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(A) :: Eles foram superlativos mas o problema não foi o sintético, foi o analítico (a crónica do Bodö/Glimt-Sporting)

Eles foram superlativos mas o problema não foi o sintético, foi o analítico (a crónica do Bodö/Glimt-Sporting)

Tudo o que podia correr mal, correu ainda pior. Mas não, não houve nenhum Murphy a abater-se sobre o Sporting. É que a lei deste Bodö/Glimt em campo é muito clara mas os leões nunca perceberam (3-0).

Bruno Roseiro
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Tudo é diferente num encontro a contar para os oitavos da Liga dos Campeões, tudo era ainda mais diferente na deslocação do Sporting a Bodö, pequena cidade norueguesa com um número de habitantes que não seria suficiente para encher o Estádio José Alvalade mas que tem ganho uma enorme notoriedade internacional desde o ano passado, quando o Bodö/Glimt chegou às meias-finais da Liga Europa antes de atingir agora esta fase da Champions. E era diferente a vários níveis, num plano que só quem visita consegue “sentir”.

https://observador.pt/liveblogs/bodo-glimt-sporting-leoes-procuram-ganhar-vantagem-no-objetivo-da-inedita-presenca-nos-quartos-da-champions/

Há a particularidade do recinto, o Aspmyra Stadion, ficar apenas a 200 metros do aeroporto que um dia foi uma base militar no período da Segunda Guerra Mundial, ter apenas estádio, campo anexo, uma loja e pouco mais e albergar pouco mais de 8.000 espectadores. Há a particularidade de haver uma bancada que, além de uma escola e de um mercado, tem apartamentos onde adeptos verde e brancos puderam apoiar a equipa no início do treino de adaptação – o que fez com que o proprietário dessa casa, brasileiro, recebesse 20 minutos depois um email do condomínio a pedir explicações e a condenar o sucedido por colocar em risco o clube de levar uma multa da UEFA. Há a particularidade de ser uma equipa que multiplicou o orçamento dez vezes em pouco tempo até aos 40 milhões por “culpa” do sucesso desportivo. Há a particularidade de ser uma cidade cara, onde aquilo que se pagaria cá por dez imperiais chegar ali apenas para duas. Há muitas mais particularidades mas os cerca de 400 adeptos portugueses presentes, alguns vindos de outros pontos da Escandinávia, mostravam-se prontos para tudo antes de chegarem ao ponto de concentração: um bar.

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Ninguém queria perder um jogo histórico, tendo em conta que era preciso recuar mais de quatro décadas para encontrar uma temporada em que o Sporting chegasse aos quartos da principal prova europeia – então a Taça dos Clubes Campeões Europeus, sendo que na Liga dos Campeões a equipa de Rui Borges já igualara o melhor registo do clube. No entanto, havia outra particularidade que poderia pesar e que neste caso não passava ao lado do técnico leonino, que voltava a fugir a qualquer esboço de “desculpas” mas admitia que não era a mesma coisa jogar em relva natural ou num campo sintético, como iria acontecer agora na Noruega.

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“Podemos esperar uma equipa motivada, feliz por ter marcado história esta época na Champions, consciente das dificuldades que irá enfrentar. O Bodö tem sido uma grandíssima equipa mas, dentro da nossa ambição, queremos continuar a sonhar. Podemos gerir alguma coisa, há aspetos que temos que tentar gerir. No treino temos de perceber o impacto do sintético e ver o que podemos fazer. Felizmente os jogadores têm acesso a qualquer tipo de botas, têm que estar preparados para a exigência. Não servirá de desculpa mas é diferente do que jogar na relva. A bola salta mais. Há jogadores que prende mais, em termos de rotações. É totalmente diferente para quem está habituado mas não pode servir de desculpa”, foi repetindo Rui Borges, entre muitos elogios a todo o trajeto da formação norueguesa em termos europeus nas últimas temporadas.

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“Jamais podemos menosprezar o Bodö. Vai começar agora o campeonato, ficou a um ponto do primeiro, a nível físico é um adversário muito forte. Está entre as duas ou três equipas da Champions que mais correm. Nesta edição penso que é a que tem mais golos em ataque rápido e tem uma percentagem de posse de bola muito grande. Está muito confortável com e sem bola, muito compacta e intensa. Vai exigir muito de nós. São duas equipas com uma ambição enorme, um pouco diferentes na ideia, determinadas em marcar história, cada uma com as suas armas diferentes mas a mesma vontade”, destacara o técnico verde e branco.

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A parte física seria também um dos pontos chave do encontro, depois de um empate em Braga onde a equipa leonina quebrou e muito na segunda parte. “Espero que a malta esteja bem, em Braga sentiu-se. Não servirá de desculpa para a exigência. Se perguntar a todos vão dizer que estão bem. Além do impacto do sintético e do adversário, vamos ter que estar atentos, perceber quem está mais adaptado ou não… A chave é a nossa capacidade de estarmos preparados para a exigência física dos 90 minutos. É uma equipa intensa, vertical… Temos que estar preparados e equilibrados. Como gostamos de ter bola, temos de estar lúcidos e rigorosos nos equilíbrios porque eles são fortes nas transições”, assumira, deixando em aberto as hipóteses para ocupar o lado esquerdo da equipa perante os castigos de Maxi Araújo e Pedro Gonçalves além da lesão de Ricardo Mangas (além de Geovany Quenda e Fotis Ioannidis, que voltou a adiar o regresso à competição).

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Fresneda acabou por ser o escolhido numa adaptação com Vagiannidis a ficar na direita. Logo aí, ainda antes de entrar em campo, o Sporting ganhava dois problemas quando procura solução para um. No entanto, não foi por isso que os leões perderam na Noruega frente a um superlativo Bodö/Glimt, que trata o futebol mais puro por “tu” e tira referências à equipa adversária quando a equipa adversária tenta perceber a melhor forma de lhes tirar referências. E também não foi pelo sintético, por mais dificuldades que os médios e alas verde e brancos tenham mostrado nesse constante toque a mais na bola para ficar como queriam que adiava sem segunda oportunidade o passe, a desmarcação e o remate que falharam sempre. Foi mesmo na parte analítica, na estratégia e na forma de enfrentar a revelação da Champions que o Sporting falhou, numa ideia adensada pelos momentos em que os três golos foram sofridos. 3-0 é quase impossível de recuperar mas o “quase” nasce exatamente dessa análise à forma de jogar do adversário assim a mesma seja percebida.

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Ficha de jogo

Bodö/Glimt-Sporting, 3-0

1.ª mão dos oitavos da Liga dos Campeões

Aspmyra Stadion, em Bodö (Noruega)

Árbitro: Ivan Kruzliak (Eslováquia)

Bodö/Glimt: Haikin; Sjövold, Björtuft, Gundersen, Björkan; Evjen (Auklend, 87′), Berg, Sondre Fet (Saltnes, 79′); Blomberg (Määttä, 75′), Högh (Helmersen, 79′) e Jens Petter Hauge

Suplentes não utilizados: Faye Lund, Sjong, Nielsen, Aleesami, Klynge, Riisnaes, Bassi e Mikkelsen

Treinador: Kjetil Knutsen

Sporting: Rui Silva; Vagiannidis (Nuno Santos, 63′), Diomande, Gonçalo Inácio, Iván Fresneda; Hjulmand, João Simões (Morita, 63′); Geny Catamo (Faye, 63′), Francisco Trincão, Luís Guilherme (Daniel Bragança, 79′) e Luis Suárez

Suplentes não utilizados: João Virgínia, Diego Callai, Debast, David Moreira, Flávio Gonçalves, Eduardo Quaresma e Rafael Nel

Treinador: Rui Borges

Golos: Sondre Fet (32′, g.p.), Blomberg (45+1′) e Högh (71′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Hjulmand (20′), Gundersen (44′) e Högh (76′)

A entrada do jogo, com um passe errado de Hjulmand logo a abrir que podia trazer outros dissabores, teve o condão de mostrar bem a ideia inicial do Sporting: muita bola, circulação segura explorando a mobilidade das unidades da frente à exceção do momento de largura que Geny Catamo oferecia sempre na direita, uma reação rápida à perda por forma a evitar as transições rápidas que têm sido mortíferas na Liga dos Campeões. Foi nessa fase que, depois de duas aproximações que falharam no último passe, Luis Suárez deixou o aviso inicial à baliza dos noruegueses, aproveitando uma segunda bola após canto para rematar forte mas por cima da trave ainda com um desvio num defesa contrário (6′). Na resposta, e na primeira vez que Högh conseguiu apanhar o comboio das acelerações repentinas que os TGV do meio-campo faziam, Jens Petter Hauge surgiu sozinho na área após cruzamento da direita mas o desvio de primeira na área saiu ao lado (8′). Os escandinavos ganhavam ascendente e os leões optavam por baixar linhas para travar essa fase delicada.

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Esse “gelo” na noite fria de Bodö teve o mérito de tirar o capitão Berg muitas vezes do jogo, numa colocação entre médios e avançados que com qualquer descuido permitia receber bola e “distribuir” pelos melhores canais de jogo ofensivo. Ainda assim, o médio conseguia ir controlando com e sem bola o meio-campo, com Evjen a ter várias desmarcações de rutura que afundavam a defesa verde e branca e faziam com que, nessa hora de procurar as transições, os criativos estivessem demasiado longe para combinarem. Um bom exemplo de como estava a partida surgiu no minuto 24, com oportunidades nas duas balizas no mesmo lance: Evjen entrou bem no espaço entre Gonçalo Inácio e Fresneda na direita do ataque, surgiu 1×1 contra Rui Silva mas o guarda-redes levou a melhor; na sequência, Trincão tentou explorar a profundidade com Luis Guilherme a ganhar em velocidade a Björtuft mas o remate, já em esforço, a sair fraco e à figura de Haikin.

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Apesar de ser um Sporting muito descaracterizados nas ações com bola, com mais preocupação em travar os pontos fortes do Bodö/Glimt do que propriamente interessado em mostrar a qualidade em posse e explorar as debilidades dos noruegueses, só mesmo num lance atípico essa organização acabou por cair, com o lateral Vagiannidis a arriscar o encosto em Brunstad Sondre Fet na área e a ver o eslovaco Ivan Kruzliak a marcar mesmo penálti que foi depois confirmado pelo VAR para desespero do grego. O mesmo Brunstad Sondre Fet, com toda a calma, inaugurou mesmo o marcador (32′). Ainda houve um esboço de reação com a tentativa de explorar a largura com o 1×1 de Geny Catamo mas o Sporting não conseguiu mais do que “sacar” um cartão a Gundersen, sofrendo mesmo o segundo golo nos descontos da primeira parte num lance confuso onde houve um ressalto em João Simões que encontrou Blomber isolado na área para fazer o 2-0 (45+1′).

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O Sporting ganhava um problema extra: além de ter de fazer mais para chegar à baliza contrária, assumindo mais o controlo da partida e projetando médios e alas como nunca chegou verdadeiramente a acontecer, ia correr o risco de ficar mais exposto às transições frente a um Bodö/Glimt que, entrando na zona de conforto, podia abordar a partida de outra forma. Apesar disso, os leões tentaram. Iván Fresneda teve uma subida pela esquerda após encontrar a referência Luis Suárez no meio para combinar que terminou com um remate forte mas ao lado (50′), Diomande também criou perigo na sequência de um canto que por pouco não teve desvio para a baliza de Suárez ao segundo poste (52′), Gundersen ameaçou na bola parada mas o desvio de cabeça parou nas mãos de Rui Silva (55′). O encontro começava a partir, com tudo o que isso poderia ter de bom e de arriscado para a formação verde e branca, que voltou a criar perigo num lance individual de Suárez mais descaído sobre o lado esquerdo da área antes do remate rasteiro travado por Haikin (60′).

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Sem alterações naquilo que era mais importante, o resultado, Rui Borges foi a jogo nas habituais mexidas e fez uma tripla alteração na equipa, lançando Nuno Santos, Morita e Souleymane Faye para os lugares de Vagiannidis (Fresneda regressou à direita), João Simões e Geny Catamo. Na teoria, os leões – e qualquer pessoa que estivesse a ver o encontro – já tinham percebido que a melhor forma de criar perigo era tirar o jogo do corredor central e explorar movimentos de superioridade pelas laterais. Na prática, em vez de “matar” dessa forma, foi por aí que “morreram”: Hauge aproveitou uma transição rápida para receber com espaço e partir para o 1×1 na esquerda, cruzou tenso e Högh desviou na pequena área para o 3-0 (71′). Se por uns minutos ainda houve alguma esperança de um resultado menos pesado mesmo perante o efeito zero da entrada de Faye (o mesmo não se pode dizer sobre Morita e Nuno Santos), a partir daí essa chama rendeu-se de vez ao frio do Ártico e até foi Hauge, em mais um movimento a partir da esquerda, a ameaçar o golo (82′).

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