O analfabetismo implica o desconhecimento do alfabeto e a consequente inabilidade para ler e escrever. Com base nos resultados que emanaram dos censos de 2021 pode constatar-se que a taxa de analfabetismo tem vindo a diminuir em Portugal, situando-se actualmente abaixo dos 5%. Apesar disso o nosso país continua a estar no topo da tabela dos países onde existem mais analfabetos, o que denota que a sociedade portuguesa ainda apresenta um índice consideravelmente alto de assimetrias que fazem perpetuar o fenómeno.
As políticas públicas em Portugal, nos últimos anos, não incidiram sobre medidas de alfabetização e isso, claro está, encobriu a ocorrência do analfabetismo. A ideia de que a escolaridade obrigatória resolveria por si só o problema, bem como a própria evolução demográfica, com a morte daqueles que faziam parte da faixa etária onde se registavam as taxas de analfabetismo mais expressivas, fez com que, de certa forma, o analfabetismo se silenciasse convenientemente.
Esse silêncio à volta do analfabetismo cedeu lugar a uma preocupação relacionada com um outro fenómeno : a literacia, ou seja, a capacidade das pessoas para ler, escrever mas também utilizar a informação disponível para aprender, adaptar-se, pensar criticamente, resolver problemas, relacionar-se e, assim, viver em sociedade.
Mas porque é que a literacia, ou a falta dela, se tornou hoje em dia um fenómeno emergente e cada vez mais preocupante?
Se nos últimos anos Portugal tem vindo, progressivamente, a consolidar uma trajectória de crescimento no âmbito do acesso, frequência e conclusão de estudos, designadamente ao nível do ensino superior, porque é que a diminuta literacia teima em subsistir?
O relatório Global da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) divulgado em 2024 mostrou que a população portuguesa têm baixo êxito neste domínio, o mesmo é dizer que, segundo o dito relatório, uma significativa percentagem de cerca de 40% de portugueses só consegue compreender unicamente textos e aritmética simples. Assim, no âmbito deste estudo, comparativamente a três dezenas de países, Portugal ficou em penúltimo lugar no ranking da literacia.
Ora, perante estes preocupantes dados fica a descoberto uma realidade incómoda, que pode bem ser classificada como um paradoxo da escolarização, ou seja, apesar do acesso e proliferação democrática de qualificações académicas, entre a população portuguesa, nunca ter sido tão expressivo como nos dias de hoje não se afigura possível evitar o declínio da literacia. O mesmo é dizer que a obtenção massiva de graus académicos permitiu a pomposa e almejada “doutorização” dos portugueses mas tal fenómeno não conseguiu assegurar um concomitante e consistente desenvolvimento intelectual da população.
Assim, a falta de literacia perpassa actualmente o país tendendo a torná-lo progressivamente, ainda mais pequeno. Os doutores, mestres e licenciados, sem réstia ou diminuta literacia são a prova viva de como a detenção de um diploma deixou de ser uma vantagem sapiente tendo passado a ser, na grande maioria dos casos, um pré-requisito de utilidade técnica porém vazio de conhecimento efectivo.
Talvez a característica mais marcante dos que não detêm literacia seja a vacuidade mental, ora caracterizada pela total inexistência de espírito crítico. A capacidade cognitiva que os caracteriza, severamente comprometida, não lhes permite imergir na compreensão detalhada das coisas que os rodeiam. Têm opiniões vagas e superficiais acerca de tudo. São incapazes de distinguir factos de meras opiniões. Falam e agem sem o suporte de qualquer tipo de curiosidade intelectual prévia que lhes tenha servido de suporte.
O uso da Inteligência Artificial veio atrofiar ainda mais a literacia. Convenientemente esta ferramenta pensa, processa e agrega informação. Com esforço mínimo o acesso a respostas rápidas e resultados convenientes parece pois garantido. Perpetua-se assim a vacuidade mental disfarçada de aparente competência e capacidade cognitiva.
Vivemos num tempo estranho em que as pessoas são cada vez mais intelectualmente ocas apesar de terem a errónea percepção do contrario, devidamente respaldada pelo diploma académico, que usam como escudo.
Se Eça de Queirós fosse vivo o conselheiro Acácio não seria apenas mais uma personagem de O Primo Basílio mas sim o exemplo perfeito de uma elite intelectualmente estéril que se disseminou na sociedade portuguesa. Uma elite que usa um discurso solene, sem o compreender, para esconder a incompetência. Uma elite blindada na publicitação da forma mas sem qualquer conteúdo nem propósito. Uma elite composta unicamente por um sem número de Acácios do algoritmo.