A molécula é igual à do gás natural e essa “é uma das belezas do biometano”, diz o presidente da Floene, principal grupo de distribuição de gás em Portugal. Este gás renovável, produzido a partir de resíduos urbanos e explorações agropecuárias, “é exatamente o mesmo produto” e “não sentimos qualquer diferença nas nossas casas. É como a eletricidade. Quando ligamos o interruptor na nossa casa, não temos noção se o eletrão é cinzento ou verde (renovável)”, ilustra Gabriel Sousa.
Um estudo pedido pela Floene à Roland Berger indica que Portugal tem o potencial para produzir cerca de 60% do gás que é atualmente distribuído pelas redes por biometano, reduzindo de forma significativa as emissões, mas também a dependência das importações de gás natural. Essa produção seria assegurada por dois setores: os resíduos sólidos urbanos e a agropecuária, diz ao Observador o presidente da Floene.
Uma grande panela que "cozinha" os resíduos com o gás que estes libertam
As duas principais fontes de matéria-prima são os resíduos da agropecuária, nomeadamente o estrume e restos de plantações de milho e trigo, e os resíduos sólidos urbanos. Estes restos são colocados num biodigestor que o presidente da Floene compara a uma “panela a cozinhar um conjunto de ingredientes e bactérias que são colocadas com alguma ciência”.
Da decomposição dessa matéria orgânica fechada num silo sai o biogás que já pode ser queimado, mas cuja eficiência é limitada.
O biometano resulta de um processo de limpeza/lavagem do biogás. Deste processo resulta ainda outro produto, o digerido, que substitui os fertilizantes usados na agricultura. “Tem esta beleza de fechar um ciclo de economia circular”.
No entanto, o Plano Nacional de Biometano tem uma meta modesta para 2030 que prevê apenas 9% de injeção de biometano na rede de gás. Esta percentagem está muito aquém da verificada em outros países europeus, nomeadamente França, Itália e Espanha. O país vizinho, destaca o gestor da Floene, é o segundo ou terceiro país europeu com maior potencial.
A Dinamarca tem valores de substituição na casa dos 40% a 50% e França quer chegar até 2030 com 20% de injeção deste gás renovável. Neste país, a operadora de distribuição está a ligar por semana à rede duas a três novas instalações. França tem mais de 700 centrais ligadas, sobretudo a produtores agropecuários e a Floene já promoveu visitas de agricultores àquele país, no quadro de uma parceria estabelecida com a CAP (Confederação dos Agricultores de Portugal).
Em Portugal há duas cidades que estão a ser abastecidas totalmente através deste gás renovável — Évora e Portimão. Nestes projetos piloto, o biometano resulta do processamento de resíduos de azeite que é injetado nas unidades autónomas de gás que fornecem estas localidades e cuja distribuição é assegurada por empresas do grupo Floene.
Mas, para já, existe apenas uma central no norte a injetar biometano numa rede de distribuição, a Sonorgás, que não pertence à Floene.
Até ao final deste ano, a Floene conta ligar à sua rede mais cinco projetos de produção de biometano a partir de resíduos sólidos urbanos. Segundo Gabriel Sousa estes projetos permitem responder a cerca de 10% da meta definida no plano de ação do biometano para 2030. A partir de 2027, está prevista a injeção de mais 13 projetos de produção que, no seu total, permitirão cumprir cerca de 50% da meta nacional estabelecida no plano, para 2030.
Para acelerar este ritmo e concretizar o potencial identificado é necessário operacionalizar os sistema de certificado de origem e de provas de sustentabilidade. Isto para que quando um cliente industrial compra este produto premium tenha a confiança de que vai ter uma poupança no custo das emissões de CO2. Mas o presidente da Floene aponta para outro tema crítico que passa pela ligação dos projetos de produção à rede de gás.
“Em Portugal, e à data de hoje, se for preciso construir um quilómetro de rede para que um produtor injete na rede de gás, tem de suportar a totalidade desse custo. Em França, o sistema de gás paga 60% da ligação. Em Itália, desde janeiro, o sistema de gás paga 80% dessa ligação. São exemplos de mecanismos que fazem com que os processos sejam mais rápidos e que o interesse dos investidores seja maior.”
“Pôr os ovos todos no mesmo cesto” (eletricidade) tem “riscos”
O atual secretário de Estado da Energia fez no ano passado uma crítica à política energética do passado recente no que toca aos gases renováveis. Jean Barroca apontou para a pressão europeia, no auge da crise do gás russo, que levou Portugal o colocar toda a ênfase na produção de hidrogénio verde. Esta tecnologia depende da disponibilidade de muita eletricidade renovável barata e o seu desenvolvimento tem estado muito aquém da ambição inicial, por várias razões.
Ao contrário do hidrogénio — que só pode ser injetado na atual rede até 20% ou então exige uma nova infraestrutura –, o biometano é hoje uma tecnologia completamente madura. “A roda está inventada. É só preciso pô-la a rodar”. Mas falta acelerar os mecanismos legais e regulatórios para que isso aconteça, o que depende do Governo. São precisas redes de gás disponíveis e ligações dos produtores à rede, que não têm os apoios dados em outros países europeus onde o peso do gás natural é maior.
Questionado sobre se o setor do gás é um parente pobre da transição energética que tem colocado no centro a produção renovável e a eletrificação dos consumos (em prejuízo precisamente do gás), o presidente da Floene responde que é “uma leitura válida”. E acrescenta: “É por isso que temos sublinhado o que se passa em outros países que, além do desenvolvimento das renováveis do lado dos eletrões, não deixam de, ao mesmo tempo, fazer uma aposta idêntica do lado das moléculas”. Na mesma linha, alerta, “pôr os ovos todos no mesmo cesto e ficar dependente de uma solução energética e de um só setor tem riscos”, remetendo para o que aconteceu com o fornecimento elétrico após as intempéries deste inverno.
Para Gabriel Sousa, a rede de distribuição de gás não pode continuar a ser vista apenas como um canal que traz energia aos clientes finais. Com o biometano passa a ser uma rede que também recebe energia produzida de forma descentralizada. Como acontece atualmente com a rede elétrica e a instalação de centenas de unidades de de produção renovável, o ponto único de injeção deixa de ser o terminal de Sines e passa a haver centenas de instalações a injetar gás verde nas várias regiões do país.
Biometano mais caro? É preciso incluir na conta do gás natural o custo do CO2
Atualmente Portugal importa praticamente todo o gás que consome e, apesar de não ter contratos com os produtores do Médio Oriente, será sempre afetado por um agravamento prolongado dos preços, como aconteceu durante a crise espoletada pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 que afetou sobretudo o abastecimento por gasoduto à Europa.
Novas cavernas para armazenar gás anunciadas em 2022 só têm execução prevista para depois de 2030
Em 2022, o Governo aprovou a construção de duas novas cavernas de gás para reforçar a capacidade de armazenamento no Carriço cuja indicação é a de permitir também o armazenamento de hidrogénio. O projeto de engenharia foi já entregue à Agência Portuguesa do Ambiente para avaliação ao abrigo do regime de prevenção de acidentes e só depois será submetido a avaliação de impacte ambiental. O projeto, avaliado em cerca de 100 milhões de euros, tem prevista a entrada em funcionamento só a partir de 2030, no horizonte temporal do plano de investimentos nas redes de gás de 2031-2035. Mas a REN sublinha que ainda é necessária a aprovação do concedente que é o Estado.
Portugal até é dos países europeus que tem maior percentagem de reservas de gás natural face ao consumo, mas em termos absolutos essa quantidade é baixa. Segundo dados remetidos pela REN (Redes Energéticas Nacionais) estavam, a 11 de março, acima dos 76%, o que compara com uma média a nível da União Europeia perto dos 30%. A REN enfatiza que nenhum país da Europa dispõe de reservas suficientes para um horizonte plurianual sem importações.
O potencial de substituição por biometano exclui o gás consumido pelas centrais elétricas, mas mostra que tal como nos combustíveis e na eletricidade existem alternativas às matérias-primas fósseis que Portugal e a Europa importam e que foram impactadas quando começou o conflito na Ucrânia, um cenário que se repete com a guerra que envolve o Irão.
Apesar do gás natural ainda estar distante do pico atingido durante a guerra da Ucrânia, a valorização que ocorreu desde a semana passada já se aproximou mais dos preços do biometano que à data oscilam entre os 60 e os 80 euros por megawatt hora. Estes valores podem baixar para 40 a 60 euros por MWh com alguma escala. Ainda estão acima do preço do gás natural que, antes desta crise, estava na casa dos 30 euros por MW (agora aproximou-se dos 60 euros), mas o presidente da Floene defende que a conta deve ser outra. “Uma cerâmica paga o gás natural e paga o CO2. Temos que ter isso em conta quando comparamos o preço do gás natural, ao qual está associado o custo das emissões, com o preço do biometano que é neutro em termos de emissões”.