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Vera Iaconelli, a psicanalista que se analisou a ela própria: "As coisas nunca estão resolvidas, mas ao escrever consegui arrumá-las melhor"

Cresceu com um pai alcoólico que escondia uma segunda família e uma mãe submissa. No livro "Análise" faz um relato íntimo (mas universal) sobre herança, trauma e reconstrução. Falámos com a autora.

Andreia Costa
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Foi quando, nas casas dos amigos, viu que existiam pais que não gritavam, não insultavam e, surpresa, até ouviam os filhos, que percebeu que algo na sua família estava errado. Porém, só em adulta é que Vera Iaconelli experimentou outra sensação que não a de viver com medo, “em alerta permanente”.

Cresceu com cinco irmãos, um pai alcoólico e violento — além de esconder uma segunda mulher e mais dois filhos — e uma mãe submissa. Perdeu um irmão quando tinha 13 anos — e ele 24, prestes a formar-se em Psicologia —, uma morte que destruiu ainda mais uma família que sempre foi disfuncional. Começou a fazer psicanálise aos 17 anos, mas teve uma experiência tão má que foi uma sorte não ter renegado por completo esse caminho. Em vez disso, formou-se em Psicologia em São Paulo e tem mais de 30 anos de experiência como psicanalista. Depois de ter feito as pazes com o seu passado, ou pelo menos assim achava, decidiu contar a sua história num livro.

Análise (publicado em Portugal pela Companhia das Letras) é um relato íntimo e literário, apoiado por referências da psicanálise explicadas sem floreados ou linguagem bucólica. Vera Iaconelli escreveu-o no meio das renovações que aconteciam na casa ao lado (para onde acabaria por se mudar) e encontrou tantos ou mais imprevistos do que aqueles que aparecem sempre nas obras: queria escrever sobre a mãe e acabou a escrever sobre o pai, tomou consciência de coisas que nunca tinha visto, formou novas ideias e, sobretudo, reconstruiu as bases de uma família separada.

A psicanalista brasileira, e autora do podcast Isso não é uma sessão de análise, esteve em Lisboa para apresentar o livro e deu por si a imaginar o que o pai — uma figura central em tantos traumas da sua história — pensaria de tudo isto. Falámos com ela com obras no prédio ao lado como pano de fundo, exatamente o ambiente onde Vera Iaconelli se sente confortável.

Estava a ouvir as obras lá fora e lembrei-me de uma coisa que achei curiosa: é que teve de escrever no meio do caos, com obras na casa ao lado. Porque é que precisou desse caos exterior para ter quase uma organização interior?
Sim, era parede com parede. Acho que não foi tanto um caos exterior, mas mais uma desconstrução que a obra acabou por concretizar. Para mudar de casa [a casa ao lado, que estava em obras, é onde vive agora], tinha que destruir a casa anterior e reconstruir nos meus moldes, tal como na escrita deste livro tive de desfazer as minhas próprias ilusões, as expectativas sobre o que ia escrever. Comecei a achar que ia escrever sobre a minha mãe e o meu pai impôs-se, tal como numa obra onde parece que está tudo bem, mas de repente um cano rebenta, há uma viga que não podemos tirar, há sempre algo que não podemos desmontar. Vi-me também capturada por essa surpresa. Uma palavra pede outra, que pede outra e as associações vão criando formas diferentes. Para mim isso é tudo novo, não tinha essa ideia.

Há uma diferença entre a oralidade, o deitar cá para fora — aquilo que se faz em psicanálise e psicoterapia — e o ato de colocar por escrito. Provavelmente já tinha falado sobre tudo isto mas de forma diferente?
Falei durante 30 anos no divã [a fazer psicanálise] em associação livre: “Diga tudo o que lhe vier à cabeça”. Achei que já tinha dito tudo, já tinha falado o suficiente. Quando me pus a escrever, percebi que não e descobri a diferença. Sempre disse que o meu pai tinha uma amante. O meu pai tinha uma amante porque foi isso que ouvi a vida toda na minha família. Quando escrevi que o meu pai tinha dois filhos com outra mulher, dei-me conta, depois de 30 anos, que não era uma amante, era uma segunda esposa, ele teve duas famílias. Isso foi um choque que eu não tive no divã. Como é que é possível descobrir uma coisa na mudança de registo de transmissão?

Tinha um distanciamento a escrever que não tinha ao fazer psicanálise?
Senti que, ao escrever, tinha de dizer as mesmas coisas de outra forma. O meu pai mudou totalmente depois da escrita porque tive de descrevê-lo para terceiros, é diferente de descrevê-lo na sessão de análise. Ainda estou encantada com isso.

Em que sentido é que o seu pai mudou para si?
Vi-o mais como um homem, não como meu pai. Um homem apaixonado por outra mulher, um homem fraco, um homem machista, mas um homem complexo que também era capaz de grandes gestos. Um homem daquela época a fazer coisas de homens machistas.

Era alcoólico, colérico e retrógrado, descreve-o de inúmeras formas. Temos de contextualizar esses comportamentos na época também? A Vera cresceu nos anos 60.
Não dou muito crédito à época. O meu sogro é um homem da mesma época completamente aberto a certas questões. Não diria que não era nada machista, de certeza que também o era, mas com outra ética. O meu pai tinha questões éticas, imagine o que é manter duas famílias.

Há pouco dizia que ao escrever o livro tomou consciência de coisas que nunca tinha visto antes. Ficou com novos assuntos para resolver?
As coisas nunca estão resolvidas, mas ao escrever consegui arrumá-las melhor, para que fiquem menos desconfortáveis. Não existe solução para algumas coisas, existem formas menos adoecidas de lidar com os mesmos sofrimentos.

No livro escreve: “O primeiro afeto que associei a meu pai foi o medo. O medo me acompanhou por toda a vida, a ponto de eu só me dar conta de sua existência quando ele começou a ceder. Sem análise, eu seguiria acreditando que frio na boca do estômago e respiração curta eram meus estados naturais”. Vivia com medo sem saber que era medo. Consegue identificar o momento, se é que houve um, em que percebeu que o que estava a viver não era “normal”?
Foram vários momentos. Quando começamos a frequentar outras famílias nas quais vemos pais que falam baixo, que não insultam, que não partem coisas, com os quais podemos falar de tudo porque vão ouvir, vemos que há famílias que não são como a nossa. Por isso é que as famílias disfuncionais se fecham muito sobre si mesmas, para que não haja comparação. Quando tive acesso a isso, foi a primeira constatação de que podia haver algo diferente do que eu vivia. Contudo, eu sempre tive angústia e ansiedade muito grandes que só percebi na análise. Lembro-me de dizer, numa ocasião: “Esta semana foi tão tranquila. Pode ser assim? Eu posso não viver em alerta permanente”? Se casamos com uma pessoa que é dócil, que é gentil, que não levanta a voz, às vezes até ficamos confusos se aquilo é amor ou não porque, na verdade, achávamos que o amor era aquilo que vivíamos com o nosso pai. Se escolhemos algo diferente do que vivemos, arriscamo-nos a descobrir que viemos de um ambiente muito disfuncional, o que também é muito duro porque se trata das pessoas que mais amamos na vida, os nossos pais. Porém, o que acontece mais frequentemente é repetir a cena, cercarmo-nos de figuras violentas como essas figuras principais. E aí, repetimos e dizemos: “O mundo é assim”.

Tinha receio da reação dos seus irmãos ao livro, apesar de no início deixar claro que isto é “uma versão” da história?
Há coisas que obviamente não partilhei e há situações que descrevi de forma amenizada. Precisei de escrever porque tinha de dar destino a certas coisas que ainda me causavam muito sofrimento, mas escrevi muito dividida, a pensar na minha família a ler. As famílias têm pactos de silêncio sobre as suas histórias e a minha maior preocupação era com os meus irmãos. Lancei o livro e sofri muito, fiquei melancólica durante meses. Tinha enviado o PDF aos meus irmãos e, depois de alguns meses, a minha irmã mais velha — que é a pessoa que mais admiro, com quem tenho mais intimidade — ligou-me e disse que, para ela, tinha sido muito importante para entender que ela não estava louca, que tinha testemunhado aquilo. Quando ela me liga a dizer que eu validei o que ela viveu, ela também diz que o que eu vivi é verdade. Saí da minha melancolia nesse momento e fiquei muito feliz. Até agora. Não ia escrever uma coisa para destruir as nossas relações, trabalho a estabelecer as melhores relações para as pessoas, sou psicanalista, mas esse podia ter sido o preço, eu não tinha controlo. Porém, aconteceu uma coisa muito boa: tivemos o primeiro Natal [em 2025, depois da publicação do livro] juntos em muitos anos.

"Os homens não são criados para aprofundar auto-reflexão, autocrítica, intimidade. Quando um homem chega a chorar porque discutiu ou lutou no jogo de futebol, os pais dizem: 'Volta e resolve'. Se é uma menina, dizem: 'Senta-te aqui, o que aconteceu? Estás chateada? Estás triste'? Vão dando um reportório às mulheres que os homens não têm e isso fragiliza-os profundamente."

Costumava estar cada um para seu lado?
Sim, e neste Natal deu-se uma coisa que eu sei da psicanálise: os “não ditos” adoecem-nos. Este livro tornou as coisas ditas e isso permitiu que algumas coisas começassem a circular entre nós, que a melancolia, que era uma marca da minha família, diminuísse e que pudéssemos encontrar-nos mais. De lá para cá, todas as festas familiares, todos os aniversários têm acontecido em minha casa. O desfecho foi muito positivo.

E inesperado?
Sim, eu estava sem esperança.

E a sua mãe, teve alguma reação?
A minha mãe é a parte difícil da história, só vou escrever sobre ela depois de ela morrer.

Mas leu?
A minha mãe tem 98 anos, mas nunca leu nada do que escrevi, nunca viu nada do que fiz. Toda a gente diz que ela era maravilhosa. Sim, também era maravilhosa, mas… sobre a minha mãe não falaremos. Mas acho que a apresentei muito bem.

No livro pareceu-me que era uma mulher em piloto automático, a resolver e a gerir as coisas do dia a dia, seis filhos, a casa, mas praticamente robótica e afastada de um mundo afetivo. Estava em modo de sobrevivência também, não queria saber sobre a vida dupla do seu pai. Quando conta a história dela [que foi dada para adoção na maternidade, que o pai adotivo abandonou a família], questiona: “Quantas vezes cai um raio sobre a mesma cabeça?” No caso dela foram muitas.
Acho que podemos falar sobre isso. A minha mãe é uma mulher que vem de uma geração muito sofrida, de uma história especialmente sofrida, e realmente conseguiu construir uma vida além disso.

Acha que ela alguma vez foi feliz?
Acho que teve muitos momentos de alegria, de felicidade. Não acho que a minha mãe seja uma mulher melancólica, ela quer muito viver. Mostrou isso depois da morte do meu pai, revelando uma faceta que eu desconhecia. Aos 98 anos está fragilizada, com um corpo que traz muito sofrimento, mas quer a cota de vida até ao final.

Do passado do seu pai refere os padrões de violência que se repetem ou que não se resolvem de uma geração para as seguintes. Tinha esses receios, por exemplo, em relação aos seus irmãos, sobretudo os homens?
Sim, porque acho que os homens têm essa marca de não saber falar de si, não saber falar para o outro nem para si mesmos. Têm muito pouco reportório do mundo afetivo e continua a ser totalmente atual. Acho que o nosso grande problema em relação à masculinidade é isso. Os homens não são criados para aprofundar auto-reflexão, autocrítica, intimidade. Quando um homem chega a chorar porque discutiu ou lutou no jogo de futebol, os pais dizem: “Volta e resolve”. Se é uma menina, dizem: “Senta-te aqui, o que aconteceu? Estás chateada? Estás triste”? Vão dando um reportório às mulheres que os homens não têm e isso fragiliza-os profundamente. É expectável que numa família essas transmissões masculinas sejam mais doentias. Os homens não falam de si, não procuram análise e foi a isso que assisti. Eu perdi dois irmãos [um morreu aos 24 anos e o outro com pouco mais de 40] e tenho um irmão que está a reconstruir-se hoje, para ele foi muito trabalhoso.

Quando começou a escrever deparou-se com memórias que tinha esquecido?
A memória é a grande questão da psicanálise, é sempre uma memória afetiva, seletiva, encobridora. Isso é muito Freud. A dada altura, lembrei-me de umas botinhas brancas que usava na infância. Tanto vestuário que tive a vida toda, tenho 61 anos, e lembrei-me dessas botas que tinha com sete. Fui escrevendo e a cena da bota reapareceu quando o meu pai está a dizer que nasceu o filho da secretária — que era filho dele, mas nós não sabíamos. Depois fico a saber que o filho é dele e aquele momento, ligado à bota, tem um caráter traumático. Houve várias cenas assim.

O primeiro impulso é negar que se tem uma família disfuncional, um pai alcoólico, abusador e mentiroso?
A nossa tendência é não querer saber, é a paixão da ignorância. Ver implica sempre alguma dose de sofrimento, escolha e risco. Uma criança depende totalmente dos pais, tem de confiar neles, quer queira ou não. As crianças são um tanto condenadas a amar os pais. Uma mulher que depende de um marido que é violento não quer ver algumas coisas como forma de sobreviver. Se não, vai para onde? Quem vem de uma situação de violência, primeiro tem que ver a violência, acreditar que há outro lugar sem ela e arriscar ir para esse outro lugar, sendo que não conhece nenhuma experiência que não seja violenta. A negação é um mecanismo de defesa muito básico.

Recorda a morte do seu irmão, Ricardo, quando a Vera tinha 13 anos e ele 24, e descreve esse momento com o seu pai a chamá-la para limpar o tapete [no qual o outro irmão tinha vomitado perante a situação caótica]. Temos muitas vezes reações absurdas a informações impossíveis ou o nosso cérebro guarda apenas isso para nos proteger?
Sim, numa cena traumática encontramos um elemento irrelevante e focamo-nos nele. Para o meu pai foi o facto de o tapete estar sujo, ele não conseguiu contar-nos de outra forma. É como se a alma precisasse de sair do corpo para não vivermos totalmente a violência. Uma das minhas filhas estava num comboio em Itália quando leu essa cena e ligou-me para me dizer: “Tive de parar e o rapaz do lado deu-me um lenço porque eu não parava de chorar”. Algumas pessoas falaram-me desse episódio e é curioso porque eu não achei que fosse causar tanto impacto, já estava muito apaziguada com essa memória.

E não sentiu uma certa injustiça porque o seu pai continuava vivo e o seu irmão tinha morrido de repente?
Sim, é verdade. O meu irmão era adorável, tratava-nos muito bem, tratava os irmãos mais pequenos com muito carinho, estava a terminar o curso de Psicologia, para mim ele representava a alternativa de homem. A morte dele foi quase uma condenação para todos nós, ninguém via saída. Depois disso fomos despejados, houve uma derrocada económica e a entrada na adolescência. Dos 13 aos 17, estive numa situação psíquica deplorável. Só que aos 17 tomei a iniciativa de fazer análise, à revelia do meu pai, obviamente, que achava que isso era coisa de malucos. Eu disse: “Ótimo, sou maluca, preciso mesmo de ir”. Paguei do meu bolso e fui.

Foi sobretudo o luto que a levou a procurar a psicanálise, embora só quatro anos depois?
Freud deixa muito claro que o luto é um processo natural de sofrimento que fazemos. A terapia só entra em jogo quando o luto não se concretiza, como se fosse uma cicatriz que não se fecha. A minha família nunca fez devidamente o luto desse irmão, foi como se a violência do meu pai aparecesse na forma da morte de alguém, como se cada um de nós tivesse alguma responsabilidade na morte desse irmão.

A primeira experiência que teve com a psicanálise, com alguém que partilhava a vida pessoal nas sessões, não foi positiva.
Como em tudo, existem bons e maus profissionais, esta estava completamente equivocada, mas deu-me uma coisa: descobri que valia a pena escutar-me. Claro que percebi que havia ali muita coisa errada e saí, o que atrasou o meu regresso à análise. Fui fazendo psicoterapia, que também me ajudou, mas precisava de algo mais profundo.

No livro diz que sentiu um alívio quando o seu pai morreu, mas isso não mudava grande coisa em relação ao passado. O alívio era por já não ter esse fator desestabilizador na sua vida?
No final, o meu pai já estava muito fraco, a lidar com essa morte indigna em que o corpo vai abandonando a pessoa que ainda está lúcida enquanto a medicina vai estendendo até ao infinito. Questiono-me muito sobre como lidar com meu próprio fim e já combinei com o meu marido que vamos suicidar-nos juntos porque, enfim, um fim assim é muito indigno.

No livro diz, inclusivamente, que “envelhecer é inconveniente, morrer nem sempre”.
Sim, porque quando a pessoa se resume a estar rodeada de médicos, hospitais e tratamentos, para mim não serve.

"Quando um ente querido morre, todas as memórias são editadas. Não vamos lembrar-nos das piores, não é? Ficamos só com as boas, portanto fiquei com o pai que me aconselha. Às vezes penso: 'O que é que ele diria agora'? Também há esse pai na minha história."

Estou a lembrar-me de uma parte do livro em que fala da morte do seu tio, do sofrimento que viu no seu pai e de algum prazer que isso lhe deu. No final da vida dele já não foi isso que sentiu?
Muito bem colocado. Já não sentia prazer a vê-lo sofrer porque aí ele já tinha dado tudo: o bom e o mau. Eu também já era mais velha, estava grávida da minha segunda filha, estava noutra fase. Mas é verdade que a morte dele trouxe o alívio de ver a minha mãe começar a ter vida própria, isso foi muito interessante.

O que é que ficou do seu pai?
Quando um ente querido morre, todas as memórias são editadas. Não vamos lembrar-nos das piores, não é? Ficamos só com as boas, portanto fiquei com o pai que me aconselha. Às vezes penso: “O que é que ele diria agora”? Também há esse pai na minha história, o que defendia — tinha toda essa complexidade. Penso em coisas tontas como: “Acho que o meu pai iria adorar que eu estivesse a lançar um livro em Portugal”. Ele orgulhava-se dos filhos.

Mesmo das filhas mulheres, para quem achava que o único caminho era o casamento?
Ele tinha essa absoluta ambiguidade. Achava que o melhor era o casamento porque sem ele sofreríamos muito. Era mais a tentativa de nos proteger do que de defender uma ideia, como muitos pais fazem. O medo era: vais estudar de mais, vais ficar sozinha e infeliz. Mas se nos visse a realizar coisas boas, para ele estava bom. Na verdade, eu já construí um pai na minha memória que não é exatamente o Zacarias. Tem conteúdo dele ali, mas é um pai que construí para mim.

Teve curiosidade de saber como era o seu pai com a outra família?
Tenho uma teoria que nunca vou poder comprovar que me diz que o meu pai vivia uma divisão entre a esposa que se torna mãe, e fica no papel de mãe acima de tudo, uma mulher que teve seis filhos; e a outra, que é amante, com quem ele tem uma vida mais sexualizada. Isso é muito comum. Na minha fantasia, o meu pai era o amante de fato, aquele homem que levava flores, que era apaixonado. Com a minha mãe demonstrou que, a partir de um certo ponto, já não eram um casal, embora ainda se amassem.

É a mãe que é só mãe, deixa de ser mulher?
Sim. Trabalho com essa questão da maternidade, da parentalidade e da divisão, e não é à toa. Não acho que o meu pai tenha deixado de amar a minha mãe, mas passou a amá-la de outra forma. Ele não conseguiu juntar os dois lados [mãe e amante] na mesma mulher. Para mim, isso é uma obsessão, eu chamo “namorado” ao meu marido. No dia em que deixar de lhe chamar “namorado” é porque já não quero estar com ele — e não quero essa cisão.

E sabe como é que o seu pai era como pai dos filhos que teve na segunda família?
Há duas formas de responder a isso. Acho que um pai que não assume os filhos, não lhes dá nome ou os trata de forma igual, é o pior dos pais. Mas ele tinha uma relação permanente com essa família.

Eles sabiam quem era o pai?
Sabiam, apesar de só terem feito o teste de ADN já em adultos. Acho de uma indignidade absoluta que ele tivesse tido oito filhos, sendo que dois foram preteridos, não foram criados como os outros seis. Acho indecente, até hoje. Por outro lado, acho que devem [os meios irmãos] ter tido uma infância parecida com a nossa. Acho difícil que o temperamento agressivo do meu pai não aparecesse também na relação com a outra família, acho quase impossível porque ele era colérico.

"Freud deixa muito claro que o luto é um processo natural de sofrimento que fazemos. A terapia só entra em jogo quando o luto não se concretiza, como se fosse uma cicatriz que não se fecha. A minha família nunca fez devidamente o luto desse irmão, foi como se a violência do meu pai aparecesse na forma da morte de alguém."

Quando estava a escrever o livro estava também a fazer psicanálise para guiá-la? Foram processos paralelos?
Quando começo a minha quarta análise [a quarta vez que iniciou um processo de terapia], começo porque estou muito melancólica, muito angustiada e procuro essa análise já com um desejo muito grande de escrever. Essa analista incentiva-me muito e as sessões são basicamente eu a relatar o que tinha escrito e o que não tinha conseguido escrever. Foi um processo de transição porque não me vejo neste momento a continuar a fazer análise. A análise é interminável, como diz Freud, mas o processo de irmos lá semanalmente, encontrarmo-nos com o terapeuta, pode ser usado ou não. Até quando é que ficamos a fazer terapia? Até querermos, mas com que finalidade? Há coisas que não podem ser resolvidas, não é?

Voltamos àquilo que estava a dizer há pouco.
Sim, é isso. Não podemos resolver tudo, podemos dar destinos melhores que não sejam sintomáticos, que não tragam mais sofrimento além do que a vida nos impõe. Depois da análise, podemos continuar a debruçar-nos sobre as coisas que produzimos, tentando entender de onde vêm para termos uma vida melhor. A escrita acabou por tornar-se esse caminho para mim. Por isso, já estou a escrever outro livro.

Sobre o quê?
O facto de ter 60 anos, sobre as minhas memórias amorosas. É muita coisa, muito diferente.

Diferente para si foi também a menopausa, que a deitou abaixo, tendo de recorrer à psiquiatria. Depois de tudo o que já passou, foi inesperado ser este o ponto de rutura?
Agora que já sou pós-menopausica posso afirmar que existe vida depois da menopausa — e vida boa. É um processo duro e solitário, embora se comece a falar cada vez mais disso. Na minha infância nem se dava nome a isso. Vivi a menopausa — que é uma experiência importante de ressignificação da relação com o corpo, com a feminilidade e com a morte — com toda a intensidade e agora estou a escrever sobre isso já num outro registo, mais literário. A partir das minhas experiências falo da sexualidade depois de uma certa idade, o que é a vida amorosa, o que é o desejo, o que são as memórias dessa sexualidade, etc. Não é um assunto só de mulheres, os homens também perdem hormonas mas não se dão conta, só que a nossa experiência é mais abrupta e reconhecível. Foi preciso neste processo também aceitar que, OK, isto está a acontecer comigo, deixa acontecer, não há muito a fazer, não é? O meu marido costuma perguntar na brincadeira: “Vamos sobreviver à velhice”? Eu respondo: “Claro que não, porque depois da velhice vem a morte”. Não há como fugir, mas dá para aceitar isso melhor? Dá para viver melhor, só que dá trabalho.

No livro faz muitas referências a Freud e Lacan, embora de uma forma muito clara, para leigos. Foi uma necessidade para sustentar a sua história?
Na minha carreira sempre quis que a psicanálise fosse acessível, mas o assunto é complexo e acho que tem limites, como todo o conhecimento. Ouvi uma crítica carinhosa do Alexandre Vidal [escritor brasileiro]. Ele diz: “Pára de te escudares atrás do Freud. No próximo livro não quero saber do Freud”. Achei engraçado, não sei se me escudei atrás do Freud, é possível, mas foi muito orgânico para mim porque, juntando a minha vida às coisas que fui ouvindo durante 30 anos, o meu pensamento vai por esses caminhos.

Terminamos voltando ao início do seu livro, onde escreve que é “Vera, filha de Vera” e que por vezes é como “se duas Veras não pudessem ocupar o mesmo lugar no espaço”? É quase como se, durante toda a sua vida, não tivesse tido direito a uma identidade. Como é que se reclama isso?
Todos os dias vou reclamando essa identidade, mas a escrita do livro marcou um antes e um depois. No momento em que escrevo, contrario um pacto de silêncio que tinha com a minha mãe, marco o meu desejo porque deixo de ser cúmplice dela. Quando escolhemos dar o mesmo nome que temos a um filho, isso é o quê? Pode ser um desejo de continuidade da tradição da família, mas no caso da minha mãe é mais curioso ainda porque fui a quinta filha, não fui a primeira. Além disso, ela já não tinha o apelido de solteira, portanto éramos mesmo homónimas [ambas Vera Iaconelli]. Aproveitei o que havia de bom nessa igualdade e tentei com o livro, mais uma vez, separar-me do que era mau, do sentimento mórbido de não sabermos quem somos. Acho que é um processo eterno, o ato de nos separarmos simbolicamente dos pais, mas ajudou-me.