Harvey Weinstein, ex-produtor e distribuidor norte-americano e outrora uma das figuras mais poderosas de Hollywood, está há seis anos preso por crimes sexuais. Agora, pela primeira vez, fala publicamente sem ser através dos seus advogados. Fá-lo numa entrevista ao Hollyood Reporter, meio especializado na indústria audiovisual, a partir da prisão de Rikers, em Nova Iorque, onde está a cumprir pena. Insiste que está inocente e acusa as mulheres que o denunciam.
“Enganei [mulheres]. Traí as minhas duas esposas. Isso é imoral. Mas não as agredi. Essa é a grande mentira de tudo isto. Não vou pedir desculpa por algo que não fiz. A minha inocência será provada”, garantiu numa entrevista de uma hora completada com múltiplas chamadas telefónicas posteriores a pedido do produtor.
“Tentei seduzir algumas dessas mulheres sem sucesso? Exagerei? Sim. Fui insistente ou excessivamente sedutor? Sim, em todos os casos. Nunca deveria ter saído com as pessoas com quem saí. Era casado com uma mulher fantástica que não fazia ideia do que eu estava a fazer. Mentia a toda a hora. Usei indevidamente a minha equipa para esconder essas coisas. Mas alguma vez agredi sexualmente uma mulher? Não. Nunca fiz isso”, frisou.
O que levou então a que alegadas vítimas o acusassem de agressões sexuais? “Por muitas razões. Mas principalmente porque há dinheiro envolvido. Uma mulher recebeu meio milhão de dólares. Outra recebeu 500 mil dólares. Uma terceira recebeu 3 milhões de dólares. Tudo o que precisavam fazer para receber o cheque era preencher um formulário dizendo que eu as tinha agredido sexualmente. Então elas preencheram o formulário e a seguradora acabou pagando dezenas de milhões de dólares. E a Disney também — a Disney não queria uma disputa pública, então simplesmente pagou às pessoas para que fossem embora. Isso torna-se um efeito manada. As pessoas podem dizer o que quiserem sobre mim, e isso fica registado publicamente. Mas muito poucas dessas histórias foram levadas aos tribunais.”
Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie “queriam fazer parte do clube e destruíram-me”, acusa
Harvey Weinstein defende que as relações que teve foram sempre consentidas. “O que eu estava a fazer de errado não era agressão sexual. Era trair a minha mulher. Eu estava desesperado para manter isso em segredo dela. Não queria que a Disney descobrisse. Fiz tudo para me proteger desse tipo de escândalo”, respondeu, quando confrontado com o facto de ter pagado pelo silêncio de algumas das mulheres que o acusam de má conduta sexual.
“Quando um homem te convida para ir ao quarto dele no hotel a meio da noite, tu sabes o que está para acontecer”, atirou, sendo confrontado pelo jornalista sobre se essas declarações queriam dizer que “todas as pessoas que foram ao seu encontro sabiam que acabariam por ser apalpadas e perseguidas pela sala”. “De forma alguma”, contestou. “Muitas pessoas vieram ter comigo. Mas havia algumas mulheres que sabiam exatamente o que era esperado. Talvez se tenham sentido mal mais tarde ou se tenham arrependido. Talvez tenham visto uma oportunidade de ganhar dinheiro. Mas nem todas eram tão ingénuas como gostavam de fingir”.
“Posso ser um tipo duro, mas não sou louco”, afirmou. “Vou apenas dizer que a Rosanna Arquette, a Gwyneth Paltrow, a Angelina Jolie — elas exageraram. Queriam fazer parte do clube. E destruíram-me”, acusou.
O ex-produtor de 73 anos mostrou-se magoado com o testemunho da atriz Gwyneth Paltrow, de quem alega ter sido “amigo”. “Não sei o que a levou a fazer o que fez. Dar tanta importância a algo sem importância. Saí de uma reunião agradável com ela e disse: ‘Que tal uma massagem?’ E ela simplesmente respondeu: ‘Não, acho que não.’ Entendi a mensagem. Nunca lhe toquei. Ela contou ao Brad Pitt. O Brad Pitt veio ter comigo e disse: ‘Não faças nada disso com a minha namorada.’ Eu disse: ‘Não se preocupe, Brad. Eu entendi’. Mas então a Gwyneth vai ao programa do Howard Stern e ao The New York Times e faz um grande alarido sobre tudo isso. Ela sabe que nada aconteceu. Mas essa pessoa que era minha amiga, que me deve a sua carreira, simplesmente apunhala-me pelas costas. Ela queria fazer parte do grupo. Não a vou perdoar por isso”.
Weinstein admite: “Ultrapassei os meus limites”
“Ultrapassei os meus limites. Isso é certo. Podia ser um bully horrível. Usei o poder de forma arrogante. Era agressivo e insistente e sinto-me péssimo. Tenho vergonha desse comportamento e agora consigo vê-lo de uma forma que antes não conseguia”, diz, referindo-se sempre às traições conjugais e não aos crimes sexuais de que é acusado. “Sim, havia um desequilíbrio de poder. Sei que posso ser assustador e difícil. Mas isso ainda está muito longe de ser agressão sexual. Flirt excessivo, situações ridículas. Comportamento mau e estúpido. Sim. Mas não agredi ninguém. Não movi fisicamente ninguém. Não fiz isso”.
Questionado se faria algo de diferente, contestou: “Teria respeitado mais essas mulheres. Nunca teria me envolvido com elas. Teria sido fiel ao meu casamento. Teria dito: ‘Tenho uma família. Vou protegê-la.’ Fui um tolo. Admito isso.”
Weinstein foi co-fundador do estúdio Miramax, de onde saíram filmes como A Paixão de Shakespeare e Pulp Fiction — “esses foram os filmes mais icónicos que fiz”, corroborou na entrevista. O estúdio declarou falência em março de 2018, cinco meses depois de as primeiras acusações terem vindo a público.
Em 2017 quase uma centena de mulheres acusaram o produtor de má conduta sexual, num caso que desencadeou uma onda global de denúncias e impulsionou o movimento #MeToo. Weinstein sempre negou todas as agressões, mas três júris sucessivos discordaram.
Desde que as primeiras notícias surgiram, vários processos civis e criminais ainda estão a ser julgados pelos tribunais de Nova Iorque e Califórnia. O primeiro julgamento em Nova Iorque, em 2020, terminou com uma condenação por acusações que incluíam violação, com uma pena de 23 anos de prisão. Essa condenação acabaria por ser anulada em 2024 — não por motivos de inocência, mas por uma decisão processual. Um novo julgamento em 2025 que terminou num veredicto misto: condenação por uma acusação, absolvição por uma segunda acusação e anulação do julgamento pela terceira. Em 2023, Weinstein recebeu uma sentença de 16 anos por violação e outros crimes após um longo julgamento com júri em Los Angeles. O juiz determinou que a sua pena seria cumprida consecutivamente com a sua sentença em Nova Iorque.