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A autoria do bombardeamento de uma escola para raparigas no sul do Irão, no primeiro dia dos ataques dos EUA e de Israel contra o regime dos aiatolas, é uma das grandes questões em aberto deste conflito — mas poderá ficar sem resposta, uma vez que, no âmbito das reformas que têm sido levadas a cabo para favorecer a “letalidade” das forças norte-americanas, o Pentágono reduziu consideravelmente os gabinetes de investigação que seriam responsáveis por conduzir um inquérito ao caso.
A escola feminina de Minab foi atingida por um míssil logo nas primeiras horas dos ataques norte-americanos e israelitas contra o Irão. Morreram pelo menos 175 pessoas, na sua maioria crianças, e logo desde o início se instalou a dúvida: quem tinha disparado aquele míssil?
O secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, apressou-se a rejeitar à partida a responsabilidade das forças norte-americanas, admitindo, no entanto, uma investigação. “É claro que nunca temos civis como alvos, mas estamos a investigar”, disse Hegseth. O Presidente do país, Donald Trump, foi mais longe, dizendo que o ataque “foi feito pelo Irão” e que os iranianos “são muito pouco precisos” com as munições.
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Alguns dias depois do ataque, começou a circular a notícia de que os investigadores militares norte-americanos acreditavam que podiam ter sido os EUA os autores do ataque. A divulgação de um vídeo do momento, dias mais tarde, veio dar força a essa tese, uma vez que é possível ver que foi um míssil Tomahawk a atingir a escola — um armamento de fabrico norte-americano, que também é detido pelo Reino Unido e pela Austrália. Confrontado com esta possibilidade, Donald Trump disse que vários países têm o Tomahawk, mas admitiu que aceitaria qualquer que fosse a conclusão do inquérito.
Porém, como noticia agora o Politico, o Centro de Excelência para a Proteção de Civis, organismo do Pentágono dedicado à limitação do risco das operações militares para os civis, foi uma das principais vítimas dos cortes levados a cabo no Pentágono por Pete Hegseth, apostado em reduzir os gastos em tudo o que não contribua para o objetivo de tornar as forças armadas norte-americanas mais letais. Segundo o Politico, este departamento de cerca de 200 funcionários foi reduzido em cerca de 90%. No Comando Central, que supervisiona a atuação militar norte-americana no Médio Oriente, a equipa responsável pelos riscos sobre civis era composta por dez elementos — e ficou reduzida a um.
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De acordo com o mesmo jornal, Hegseth está tecnicamente impedido de encerrar os gabinetes, por terem sido aprovados pelo Congresso, mas tornou-os praticamente inoperacionais.
Ao Politico, o antigo responsável por este departamento, Wes Bryant, considerou que esta realidade mostra a falta de planeamento da operação norte-americana no Médio Oriente. “O facto de o nosso secretário da Defesa e de o nosso comandante do Comando Central não nos conseguirem realmente dizer se largaram ou não uma bomba nesta localização é incrivelmente inaceitável”, disse Bryant. “Aponta ainda mais para a imprudência disto, em todo o planeamento e execução desta campanha, para o facto de eles não fazerem a mínima ideia.”
O jornal recorda como Hegseth tem sistematicamente desconsiderado as regras de empenho militar, acusando-as de serem “politicamente corretas” e de restringirem a ação dos soldados norte-americanos. “Estamos a desatar as mãos dos nossos soldados para intimidar, desmoralizar, caçar e matar os inimigos do nosso país”, disse na semana passada o líder do Pentágono, dizendo que no lugar de regras “politicamente corretas” há agora “senso comum, máxima letalidade e autoridade para os soldados”.
Várias fontes ouvidas pelo Politico lamentam que a atual administração norte-americana esteja a desvalorizar a minimização de riscos para os civis em benefício da letalidade das tropas.