Tem graça como uns passam a vida a tentar deixar marca e outros querem, simplesmente, desaparecer sem deixar rasto.
Por estes dias, a Escócia legalizou a aquamação, também designada hidrólise alcalina ou, em termos mais populares, “cremação com água”. Sim, a Escócia, terra de coisas tão antigas e razoavelmente estranhas como o kilt ou a gaita de foles e de outras maravilhosas como Braveheart ou o whisky turfado, torna-se assim uma revolucionária, uma empreendedora, nesse negócio tão clássico dos rituais funerários, vulgo: coisas para fazer depois de morto neste lindo planeta azul.
Ora, sabendo que água é tema que não falta nas Highlands e Ilhas Britânicas em geral, a coisa ainda se nos afigurou como uma ideia bonita, como quem diz, relendo, talvez anglicanamente, a Bíblia: somos água e com a água nos iremos. 70% do nosso corpo humano é isso, diz a ciência. E, afinal, já mestre Bruce Lee recomendava, para efeitos de defesa pessoal e harmonia ninja: “Sê água”.
Só que não. Dizem os promotores que a razão é ecológica. Que a aquamação será um método mais “sustentável”, mais “verde”, quando comparada com as alternativas enterro e cremação, essas banalidades mainstream. E então, suspirámos. Sim, enquanto uns bombardeiam refinarias e centrais nucleares ou fritam a Terra para alimentar as suas caricaturas da vizinha em IA, um cidadão, para ir em paz com a consciência, ainda tem de se preocupar com a quantidade de lixo que faz depois de morto. Irra, Escócia. Primeiro, recusam a independência; agora isto?
A aquamação, que ainda não está previsto na lei portuguesa, consiste em colocar o corpo do/da falecido(a) num cilindro metálico pressurizado, com água aquecida entre 90 a 150 graus centígrados, misturada com uma solução alcalina forte, tipo hidróxido de potássio. Diz que dura três a quatro horas e que replica, de forma acelerada, o que acontece naturalmente a um corpo quando sepultado de modo tradicional, aquele em que se costumava deixar a terra fazer o trabalho. E se, por acaso, termos como “solução alcalina”, “hidróxido de potássio” ou “acelerar processos naturais” lhe estiverem a soar muito pouco verdes, fique a saber que, depois, ainda continuam a restar os ossos. E que terão de ser secos e reduzidos a um pó fino, parecido com o que resulta da cremação, e que, no fim, é entregue à família. Ou seja: tanto trabalho para isto. Não vamos com a água coisa nenhuma; continuamos por aqui, a deixar vestígios. Onde andam o Bruce Lee ou um Dyson, quando precisamos deles?
Nisto, é claro, uma pessoa pôs-se a estudar. A grande vantagem da aquamação, dizem os defensores, é propor uma boa alternativa à cremação tradicional, que exige uma quantidade brutal de energia para manter os fornos a temperaturas que podem variar dos 400 aos 1200 graus, e que por isso liberta uma quantidade absurda de dióxido de carbono (uns milhões de toneladas por ano, aparentemente). Tudo pelo pormenor de podermos dizer, sem errar muito, que, de vez em quando, ainda sentimos a presença deste ou daquele fiel defunto por aí. No ar.
Não são os primeiros a ver chatices na cremação, os escoceses. Já várias religiões antigas a proibiram por entenderem que o tempo natural da decomposição do corpo é também aquele de que a alma precisa para se libertar dele. Com vantagem para os espíritas, que dizem que só são necessárias 72 horas para se dê esse incrível processo de destilação. (E nisto, voltou a apetecer aquele whisky turfado que deixámos alguns parágrafos acima.)
Correndo o risco de parecer antiquado: não será melhor, nesta querela entre ambientalistas e pirómanos, ficar pelo bom e velho enterro? Com excepção de santos e demónios, que podem durar décadas ou mesmo séculos, o corpo humano demora um a dez anos a decompor-se totalmente. Depende da madeira dos caixões e do nível de humidade dos solos (e nesse capítulo, os escoceses, tal como os açorianos natais do cronista, prometem fazer o trabalho bem depressa), mas, em princípio, se fôssemos a enterrar hoje, já não cá restaria nenhum bocadinho de nenhum nós para ver o fim do processo Marquês. Não há cá mais emissões de dióxido de carbono e ainda damos de comer à bicharada e às árvores.
O que nos devolve ao problema inicial: a questão será mesmo ambiental ou representa mais um sintoma de uma grande transformação cultural, em que passámos do tempo das pirâmides e dos mausoléus, dos jazigos familiares ou ao menos das belas pedras tumulares onde pendurar retratos e flores, a outro em que vivemos e morremos sem deixar rasto? Sem provas, uma vez apagadas as redes sociais. Queremos apenas desaparecer completamente, porque o sentido de tudo termina aqui e agora, nesta Terra, aonde não queremos deixar sequer uma pedra aonde nos chorarem ou vexarem.
É o mesmo mundo e a mesma vida. Enquanto uns querem ocupar todo o espaço, outros sumir-se entre os pingos da chuva. Como na Escócia. Como se nunca tivéssemos estado aqui.