dedal. Pregamos para convertidos idólatras, e bloqueamos os iconoclastas.
A chatice do groupthink é que, como diz o brasileiro Nelson Rodrigues, «toda a unanimidade é burra». E como acrescentou alguém: «Quando toda a gente pensa igual, é porque ninguém está a pensar.» Abelardo, o filósofo do século XII, expressava desdém por qualquer um que, numa discussão, concluísse que ele tinha razão. O produtor de cinema Samuel Goldwyn ralhava com os seus subalternos: “Não concordem sempre comigo: a minha sombra faz isso melhor do que ninguém”. Isaiah Berlin sofisticou a coisa: “Mais interessante é ler o inimigo, o que põe à prova a solidez das nossas defesas. O que sempre interessou-me é descobrir o que há de débil ou de erróneo nas ideias em que acredito. Para quê? Para poder corrigi-las ou abandoná-las.» O espírito atual é reducionista: esse caramelo é de esquerda ou de direita? Pronto.
O identitarismo arruinou os consensos construtivos, ao abolir quer o imperativo da liberdade individual quer o dos princípios universais, substituídos pelas facções recíproca e incessantemente beligerantes. A guerra de todos contra todos, em que todos os poços são envenenados – porém, algumas identidades são mais iguais do que as outras (isto é: melhores). Quanto mais performático o nicho, mais puro o pedigree. Quanto pior, pior – ou seja: muito melhor.
Só que, como lembrou Raymond Aron, na prática (onde a vida acontece) “não é jamais a luta entre o bem e o mal – é o preferível contra o detestável”. Confesso que, como Isaiah Berlin, não sou um relativista: “Não digo: tudo bem, sou a favor da bondade e o senhor prefere os campos de concentração”.
Por falar em centro, será que em Portugal paira uma diáfana nostalgia do Bloco Central? Chega do Chega? E o Livre? Livra! Mas parece que a tendência é mesmo que, como no verso famoso de Yeats, “O falcão não ouve o falcoeiro/Tudo desmorona/O centro não se sustenta”.
Na Inglaterra, onde até outro dia era ou sim ou sopas (ou Conservadores ou Trabalhistas), nas próximas eleições o Reform de Nigel Farage e o seu reflexo esquerdista, os Verdes de Zack Polanski, abocanharão uns belos nacos eleitorais. Os Verdes (43% dos eleitores entre 18 e 24 anos, excluídos do mercado imobiliário) estarão maduros para governar? Sim, mas só no sentido venezuelano de “Maduro”. Na semana passada, Polanski aprovou o vandalismo na estátua de Churchill em Westminster, com grafites como: “Globalizem a Intifada!” Quem precisa do aiatolá Khamenei (certamente não as 72 virgens com que ele julgava estar agora a entreter-se)?
Nos EUA, a dicotomia Republicanos/Democratas também derrapa, mas nos seus redutos. Se o MAGA de Trump açambarcou os republicanos, a guerra contra o Irão mina a fidelidade partidária. O vice JD Vance, candidato tácito às presidenciais de 2028, abomina as intervenções no exterior – se apoiou a captura de Maduro, foi como uma ação policial, não um ato de guerra. Resultado: enquanto Trump regia o ataque em Mar-a-Lago, o agora chamado “Judas Vance” ficou de castigo na Casa Branca, com uma lata de Diet Coke. E talvez a ruminar que em janeiro 40 mil iranianos foram assassinados por uma teocracia misógina que financia terroristas e quer armas nucleares – e a grande media ignorou o fato, depois de três anos a divulgar alegremente propaganda do Hamas sobre Gaza.
Do lado democrata, a erosão também prospera: Gavin Newson, governador da California, a fazer olhinhos à Casa Branca em 2028 e mais woke que o príncipe Harry e Meghan Markle juntos, acaba de lançar as suas memórias, “Young Man in a Hurry”. O jovem com pressa é ele – aos 58 anos. 99% do livro gaba o estoicismo de Newson como filho de mãe solteira. 0% fala dos íntimos laços dele com a bilionária família Getty, que sempre o estragou com mimos. 1% fala de outras coisas.
No Texas, um dos estados mais conservadores dos EUA (não vota num presidente democrata desde 1976), James Talarico venceu a indicação para candidato democrata ao Senado, derrotando Jasmine Crockett, mais woke do que o Principe Harry, Meghan e Gavin Newson juntos. Pormenor: Talarico é cristão, e para os democratas até outro dia os cristãos eram o Anticristo. Para se perceber a que ponto chegaram os democratas, esse moderado declarou que o seu Deus é… “não-binário” (depois Vance é que é Judas).
Até a Austrália pressagia a anomalia: os indefectíveis Trabalhistas e Liberais estão a levar murros de canguru do populista One Nation, em segundo lugar nas pesquisas e com a política mais popular do país: Pauline Hanson.
Há populistas de direita e de esquerda, que se descrevem como opositores da elite e “amigos do povo” – a divergência entre canhotos e destros é sobre quem consideram a elite e como definem o povo. Isso reflete um processo mais amplo de realinhamento eleitoral no Ocidente, baseado mais na cultura do que na economia.
Arenga-se a mefistofélica “extrema-direita”, mas há um silencio tipo “omertà” sobre a “extrema-esquerda” (que, como o homossexualismo antigamente, é um amor que não ousa dizer o seu nome). Se o Vox espanhol e o francês RN são “ultradireita” (como alegadamente o são Trump, Netanyahu, Javier Milei e Giorgia Meloni), pela mesma régua o Podemos ou a France Insoumise não são ultraesquerda? Perguntar não ofende.
Maria Corina Machado fundou o partido Vente Venezuela e se apresenta como centrista. Mas os políticos de esquerda mais influentes na região (Lula, Sheinbaum, Petro, Sánchez) preferiram cobrir Chaves e Maduro de piropos do que dialogar com a oposição venezuelana. Que, se não for pedir muito, só quer o que aqueles já têm nos seus próprios países: eleições livres, instituições autónomas e uma economia funcional.
Já no Brasil o Centrão anda na boa vai ela – mais conhecida como Fundo Partidário. O Brasil é um dos países com mais partidos políticos no mundo: nada menos que 30 (até meio segundo atrás). Afinal, é uma nação tão grande e heterogénea, certo? Errado. Uma pesquisa da Universidade de Oxford submeteu aos parlamentares brasucas um questionário sobre temas da economia ao aborto. Resultado: apenas duas alas – o centro-direita e o centro-esquerda -chegavam e sobravam.
A conclusão: os políticos enchem o chouriço por causa do acesso aos recursos partidários, e não por ADN ideológico. Há 10 anos, os partidos brasileiros eram financiados sobretudo por doações empresariais. Em 2015, o STF acabou com a brincadeira, proibindo financiamentos privados de campanhas. Brotou o Fundo Partidário, composto de verbas públicas (ou seja, o suor do singelo e abnegado contribuinte).
Em 2025, o Fundo Partidário foi de 1126 milhões de reais, um aumento de 2,4% em relação a 2024. E esse cacau todo só é acessível aos partidos com no mínimo 2% dos votos em pelo menos 1/3 dos Estados brasileiros. Por implicação, os mais sortudos são os mais representados. Só no ano passado, o Partido Liberal (de Bolsonaro, que como não é esquisito já foi de oito partidos) abocanhou 200 milhões de reais (33 milhões de euros) e o Partido dos Trabalhadores (de Lula da Silva, que está para o PT como Luiz XIV estava para o Sol) embolsou 150 milhões de reais (25 milhões de euros).
É muito cacique para pouco índio. Com tanta fragmentação partidária, o Presidente da República faz trinta por uma linha para governar. E é aí que, no Congresso Nacional, entra o Centrão, um bloco parlamentar suprapartidário e amorfo – um multibanco entre o Executivo e o Legislativo.
Apesar do rótulo equidistante, o camaleónico Centrão não corresponde ao centro ideológico. “Hay gobierno, soy contra”, rugiam os anarcas espanhóis. “Há Governo, sou a favor”, ronrona o hospitaleiro Centrão. É um fiel da balança, sempre a salivar por cargos e verbas. Uma espécie de Mensalão branqueado. No atual governo Lula da Silva, o bloco ocupa ministérios estratégicos para viabilizar a maioria mínima em votações importantes. De novo Nelson Rodrigues: “O dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro”.
E quando a promiscuidade entre Executivo e Legislativo não basta, recruta-se o Judiciário. No Brasil o escândalo do Banco Master (ver a minha coluna do dia 19/02) abala o Supremo Tribunal Federal (STF) e afunda até ao cocuruto o paladino implume da esquerda, Alexandre de Moraes (a cara chapada do Lex Luthor, a némesis do Superman). Só recapitulando: o banqueiro Daniel Vorcaro, que em seis anos tinha convencido 2 milhões de brasileiros a depositarem suas economias no banco aldrabão dele, foi preso no aeroporto a fugir a sete pés do país num jato particular para o Dubai – e em seguida foi solto, livre como um passarinho! Depois foi preso de novo, e nesse mesmo dia trocou mensagens melodramáticas pelo Whatsapp com o ministro Moraes – mas daquelas que desaparecem quando são abertas e não ficam registadas. Quem não deve, não teme?
Há três anos, Vorcaro celebrou o seu noivado numa festa tipo Great Gatsby na Sicília (omertà, novamente!), que custou 40 milhões de euros (só a banda Coldplay recebeu 10 milhões de euros). Foi no hotel San Domenico Palace, cenário da série “The White Lotus”, e no Castello degli Schiavi, onde foram filmadas cenas de “The Godfather”, de Francis Ford Coppola (a terceira omertà é de vez). Regressando ao Brasil, o noivo fez propostas que certas pessoas não podiam recusar, através do esbirro dele, cuja sugestiva alcunha era “Sicário” (e que se enforcou na cadeia no dia 4 deste mês). Com padrinhos assim, quem precisa de Fundo Partidário?
Tudo o que polui Moraes, best friend forever de um gangster, mancha o governo Lula. Como para baixo todos os santos ajudam, num piscar de olhos Lula da Silva escorrega nas pesquisas para as eleições presidenciais de outubro – esta semana pela primeira vez superado por Flávio Bolsonaro por 38% a 34%. E Lula reage a mandar bocas a Trump: “’Se o Brasil não se preparar para defesa, qualquer dia alguém nos invade”.
Pelo andar da carruagem – que anda a degenerar numa abóbora –, não adiantou lavarem a jato a Lava-a-Jato para as instituições brasileiras ficarem um brinquinho. Se no meio está a virtude, esse Centrão é um extremista. Pois, como tantas vezes acontece, os fins justificam os meios – qualquer meio.