“O Estrangeiro”
Depois da adaptação (falhada) de Luchino Visconti em 1967, François Ozon sai-se bastante melhor com esta versão muito fiel e fortemente sensual de O Estrangeiro, o romance “filosófico” de Albert Camus. Benjamin Voisin é o enigmático, lacónico e imprescrutável anti-herói Meursault, condenado à morte mais por não ter chorado no funeral da mãe e ter ido ver um filme cómico no dia seguinte, do que por ter morto a tiro um árabe numa praia (felizmente, Ozon não faz da personagem nem um sociopata nem um “racista”), parte por legítima defesa, parte porque entontecido pelo sol castigador, parte por “acaso”, como ele próprio diz no tribunal. Meursault está sempre algures, indiferente aos outros e à sua própria existência e ao seu destino (“tanto faz” poderia resumir a sua filosofia de vida), e Camus usa-o como instrumento para expor o absurdo da existência humana, e desesperar com ele: nem o amor, nem os outros, nem Deus, nos podem consolar nem salvar. Embora seja um pouco vistoso e atlético demais para personificar Meursault, o empregado de escritório que atravessa a sua vida e cruza as dos seus semelhantes como se fosse um espectro, Benjamin Voisin é mais convincente, intenso e misterioso do que Marcello Mastroianni na fita de Visconti. E Ozon serve-se muito bem do preto e branco para articular e enfatizar emoções e estados de alma e de espírito, e transmitir a atmosfera de canícula permanente e sufocante que envolve as paisagens, os locais e as personagens de O Estrangeiro.
https://www.youtube.com/watch?v=q7s9N8c9id8
“Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta”
Originalmente, Kill Bill era para ser um só filme com quatro horas de duração, tal como Quentin Tarantino o havia pensado. Por razões comerciais, e também para Tarantino dispor de mais tempo para acabar a segunda parte, a fita foi lançada em dois volumes e o realizador apenas passou a versão de quatro horas em visionamentos privados, para amigos ou para pessoas ligadas à indústria cinematográfica. Estreada no Festival de Cannes de 2004 fora de competição, nunca saiu ou DVD nem apareceu na Internet nos sites de filmes piratas, e só havia sido vista comercialmente em 2011, na sala de que Quentin Tarantino é proprietário em Los Angeles, o The New Beverly Cinema. Eis agora, e finalmente, Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta em estreia alargada nos cinemas, combinando os Volumes 1 e 2 num só filme, e incluindo cenas eliminadas anteriormente na montagem e planos alternativos, uma remasterização a cores do combate dos Crazy 88 com a Noiva interpretada por Uma Thurman, um acrescento à sequência de anime passada no Japão e uma animação digital (muito fantasiosa e em estilo de mini-videogame) de 10 minutos e meio, The Lost Chapter: Yuki’s Revenge, feita em 2025. São, no total, 4 horas e 35 minutos de filme, com um intervalo incluído. Por agora, Tarantino não está a pensar numa edição em DVD, por isso, a única forma de ver o seu épico de vingança, ação, artes marciais e ultra-violência sangrenta e estilizada em versão definitiva e completa, é nas salas de cinema.
https://www.youtube.com/watch?v=-SzkFgEqB6Y
“O Mago do Kremlin”
Olivier Assayas realiza esta adaptação do best-seller do escritor e consultor político italo-suíço Giovanni da Empoli, publicado antes da guerra na Ucrânia. Assayas também escreveu o argumento do filme, juntamente com o escritor e realizador Emmanuel Carrère, conhecedor da Rússia e da sua cultura (e que aparece brevemente pouco depois do início da fita), e filho da ilustríssima historiadora Hélène Carrère d’Encausse, especialista do mundo russo e eslavo. O enredo de O Mago do Kremlin abrange os últimos 30 da vida na Rússia, desde o colapso do regime comunista até à era de Vladimir Putin (Jude Law). O filme é narrado em flashback por Vadim Baranov (Paul Dano), um ex-conselheiro e homem de confiança absoluta de Putin (a personagem é inspirada no homem de negócios e político Vladislav Sourkov), que em 2019 recebe na sua datcha de inverno um jornalista e investigador americano, Rowland (Jeffrey Wright), que escreveu um artigo sobre ele na revista Foreign Affairs. E que, como ele, é um admirador do escritor Evgeny Zamyatin, o autor de Nós (1921), uma distopia de ficção científica anticomunista. Baranov conta-lhe então o seu tempo com os oligarcas e Boris Ieltsine nos caóticos tempos pós-comunismo, e depois ao lado de Putin no centro do poder na Rússia. O Mago do Kremlin foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.