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(A) :: Depósitos em abundância, créditos em disputa

Depósitos em abundância, créditos em disputa

Num país onde o crédito sempre desempenhou um papel central na economia, acompanhar este indicador é também acompanhar a forma como o sistema financeiro evolui.

Tiago Vilaça
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Durante muitos anos, o sistema bancário português viveu com um problema estrutural: faltava liquidez. Hoje, vive o oposto. O rácio de transformação de depósitos em crédito (Loan-to-Deposit Ratio) ajuda a compreender esta mudança e, de certa forma, conta a história da economia portuguesa nas últimas duas décadas.

Este indicador mede a relação entre o crédito concedido pelos bancos e os depósitos captados junto de famílias e empresas. Em termos simples, mostra quanto do dinheiro emprestado pelos bancos é financiado pelos depósitos dos seus clientes. Quando o rácio é elevado, os bancos estão a emprestar mais do que aquilo que captam em depósitos, recorrendo a financiamento externo. Quando é baixo, há liquidez abundante no sistema.

Antes da crise financeira internacional, Portugal viveu a primeira realidade. Em 2009, o rácio de transformação atingiu um pico histórico de cerca de 169%. Os bancos emprestavam muito mais do que captavam em depósitos, financiando essa diferença nos mercados internacionais. Durante anos, este modelo funcionou. Mas quando a crise da dívida soberana atingiu Portugal e os mercados se fecharam ao financiamento externo, o sistema bancário ficou subitamente exposto.

A partir de 2011, com o programa de ajustamento, iniciou-se um longo processo de desalavancagem. As autoridades europeias e nacionais passaram a exigir rácios mais equilibrados, incentivando os bancos a reduzir o crédito e a reforçar a captação de depósitos. Ao mesmo tempo, as famílias portuguesas aumentaram significativamente a sua poupança. O resultado foi uma descida consistente do rácio ao longo da década seguinte.

Hoje, o cenário é radicalmente diferente. Em dezembro de 2025, o rácio de transformação situava-se entre 75% e 78%, um dos níveis mais baixos das últimas décadas. Isto significa que os bancos portugueses dispõem de muito mais depósitos do que aqueles que estão efetivamente transformados em crédito à economia.

Esta abundância de liquidez tem várias implicações. Por um lado, explica por que razão as taxas de juro dos depósitos em Portugal têm evoluído de forma mais lenta do que noutros países europeus. Quando os bancos já têm liquidez suficiente, a necessidade de competir agressivamente pela captação de poupança diminui.

Por outro lado, esta realidade altera a dinâmica do mercado de crédito. Com depósitos abundantes e relativamente baratos, os bancos têm maior incentivo a colocar esse capital a trabalhar. O resultado é uma concorrência mais intensa na concessão de crédito, que se vê na redução dos spreads no crédito à habitação. Há poucos anos seria difícil imaginar spreads base abaixo de 1%; hoje, valores entre 0,7% e 0,8% tornaram-se relativamente comuns para clientes com perfis de risco sólidos.

No fundo, a evolução do rácio de transformação reflete uma mudança estrutural. Em 2010, muitos projetos ou famílias viam o crédito recusado não necessariamente por risco, mas por escassez de liquidez no sistema. Em 2026, a liquidez existe e o crédito tornou-se um espaço de competição entre instituições.

Naturalmente, isto não significa que o crédito seja concedido sem critérios (nem deve ser). Mas mostra como as condições financeiras do sistema bancário podem alterar profundamente a relação entre poupança, financiamento e crescimento económico.

Num país onde o crédito sempre desempenhou um papel central na economia, acompanhar este indicador é também acompanhar a forma como o sistema financeiro evolui e se adapta. Hoje, ao contrário do passado, o desafio já não é encontrar financiamento. É saber utilizá-lo de forma prudente e produtiva.