Vi no outro dia que Miguel Morgado afirmou que depois do cristianismo, o liberalismo foi a revolução mais transformadora do Mundo.
Ainda que considere tão grande a distância das duas realidades aqui comparadas, que dificilmente poderia classificar como primeira e segunda, e sem querer questionar sobre a existência de outras revoluções que poderão ter tido um impacto, senão maior, pelo menos próximo da do liberalismo, aquilo que me parece mais significativo é a diferença extraordinária sobre a verdade, o âmbito e a amplitude que cada uma abrange.
Enquanto o cristianismo veio trazer ao Mundo a consciência da absoluta centralidade da pessoa humana, afirmando incondicionalmente a sua dignidade individual e o seu direito à verdade, à justiça e à liberdade, promovendo sempre o outro como razão da minha existência e colocando sempre o dar como superior ao receber, o liberalismo baseia-se num conceito completamente oposto em que a afirmação de que se cada um fizer o que for melhor para si, a sociedade encontrará o seu maior crescimento.
A diferença destes dois conceitos é em si mesmo razão para considerarmos a enorme diferença entre as duas realidades.
Enquanto que colocar o outro ao meu próprio nível é realmente uma revolução no comportamento da humanidade, a promoção egoística dos meus interesses poderá, no imediato e no meu entorno trazer benefícios de crescimento económico, mas nada faz pela felicidade da humanidade.
Não deixo de reconhecer que o liberalismo, em termos económicos foi uma verdadeira revolução, que tem como principal valor a introdução da liberdade num sector que esteve quase sempre dominado pelos mais poderosos, pelos mais ricos e pelos que detinham o poder.
Mas falta ao liberalismo a amplitude que tem a humanidade, falta-lhe a componente do conceito humano da justiça que determina a o destino universal dos bens em que se afirma que os bens devem ser administrados pelos seus proprietários sempre tendo em conta o bem comum.
Falta ao liberalismo debruçar-se com o que fazer com a riqueza criada pela introdução dessa liberdade na componente económica da sociedade.
Falta ao liberalismo a prática do princípio da solidariedade, que foi verdadeiramente aquilo que transformou a humanidade após a passagem de Cristo no Mundo.
Adam Smith, considerado um dos promotores do liberalismo, através da sua obra, “A Riqueza das Nações” era um professor de filosofia moral e, curiosamente, aquilo que defende na sua obra sobre economia, o egoísmo em que cada um deve fazer aquilo que for melhor para si, é exactamente o que considera ser o maior mal da sociedade em todas as obras que escreve sobre filosofia moral.
Para Adam Smith, o Mundo económico podia libertar-se das suas prisões de poder e mesmo ser egoísta, pois a sociedade estava sempre condicionada por uma moral que era uma parte muito significativa da mão invisível que tudo resolveria e que substituía a necessidade de justiça social.
Hoje, a sociedade despiu-se da moral e com isso o liberalismo soltou-se da mão invisível e permitiu a criação de desníveis dentro da sociedade que são extraordinariamente injustos e mesmo perigosos para a sua estabilidade e desenvolvimento.
Para mim, a revolução transformadora do cristianismo continua a ser a verdadeira revolução que afectou o Mundo.
Uma revolução que também defendeu a liberdade na economia como em todas as restantes vertentes da sociedade, mas que sempre defendeu, a par da liberdade a justiça e a verdade.
Por isso também eu continuo a acreditar que a democracia cristã é a verdadeira defensora da revolução transformadora da sociedade e que ser liberal na criação de riqueza e social na sua distribuição é a verdadeira mudança que o Mundo necessita.