“Até agora, apenas há uma vencedora nessa guerra: a Rússia.” O presidente do Conselho Europeu, António Costa, foi dos primeiros líderes do Ocidente a alertar para o que podem ser as vantagens e os ganhos de Moscovo resultantes da guerra no Irão. No meio de uma situação geopolítica e económica adversa, o Kremlin está já a lucrar com o aumento do preço do petróleo e vê as atenções da comunidade internacional focarem-se no Médio Oriente — e a deixarem a Ucrânia esquecida.
O Presidente russo, Vladimir Putin, como escreve o canal de televisão CNBC, já sente o “cheiro do sangue”. Na segunda-feira, após uma reunião com conselheiros económicos, o líder da Rússia veio mostrar disponibilidade para “trabalhar com os europeus no fornecimento de petróleo e gás”. “Os preços globais do petróleo estão a aumentar, com uma subida de 30% nas últimas semanas”, recordou, ressalvando, contudo, que há uma condição: a Europa terá de mostrar “determinados sinais” para que isso aconteça. Noutras palavras, o chefe de Estado deixou implícito que os países europeus terão de ceder na linha dura contra a Rússia.
País exportador de petróleo e de gás natural, a Rússia abastecia, antes da invasão contra a Ucrânia, várias capitais da União Europeia (UE). Havia uma verdadeira relação de dependência entre diversos Estados‑membros e Moscovo, que o Kremlin não raras vezes instrumentalizou a seu favor. À exceção da Hungria e mais recentemente da Eslováquia, o paradigma alterou-se em fevereiro de 2022, ainda que no curto prazo tenha gerado um forte aumento dos preços da energia na Europa.

Vladimir Putin pressente que a economia europeia voltará a ressentir-se com o aumento do custo de petróleo e do gás — e tenta apresentar a Rússia como uma possível solução para esse problema. Para além da ofensiva de charme que procura fazer às capitais europeias, o Kremlin já tem lucrado com a subida do custo de petróleo com a venda a países terceiros, como a China, a Índia ou a Turquia. Essas verbas poderão ser mais tarde canalizadas para o esforço de guerra na Ucrânia.
Em termos geopolíticos, a guerra na Ucrânia continua a ser o principal foco da Rússia. Vladimir Putin insiste que quer sair com uma vitória do país vizinho e exige a cedência territorial do Donbass como ponto de partida para um futuro acordo de paz. No atual contexto internacional, a Rússia sabe que as atenções da comunidade internacional estarão no Irão — o que lhe dá tempo para continuar a guerra de atrito na linha da frente, ao mesmo tempo que tenta ganhar uma posição ainda mais vantajosa na mesa das negociações.
É certo que Vladimir Putin até pode perder o regime aliado de Teerão: esse risco existe e a presença russa no Médio Oriente sairia beliscada. Porém, as externalidades resultantes de uma guerra norte-americana e israelita contra o Irão podem acabar por ser positivas para a Rússia, pelo menos a curto e médio prazo. Porque o líder russo também está ciente das dificuldades em derrubar o Governo dos clérigos xiitas e do potencial de um conflito prolongado enfraquecer ainda mais os Estados Unidos militarmente.

Rússia condena guerra, mas faz pouco para segurar aliado em Teerão
Para a presidência russa, o início da guerra e a morte de Ali Khamenei foram gestos inaceitáveis. Em público, o Kremlin condenou inequivocamente o “ato de agressão armada contra um Estado-membro das Nações Unidas”, representando uma “violação dos princípios fundamentais e normas do Direito Internacional”. Entre condenações do Ministério dos Negócios Estrangeiros e comentários agressivos do ex-Presidente Dmitri Medvedev nas redes sociais, o tom crítico contra Israel e os Estados Unidos manteve-se.
Ao contrário do que aconteceu na Venezuela com a captura de Nicolás Maduro — em que Vladimir Putin não teceu qualquer comentário em público —, o Presidente russo condenou a morte de Ali Khamenei, que caracterizou como um “assassinato cometido numa violação cínica de todas as normas da moralidade humana e do Direito Internacional”. Era um sinal de apoio moral e diplomático, com a Rússia a defender acerrimamente nas plataformas internacionais o regime iraniano.
A Rússia tem sido um dos principais apoios do Irão entre a comunidade internacional. O laço estreitou-se desde a guerra na Síria, em que defenderam em conjunto a permanência do poder do Presidente Bashar al-Assad. Desde a invasão da Ucrânia, a relação entre Moscovo e Teerão fortaleceu-se. Isolados e alvos de inúmeras sanções ocidentais, os dois países perceberam que tinham muito a ganhar em cooperar. Os iranianos fornecem drones baratos usados na guerra na Ucrânia, enquanto os russos vendem armamento e tecnologia de defesa ao regime dos aiatolas.

Tendo em conta a relação próxima que Teerão e Moscovo foram desenvolvendo nos últimos anos, era natural que a Rússia defendesse publicamente o Irão. Mas o Governo russo não fez muito mais pelo aliado. A imprensa norte-americana adiantou que o Kremlin concedeu informações confidenciais ao regime iraniano para que os ataques no Médio Oriente contra bases norte-americanas fossem bem sucedidos.
Ainda assim, Vladimir Putin negou ter fornecido informações confidenciais ao Irão numa chamada telefónica com o homólogo norte-americano. Entre Teerão e Washington, a posição do Presidente russo é bastante delicada. Por um lado, não quer desagradar ao principal aliado no Médio Oriente; por outro, não pretende estragar o clima de boas relações com Donald Trump, ainda para mais quando as negociações para um acordo de paz na Ucrânia se prolongam.
“A postura pública da Rússia tem sido de condenação. Mas a Rússia não vai obviamente entrar em nenhum tipo de confronto militar com os EUA e Israel. Nem enviou qualquer sinal a Teerão de que o poderá fazer”, escreveu o analista Grégoire Roos, num artigo publicado no site do think tank Chantam
O líder russo está a gerir com pinças este conflito, nem desprezando totalmente o Irão, nem confrontando Donald Trump. Entre os principais protagonistas do conflito, a atitude é calculada ao milímetro; perante os europeus, Vladimir Putin tem mesmo moderado a retórica. Se bem que tenha designado a União Europeia e o Reino Unido como os principais adversários da Rússia, mostra-se agora disposto a voltar a vender petróleo e gás natural aos rivais. Até sugeriu que os europeus deviam pensar numa “cooperação estável e longo prazo” com Moscovo, desde que livre de pressões políticas.
A celebração no Kremlin: “Empresas russas nunca ganharam tanto dinheiro com o petróleo”
A economia russa está a sofrer as consequências de uma guerra que já dura há mais de quatro anos na Ucrânia. Isolada dos mercados ocidentais, a Rússia enfrenta um cenário de estagnação — e as previsões para o futuro não são de melhoria. “Nos últimos meses, a sustentabilidade das finanças públicas russas em contexto de guerra tem sido questionada, à medida que a inflação se mantém elevada e o défice orçamental aumenta”, nota o jornalista da CNN Internacional, e ex-correspondente na Rússia do Wall Street Journal, Nathan Hodge.
Porém, a guerra no Irão pode dar um “potencial shot de adrenalina” à economia russa, acredita Nathan Hodge. O preço por barril superou os 100 dólares (cerca de 86 euros) na segunda-feira. Ainda que tenha diminuído nos últimos dias, o regime iraniano já ameaçou que poderá atingir os 200 dólares por barril (aproximadamente 173 euros) se avançar com o bloqueio de Estreito de Ormuz e continuar com os ataques às infraestruturas petrolíferas nos países do Golfo.

No meio desta instabilidade, o líder russo tenta vender o país como baluarte da estabilidade. Na segunda-feira, Vladimir Putin declarou que, numa altura em que a “competição se está a intensificar” no setor petrolífero, a “estabilidade é precisamente o que sempre caracterizou as empresas de energia russa”. A venda de combustíveis fósseis é uma das principais fontes de receita do Estado russo: em 2024, cerca de 30% das receitas orçamentais vieram do petróleo e do gás natural.
Tendo em conta estes valores, Moscovo já tem lucrado com a subida do petróleo. Ao jornal Axios, o historiador económico Nicholas Mulder referiu que “o petróleo russo sancionado está a ser vendido mais caro do que o principal preço de referência internacional”. Por outras palavras, isto significa que as empresas petrolíferas da Rússia “nunca ganharam tanto dinheiro a vender petróleo como agora”, precisamente por causa da “interrupção nas cadeias de abastecimento”.
Não é apenas o petróleo russo que está a ser vendido por valores mais elevados: também o norueguês e o canadiano estão em alta. Contudo, o caso russo é invulgar, porque se trata de petróleo sob sanções a negociar acima dos principais índices de referência. Mais: os Estados Unidos levantaram provisoriamente esta sexta-feira várias sanções aplicadas internacionalmente no setor petrolífero, de modo a aliviar pressão nos mercados.
No que toca à Rússia, os Estados Unidos concederam na quinta-feira uma isenção temporária das sanções secundárias à Índia: durante 30 dias, Nova Deli pode adquirir petróleo russo sem sofrer os impactos da política sancionatória — que entretanto esta sexta-feira alargou a todos os países, de forma a evitar que o Irão ganhe uma vantagem estratégica.
Nos jornais russos controlados pelo Governo, já na quinta-feira se celebrava precisamente um futuro alívio das sanções, como refere o corresponde na Rússia da BBC, Steve Rosenberg. Por exemplo, o Komsomolskaya Pravda previa que o encarecer do petróleo poderia levar o Ocidente a “cancelar as sanções”. Mesmo que a imprensa censure o ataque a um aliado russo, a curto prazo, o cenário pode ser muito positivo para a Rússia.
Contudo, a União Europeia parece não estar disposta a ceder à Rússia. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, salientou que seria um “erro estratégico” voltar à dependência russa no gás e no petróleo russo — que tornaria a Europa mais vulnerável no futuro. Em vez disso, a responsável pretende que a UE aposte cada vez mais na energia nuclear.

Ucrânia esquecida — e pode ficar sem o apoio dos aliados
A par da questão económica, há outras preocupações para os dirigentes europeus. António Costa assinalou que os ganhos oriundos do setor petrolífero podem ajudar a “financiar a guerra na Ucrânia” e a dar um novo ímpeto ao esforço de guerra russo. Mas não é só isso. Moscovo “lucra com o desvio de capacidades militares que poderiam ser enviadas para ajudar a Ucrânia”. “E beneficia da atenção reduzida na linha da frente ucraniana , enquanto o conflito no Médio Oriente assume o protagonismo”, lamentou o presidente do Conselho Europeu.
Em primeiro lugar, a Ucrânia baseia o seu esforço de guerra com material bélico ocidental, uma grande fatia norte-americano. Ora, os Estados Unidos estão a gastar munições e usar equipamentos de guerra no Irão — e poderão ficar com o arsenal mais reduzido, o que são péssimas notícias para o Governo ucraniano. Mesmo que os europeus continuem a apoiar Kiev, a venda de armas está dependente da administração Trump.
Ao contrário do antecessor Joe Biden, Donald Trump interrompeu totalmente a cedência de armas à Ucrânia. No entanto, consciente dos lucros que poderia amealhar, o Presidente norte-americano permitiu que Estados-membros da NATO adquirissem munições e material bélico de Washington, que depois seria enviado para território ucraniano. A Lista de Requisitos Prioritários da Ucrânia — conhecida como mecanismo PURL em inglês — pode ficar comprometida com o conflito no Irão.
Como escreve Ian Smith — o antigo embaixador da Nova Zelândia em Moscovo —, “dependendo da duração e do sucesso, os ataques norte-americanos e israelitas podem sobrecarregar os stocks e a capacidade de produzir munições para os Estados Unidos, tornando mais difícil para os apoiantes europeus de Kiev comprar material militar crucial para reforçar as forças ucranianas, que estão sob forte pressão”.
No domínio de defesa aérea, a Ucrânia recebe, por exemplo, baterias para os sistemas Patriot dos Estados Unidos. Se Washington estiver sob pressão ou preferir privilegiar manter os stocks, pode enviar menos material bélico para território ucraniano. “Isso pode expor fragilidades defensivas, incentivando a Rússia a intensificar as operações ofensivas no leste da Ucrânia”, teoriza Ian Smith, num artigo publicado no think tank Lowy Institute. O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, já denunciou que Moscovo pode começar uma ofensiva durante a primavera no Donbass — e pode aproveitar a guerra no Irão para a intensificar.
Adicionalmente, a Rússia entende que as atenções norte-americanas e do Ocidente estão viradas para o Irão — e a Ucrânia acaba esquecida no meio disto tudo. Esse desvio de foco pode traduzir‑se numa vantagem, tanto no campo de batalha — se a ajuda militar a Kiev abrandar —, como na mesa de negociações, caso a Rússia consiga avançar na linha da frente e chegar em melhor posição a futuras negociações de paz.

À revista Time, o especialista em política externa russa, Robert Person, não tem dúvidas de que a Rússia vai explorar todas as vantagens resultantes do conflito no Médio Oriente: “Putin e os seus conselheiros provavelmente determinaram que a guerra no Irão serve os interesses da Rússia a curto prazo: os preços de energia estão mais elevados, nota-se uma distração global da guerra na Ucrânia — que Putin não quer terminar já —, e há o risco de a América ficar presa noutro conflito eterno no Médio Oriente”.
“A humilhação para a Rússia” — que pode perder influência no Médio Oriente
A guerra no Irão traz uma série de vantagens a curto prazo para a Rússia, mas nem tudo joga a seu favor. A guerra no Irão ainda está em curso e o desfecho é incerto, com uma variável de extrema importância: se o regime dos aiatolas cai ou se permanece no poder em Teerão. No primeiro cenário, Moscovo perde o principal aliado no Médio Oriente — e vê os Estados Unidos (com os aliados dos Países do Golfo) e Israel a dominarem a região sem grandes contrapesos.
A Rússia já perdeu um aliado no Médio Oriente recentemente. Em dezembro de 2024, o regime liderado pelo Presidente sírio Bashar al-Assad foi deposto, o que foi um duro revés para Moscovo. O acesso russo às bases navais no Mediterrâneo deixou de ser um dado adquirido e a Síria escapou para as zonas de influência turca, saudita e até norte-americana. A eventual perda do Irão deixaria Moscovo quase sem aliados estratégicos na região. É certo que a Rússia mantém boas relações com os países do Golfo, mas estes continuam a privilegiar os Estados Unidos como principal garante de segurança.

A par deste risco, a impressão que fica é que a Rússia (e também a China) têm revelado pouca iniciativa estratégica e limitada disponibilidade para proteger militarmente os regimes aliados. Os Estados Unidos continuam a intervir como potência dominante, sem nenhum rival a fazer-lhe sombra. Com uma guerra longa na Ucrânia que espera vencer, a Rússia evita confrontar diretamente Washington, ao passo que a China não quer pôr em risco a sua estabilidade económica.
A Síria foi a primeira a cair, seguiu-se a Venezuela e eventualmente o regime iraniano e cubano podem ser os próximos. A Rússia condena verbalmente, mas fica-se por aí. “Esta é outra humilhação para os russos. Eles demonstraram que são um ator que nem é relevante, nem exerce influência. São obrigados a assistir a isto e tenho a certeza de que é extremamente desagradável para eles”, opina, à NBC News, John Lough, líder do think tank New Eurasian Strategies Centre.
A curto prazo, existe também um revés para o Kremlin em termos militares: pode ficar sem drones iranianos Shahed que usa para atacar a Ucrânia. No entanto, como destaca Grégoire Roos, a Rússia já os produz em fábricas em solo russo. Para o especialista, o principal risco está mesmo nas relações entre Teerão e Moscovo, que se podem deteriorar. “A parceria pode ser menos recíproca e pode ser mais transacional como tem sido nos últimos meses.”
O especialista do think tank Chatham House adverte ainda que uma guerra no Irão “introduz incertezas” nas fronteiras a sudoeste da Rússia, como no Cáucaso, onde, aliás, Moscovo já perdeu influência. “Se o Irão se deixar consumir pela guerra e sua capacidade de atuar como um equilibrador regional diminuir, a Rússia enfrentará uma erosão progressiva da sua profundidade estratégica” no Médio Oriente.
A guerra no Irão pode tornar já evidente a falta de influência russa no Médio Oriente, pela falta de reação durante esta guerra. Segundo Grégoire Roos, o conflito demonstra que a preponderância do Kremlin na região é “contingente, negociada e crescentemente vulnerável a mudanças que estão muito além do controlo direto de Moscovo”. Se o regime iraniano cai, essa tendência vai fortalecer-se — e o papel da Rússia arrisca‑se a ficar reduzido ao de um mero figurante no Médio Oriente.
Texto atualizado no dia 13 de março de 2026 às 10h00, com a informação sobre o alargamento da isenção de sanções aplicadas internacionalmente no setor petrolífero por parte dos EUA.