Olivier Assayas já assinou alguns filmes e telefilmes políticos, caso do excelente Carlos (2010) ou de Rede de Espiões (2019), pelo que não é de estranhar vê-lo realizar O Mago do Kremlin, uma adaptação do best-seller do escritor e consultor político italo-suíço Giuliano da Empoli, publicado em 2022, pouco antes da guerra na Ucrânia. Assayas também escreveu o argumento do filme, juntamente com o escritor e realizador Emmanuel Carrère, conhecedor da Rússia e da sua cultura (e que aparece brevemente pouco depois do início da fita, num intelectual francês que fala com jovens artistas numa louca festa underground em Moscovo), e filho da ilustríssima historiadora Hélène Carrère d’Encausse, especialista do mundo russo e eslavo.
[Veja o “trailer” de “O Mago do Kremlin”:]
https://www.youtube.com/watch?v=IIxeKyqYsP4
O enredo abrange os últimos 30 da vida na Rússia, desde o colapso do regime comunista até à era de Vladimir Putin (Jude Law). O filme é narrado em flashback por Vadim Baranov (Paul Dano), um ex-conselheiro e nome de confiança absoluta de Putin (a personagem é uma versão ficcionada do homem de negócios, ideólogo e político Vladislav Sourkov), que em 2019 recebe na sua datcha, no pino do Inverno, um jornalista e investigador americano, Rowland (Jeffrey Wright), que escreveu um artigo sobre ele na revista Foreign Affairs. E que, como ele, é um admirador do escritor Evgeny Zamyatin, autor de Nós (1921), uma distopia de ficção científica anticomunista.
Neto de um aristocrata anti-bolchevista e filho de um dignitário cultural soviético, Baranov conta ao visitante como é que ele, um jovem encenador de teatro que só se interessava por boémia, poesia e mulheres nos anos 90 da Perestroika e do governo de Boris Ieltsine, quando a Rússia vivia num eufórico ambiente de liberdade mas ameaçava cair no caos político e económico, passou depois a dirigir uma televisão do oligarca Boris Berezovsky e foi o braço direito deste. E se tornou a seguir na eminência parda de Putin e no homem mais influente do Kremlin, contribuindo para o fim da era dos oligarcas (sacrificando até Berezovsky), a anulação dos “liberais” e a consolidação do novo poder autocrático na Rússia. Até se afastar da política e, impedido de entrar nos EUA e na Europa, ir refugiar-se na sua datcha forrada a livros, com a filha pequena.
[Veja uma entrevista com Olivier Assayas:]
https://www.youtube.com/watch?v=vVmtnXyl3C4
São 30 anos de história recente da Rússia que desfilam velozmente ante os nossos olhos, vistos de dentro do poder. Os livres, perigosos e desgovernados anos 90, com um Ieltsine cada vez mais doente e decadente à frente do país; o advento dos oligarcas e a forma como enriqueceram com o colapso e o desmantelamento da economia soviética e impuseram um ambiente de violência omnipresente; a ocidentalização do país pelo pior lado, o da massificação consumista e do desprezo pela identidade russa; o aparecimento de Putin, “inventado” por Berezovsky e alguns próximos, e que haveria de os anular e afastar, instalando-se incontestada e solidamente no Kremlin, como primeiro-ministro e depois como presidente, com dimensão de “novo Czar”; a guerra na Chechénia, o desastre do Kursk, a Revolução Laranja na Ucrânia e as Olimpíadas de Inverno em Sochi. Figuras como o campeão de xadrez Garry Kasparov ou o escritor e político Evgeny Limonov, fundador do Partido Nacional-Bolchevista, surgem também de passagem.
No meio disto, Baranov, ao mesmo tempo actor e observador dos acontecimentos, “um artista para os políticos, um político para os artistas”, como o define um adversário, vai subindo cada vez mais alto. Movimenta-se discreta e naturalmente dentro e fora dos círculos do poder, concebe reality shows estupidificantes mas de sucesso, monta campanhas eleitorais (a derradeira de Ieltsine atinge cumes caricatos), ajuda Putin a chegar ao Kremlin e teoriza o “poder vertical”, funda um partido patriótico que junta os movimentos e as figuras mais díspares da sociedade russa, orienta o uso da Net e das redes sociais contra um Ocidente que hostiliza e demoniza cada vez mais a “nova Rússia”, ameaça, influencia, puxa cordelinhos, aconselha. Ele é um sub-Maquiavel multiusos e omnipresente, o guru, propagandista e confidente do autocrata.
[Veja uma entrevista com Jude Law e Paul Dano:]
https://www.youtube.com/watch?v=JrJ247zLjqI
Perante um livro com a forma de uma conversa entre duas personagens ficcionais (mesmo que uma delas seja decalcada de uma figura real) e que alterna entre diálogos e monólogos, Olivier Assayas optou por uma realização serviçal daquelas e dos acontecimentos narrados. E há, em O Mago do Kremlin (que foi rodado na Letónia, por ser o país que, para o realizador, melhor passava visualmente pela Rússia), alguma simplificação (o círculo íntimo de Putin não se resumia a Baranov, e a organização interna do Kremlin, com os seus vários departamentos, nunca é detalhada) e compressão temporal e de caracterização das personagens, e uma certa estereotipação da realidade russa, de alguns dos episódios apresentados e da própria figura de Vladimir Putin, que vão ao encontro das ideias feitas de boa parte do público ocidental sobre eles.
Quando o livro de Giuliano da Empoli saiu, houve críticos e politólogos, jornalistas russos da oposição a Putin, e analistas locais ou de origem russa instalados no Ocidente, que atacaram o que classificaram como a “ambiguidade incómoda” da obra quanto ao retrato que faz do presidente e da sua ascensão ao poder. E que pode ser sintetizada num longo artigo que a politóloga, historiadora e professora Cécile Vaissié publicou no site ‘deskrussie’ (desk-russie.eu). Entre outras críticas, ela reprova ao livro ser “uma caixa de ressonância” sem contraditório do discurso de Putin e dos putinistas, e “apresentar o presidente russo como um herói positivo, decerto intransigente, mas querendo o bem do seu país e do seu povo”. Sem o desejar, da Empoli teria assim contribuído “para reforçar a propaganda do Kremlin”.
[Veja uma entrevista com Giuliano da Empoli:]
https://www.youtube.com/watch?v=i3DZh3_FJI4
Este referida e involuntária “ambiguidade” permanece no filme de Olivier Assayas, que respeita o registo do livro, em que Baranov e Rowland esgrimam opiniões e pontos de vista do princípio ao fim (por exemplo, enquanto o primeiro critica as Pussy Riot e faz notar que os seus protestos radicais acabaram por ser úteis ao regime, o segundo contrapõe que no Ocidente elas são vistas como “heroínas”). E tal como Jude Law o personifica (com contenção, sugerindo os traços de personalidade que o definem e fugindo à mímica de maneirismos e à caricatura fácil), o Vladimir Putin de O Mago do Kremlin surge como um homem frio, implacável e temível, mas também um patriota convicto, um líder nato e um estadista de peso, um verdadeiro animal político. E cujo referente histórico é muito menos Estaline do que o czar Pedro, o Grande.
[Veja uma sequência de “O Mago do Kremlin”:]
https://www.youtube.com/watch?v=2L-TqcZQlhc
Face ao Putin inflexível e compenetrado de Jude Law (só lhe faltou trabalhar mais a voz e dar um toque do sentido de humor cínico da personagem), Paul Dano compõe um Baranov imperturbável, com um forte traço melancólico e capacidade de recuo suficiente para pesar e analisar tudo aquilo que faz e quem o rodeia, que nunca levanta a voz e é alheio à cólera, mas sabe deixar uma leve sugestão de ameaça no ar quando necessário. Já Alicia Vikander é subutilizada no papel de Ksenia, a grande paixão de Baranov e mãe da sua filha, e pelo menos até certa altura, símbolo da liberdade de crítica e contestação, e da consciência moral de que este abdicou (e ele está bem ciente disso) ao escolher o lado do poder.
A fita tem um desenlace brusco e dissonante. Como um músico que falha a última nota da peça que estava a interpretar corretamente, Olivier Assayas dá uma fífia mesmo no fecho da história, com um remate que não está no livro e sabe a moralismo de última hora. Mas que é mais próprio de um medíocre thriller de espionagem do que de um filme ambicioso como O Mago do Kremlin.