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O Blitz de Abu Dhabi – Um testemunho

A guerra é real, mas a calma dos residentes também o é. Para quase todos nós, isto é uma experiência totalmente nova — simultaneamente assustadora e extraordinariamente interessante.

António Pais Vieira
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A primeira explosão ouviu‑se uns minutos depois de chegar a casa. Uma coluna de fumo negro subia do outro lado da rua. Uma hora antes, o presidente americano declarara guerra ao Irão. A minha mulher e eu olhámos um para o outro e perguntámo-nos: estaremos em guerra?

Enquanto observávamos o fogo e o aparato habitual nestas ocasiões, ouvimos uma série de explosões por cima de nós. Desta vez, não tivemos qualquer dúvida. Estamos em guerra.

Não foi uma surpresa: as ameaças vinham-se acumulando e os meios militares americanos iam convergindo no Médio Oriente para o que parecia mais do que uma demonstração de força. Ao contrário de Donald Trump, que admitiu não ter previsto a possibilidade de o Irão retaliar contra os países árabes da região, todos sabíamos que essa era uma hipótese muito real. As imagens de civis em pânico num centro comercial no Catar, em 2025, próximo da base americana de Al Udeid — uma retaliação pelos ataques de Israel ao Irão — estão bem presentes na memória de todos. Qualquer residente em Abu Dhabi já tinha pelo menos uma vaga ideia da distância a que vivia da base de Al Dhafra, onde os americanos operam.

Mesmo sendo os Emirados contra qualquer ataque ao Irão, e tendo apelado à diplomacia — chegando até a proibir o uso das bases americanas no seu território em qualquer operação ofensiva — todos tínhamos presente os riscos de uma guerra tão próxima deste país e numa região já de si bastante volátil. Não tardou a chegar o primeiro de muitos alertas nos telemóveis, em árabe e inglês:

“Due to the current situation and potential missile threats, seek immediate shelter in the closest secure building, and steer away from windows, doors, and open areas. Await further instructions (MOI).”

Iniciou-se uma longa sequência de eventos que estamos mais habituados a ler nos livros de história e a ver nos filmes de guerra: fecho do espaço aéreo, força aérea no ar, teletrabalho, escolas online, um turbilhão de mensagens nos grupos de WhatsApp — descrições, fotografias e vídeos de eventos por todo o país — centenas de mensagens de familiares e amigos espalhados pelo mundo, naturalmente preocupados. Começámos também imediatamente a ver nas redes sociais inúmeros posts obviamente falsos, criados por IA ou imagens recicladas do passado com motivações duvidosas.

Num país onde estamos habituados a viver com ar condicionado onze meses por ano, optámos agora por ter janelas abertas para melhor ver e ouvir o que nos rodeia. Não demorou a tornar-se possível distinguir os diferentes sons: explosões vindas de cima são interceções bem-sucedidas de mísseis e drones iranianos; explosões menores vindas de baixo (eu vivo num quinto andar) são detritos das interceções a cair; explosões fortes vindas de baixo significam que algo passou sem ser interceptado (uma raridade, felizmente).

Embora estejamos no Ramadão, em que a população muçulmana está em jejum do nascer ao pôr do sol, a cidade continua a funcionar com a normalidade possível. O trânsito, sendo claramente menor do que o habitual, não tem qualquer semelhança com o que vimos durante os confinamentos. Os supermercados não parecem ter problemas de stocks, e o movimento não é particularmente diferente do habitual. Os centros comerciais têm bastantes clientes, incluindo nas lojas e negócios claramente não essenciais, e os restaurantes e bares estão bem compostos. Ao fim de onze dias de guerra, e embora todos saibamos que explosões e alarmes não deveriam ser habituais, a vida continua.

Esta normalidade é resultado direto da competência demonstrada pelas forças armadas dos Emirados, que, embora tenham mantido até ao momento uma postura puramente defensiva, têm sido inexcedíveis na forma como têm interceptado os milhares de mísseis e drones enviados pelo Irão. Vemos consistentemente drones a serem abatidos pelos sistemas antiaéreos, caças e helicópteros, agora acompanhados também por esquadrões franceses. A liderança política do país tem-se mostrado firme e visível: os sheiks dão a cara pela segurança do país, mostram-se publicamente nos centros comerciais, visitam hospitais onde se encontram os feridos e asseguram à população a sua determinação e capacidade em ultrapassar estes tempos difíceis. A título de exemplo, assim que começou a guerra, o governo ofereceu-se para pagar as contas dos hotéis a todos os turistas e viajantes em trânsito que tinham ficado retidos no país. A atitude e competência das autoridades têm ajudado muito a manter a tranquilidade que se exige num momento destes.

Embora eu me tenha sentido sempre seguro durante a crise, sei que não somos todos iguais, não estamos nas mesmas condições, nem reagimos da mesma forma. Não consigo imaginar o que sentiria, por exemplo, um trabalhador do Bangladesh que não fala inglês nem árabe e estivesse numa escala no Dubai ou em Abu Dhabi, sem dinheiro no bolso, com uma guerra a começar. Não é igual estar com crianças pequenas que se assustam com os ruídos das explosões, ou quando um dos (ou ambos os) adultos perde a calma com a situação. Felizmente, quer eu quer a minha mulher estamos calmos, sentimo-nos seguros e limitamo-nos a cumprir as recomendações apropriadas e algumas cautelas típicas destas crises. As nossas filhas já são mais velhas e estudam em universidades na Europa, por isso não temos essa preocupação. Com as férias escolares antecipadas, conheço muitas famílias em que a esposa e os filhos saíram do país por agora, pretendendo regressar assim que possível.

Não quero de forma alguma desvalorizar a gravidade do que está a acontecer — uma guerra que não fazemos ideia de quando terminará nem quais os impactos de médio e longo prazo que terá. Mas gostava de passar a mensagem, para quem está em Portugal e aqui tem familiares e amigos, de que a situação está calma dentro do que uma situação destas permite, e a comunidade portuguesa está, em geral, tranquilo e confiante. Asseguro que nos grupos de portugueses se fala tanto de comida como da guerra.

Compreendo que há algo de cómico nas imagens dos turistas e residentes que aterram em Lisboa e dizem que está tudo tranquilo nos Emirados. A excitação dos jornalistas não é acompanhada pela paz que os viajantes demonstram. O paradoxo é evidente: a guerra é real, mas a calma dos residentes também o é. Para quase todos nós, isto é uma experiência totalmente nova — simultaneamente assustadora e extraordinariamente interessante. Embora estejamos todos muito atentos a cada novo desenvolvimento e preparados para mudar de rumo se necessário, estamos confiantes de que a situação se resolverá e de que estamos seguros.

Quando ouvimos um avião comercial levantar voo, sorrimos — é um pequeno sinal de normalidade num céu que tem sido tudo menos normal. É esse sorriso que quero que chegue a Portugal: estamos atentos, estamos preparados e estamos bem. Como no Blitz de Londres em 1940, a mensagem só pode ser uma: keep calm and carry on!