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(A) :: Gritar no estádio, calar na política 

Gritar no estádio, calar na política 

Quando uma sociedade demonstra mais capacidade de indignação perante um resultado desportivo do  que perante o rumo político do país, algo está profundamente desalinhado. 

Miguel Bento Alves
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Poucos notam, alguns pensam, mas quase todos o fazemos, pelo menos quem gosta de futebol. Mas que sensação é esta que às vezes nos atravessa? Que desconforto é este que raramente se verbaliza?

Há uma pergunta incómoda que quase nunca se coloca em Portugal: porque é que nós, portugueses, somos  infinitamente mais exigentes com o futebol do que com a política?

Nos estádios, contestamos de forma imediata, visceral e muitas vezes brutal. Um mau resultado provoca,  entre os adeptos mais fervorosos, insultos, protestos, pressões públicas, confrontos e, em casos extremos,  violência física. No futebol, perder é um contratempo mas é também sentido como uma ofensa coletiva às  massas associativas que exige responsabilização imediata.

Na política portuguesa, pelo contrário, a reação popular é de natureza completamente diferente. Escândalos  sucedem-se, reformas são adiadas e decisões políticas com impacto profundo na vida coletiva raramente  geram níveis comparáveis de indignação pública.

É curioso, mas acima de tudo revelador.

O futebol tornou-se, em muitos aspetos, o espaço onde os portugueses descarregam a exigência e a revolta  que raramente manifestam na esfera política. Aquilo que deveria ser participação democrática é  frequentemente substituído “megafones de bancada”.

Num estádio, o adepto sente que a sua voz conta. Pode protestar, pressionar, exigir resultados. A política,  pelo contrário, é muitas vezes percecionada como distante e inacessível. Paradoxalmente, muitos cidadãos  parecem sentir que o desempenho do seu clube afeta mais diretamente a sua vida emocional do que o  desempenho do governo que decide políticas fiscais, sociais e económicas.

Convém dizer algo desde já, para evitar leituras fáceis.

Escrevo isto também como adepto de futebol. Vibro com o meu clube, celebro vitórias e sofro derrotas. Como  milhões de portugueses, já gritei golos e insultei o árbitro. E quando clubes portugueses jogam nas  competições europeias, coloco Portugal acima de qualquer rivalidade clubística.

Digo isto precisamente porque a crítica não vem de fora da cultura futebolística portuguesa vem de dentro  dela.

É talvez por isso que o contraste se torna ainda mais evidente.

Um dos episódios mais chocantes do futebol português foi o ataque à academia do Sporting em 2018. Cerca  de cinquenta adeptos encapuzados invadiram as instalações em Alcochete e agrediram os jogadores e  membros da equipa técnica. A motivação era simples: maus resultados desportivos.

Poucos anos antes, Portugal tinha assistido ao colapso do Banco Espírito Santo, um evento que destruiu  poupanças de milhares de cidadãos e abalou profundamente a economia nacional.

A reação coletiva aos dois acontecimentos revela uma ironia desconfortável. A violência organizada surgiu  em resposta a derrotas desportivas; a resignação dominou perante um colapso financeiro histórico.

A mesma lógica pode ser observada no plano político. Veja-se que o processo que envolve José Sócrates, um  dos maiores escândalos políticos da democracia portuguesa, gerou horas intermináveis de comentário  televisivo, mas mobilização popular muito aquém.

Portugal protesta no estádio. Na política, raramente ultrapassa o comentário indignado.

Este fenómeno não pode ser explicado apenas pela paixão futebolística que é cultural e identitária, sendo um  fator de orgulho nacional . Trata-se de algo mais profundo: um problema de cultura cívica e política.

O futebol português é frequentemente marcado por um fanatismo tribal que transforma rivalidades  desportivas em conflitos identitários. Claques entram em confronto, adeptos insultam-se e, por vezes, a  violência emerge por motivos que, no plano racional, não têm qualquer impacto real na vida dos envolvidos.

Sou da opinião que por vezes, o ambiente em torno do futebol particularmente em Portugal aproxima-se  daquilo que Thomas Hobbes descreveu como um estado de natureza: ausência de normas efetivas, domínio  da força e conflito permanente entre grupos rivais.

O paradoxo é evidente: a intensidade emocional reservada para causas simbólicas raramente é mobilizada  para causas estruturais.

Mais preocupante ainda é que esta lógica tribal não se limita ao futebol. Tem progressivamente contaminado  a própria política portuguesa.

Hoje, muitos cidadãos defendem partidos e líderes com a mesma irracionalidade com que defendem clubes.  O debate político transforma-se em rivalidade identitária. O líder substitui a ideia. A lealdade tribal substitui  o pensamento crítico.

A pergunta deixa de ser se uma proposta é boa ou má. A única questão relevante passa a ser de que lado vem. Esta “futebolização” da política empobrece a democracia.

Este fenómeno não está desligado da história portuguesa. Sou da opinião de que décadas de autoritarismo  durante o Estado Novo ajudaram a sedimentar uma cultura política marcada pelo conformismo e pela  desconfiança em relação à participação política por outras vias.

Esta herança ainda é visível. A literacia política permanece frágil e a exigência democrática continua  irregular.

Entretanto, o futebol ocupa um espaço emocional gigantesco na vida coletiva portuguesa.

E convém repetir: o futebol não é o problema. Reitero novamente que o futebol é uma parte legítima da  identidade cultural do país. Cria comunidade, gera emoções partilhadas e produz momentos de alegria  coletiva que poucas outras instituições conseguem proporcionar.

Mas quando uma sociedade demonstra mais capacidade de indignação perante um resultado desportivo do  que perante o rumo político do país, algo está profundamente desalinhado.

Somos, em certa medida, um país onde um jogador que falha um golo pode ser insultado durante semanas,  mas um governante que falha o país raramente enfrenta uma indignação comparável.

No futebol exige-se excelência absoluta. Na política aceita-se mediocridade crónica.

Talvez o problema de Portugal não seja a paixão pelo futebol.

Pode ser que seja a facilidade com que um povo exige títulos aos seus clubes, mas raramente exige resultados  aos seus governantes.

Enquanto gritarmos mais alto por um golo falhado do que por um país mal governado, continuaremos a ter  estádios exigentes e uma democracia extraordinariamente paciente.

E talvez seja precisamente aí que começa o verdadeiro problema.