Nos dias 4 e 5 de março de 2026, a Assembleia da República foi palco de dois momentos de forte tensão entre Teresa Morais, vice-presidente da Assembleia da República, em exercício de funções de presidente, e a bancada do Chega. O primeiro ocorreu durante o debate quinzenal com o primeiro-ministro, quando André Ventura interrompeu a sessão para acusar Teresa Morais de tratar o partido de forma desigual e afirmar que não deveria estar a presidir aos trabalhos.
A tensão agravou-se no dia seguinte, num debate agendado pelo Chega sobre racismo. O líder do partido acusou algumas deputadas de partidos de esquerda de ocultarem agressões e violações de mulheres portuguesas por cidadãos estrangeiros. Teresa Morais respondeu que nenhuma mulher naquela Câmara, “à esquerda ou à direita”, quer esconder violadores ou ignorar violações. André Ventura reagiu, classificando-a como “uma vergonha para as funções que exerce no Parlamento” e afirmando que ela deixara de os representar. Em protesto, os deputados do Chega presentes abandonaram o hemiciclo.
Estes acontecimentos oferecem matéria-prima ideal para vídeos virais otimizados para smartphones. Os deputados e os partidos publicam cada vez mais nas redes sociais excertos das suas intervenções parlamentares. Tal como observou Robin Richardot no Le Monde, o método tende a repetir-se: uma breve intervenção que nunca excede dois minutos, algumas edições para remover hesitações, legendas para quem vê o vídeo sem som, música épica de fundo para quem o vê com som e algumas frases cativantes. Para alguns políticos, a intervenção parlamentar parece cada vez mais pensada não para o debate em si, mas para a produção de vídeos curtos, musculados e polarizadores, destinados a circular nas redes sociais.
Os deputados são pagos pelos contribuintes e o trabalho parlamentar é de enorme importância para a sociedade. A Assembleia da República não pode ser reduzida a uma arena de confronto permanente, nem a um palco utilizado para produzir vídeos virais e alimentar a lógica das redes sociais. Recorre-se frequentemente à estratégia da “indignação moral”. Esta é uma emoção poderosa que leva as pessoas a humilhar e punir aqueles que percebem como transgressores. Cria-se um incidente politicamente inflamado e convida-se o público a tomar partido imediato entre campos opostos. Este mecanismo amplifica a divulgação do acontecimento. Mas a superficialidade do conteúdo substitui a reflexão pela reação, empobrece o debate político e atrasa o desenvolvimento do país.
Se é verdade que pode haver alguma picardia no debate político, também é verdade que a agressividade verbal é contraproducente quando perde o sentido dos limites. Sem contenção na linguagem, o Parlamento deixa de ser um lugar de discussão política para se tornar num espaço de tensão permanente. O resultado é que os extremos se tornam mais ruidosos e intolerantes, transformados em autênticas claques futebolísticas, em que a exposição ao outro grupo político não modera, antes intensifica a hostilidade identitária.
Sem respeito recíproco, sem capacidade de escuta e com perda de autodomínio, os deputados arriscam afastar o Parlamento da realidade e das preocupações concretas do país. Cada vez mais, o discurso político parece ser construído para a lógica das plataformas digitais e menos para o país real. Esta forma de fazer política pode captar a atenção e ter visibilidade, mas não tem futuro. Com o tempo, instala-se uma verdadeira “fadiga da indignação” e os cidadãos reagirão ao desgaste de uma política reduzida ao espetáculo do conflito permanente.
As redes sociais podem ampliar a eficácia parlamentar quando a intervenção tem autenticidade, solidez, clareza e enraizamento em problemas reais vividos pelos cidadãos. Contudo, é legítimo levantar algumas suspeitas de excesso de teatralização da vida parlamentar quando o discurso deixa de ser pensado para persuadir ou deliberar e passa a ser produzido quase exclusivamente para funcionar como elemento viral.
No final do ano, quase ninguém se recorda dos vários vídeos curtos de incidentes parlamentares que viu nas redes sociais. Mas a maioria percebe como está o país e quem, no Parlamento, procurou responder às suas preocupações reais. No fim, fica a memória de quem serviu as instituições e de quem apenas se serviu delas para produzir mais um vídeo para o TikTok.