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Portas avisa: "A melhor coisa que Portugal pode fazer é preservar a sua estabilidade"

Antigo líder do CDS foi convidado nas jornadas do PSD e deixou recados sobre temas quentes, como produtividade e salários. Defendeu "constância" nas políticas, que devem ser de médio e longo prazo.

Mariana Lima Cunha
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São raros os momentos em que Paulo Portas fala de política nacional, o que só aguça a curiosidade de cada vez que decide fazê-lo, abrindo exceções a espaços largos. Ora esta terça-feira, deputados e ministros juntaram-se nas jornadas parlamentares do PSD para ouvirem o convidado fazer uma longa análise sobre a situação internacional, para deixar no final um recado — e um aviso — rápido e concreto sobre a política portuguesa: Portugal deve priorizar a sua “estabilidade” interna.

“O mundo está muito volátil, perigoso, às vezes irracional”, avisou Portas. “A melhor coisa que Portugal pode fazer em nome dos portugueses e dos seus interesses é preservar a sua estabilidade, quando à nossa volta há tanta instabilidade”.

Na plateia — ou, no caso, nas mesas redondas de uma quinta de casamentos em Caminha — ouvia-o boa parte do Governo (seis ministros e o próprio Luís Montenegro, que fará uma intervenção nas jornadas esta quarta-feira) e até os deputados do CDS, numa mistura que levou Hugo Soares a destacar o “espírito coligacionista” que se vivia na sala. Portas estava, aliás, anunciado como “ex-vice primeiro-ministro”, uma referência aos tempos do Governo de Pedro Passos Coelho, no programa das jornadas.

E foi a essa plateia que Portas falou da “racionalidade” que nem sempre existe hoje em dia nas relações internacionais, assim como da UE, “grande potência geoeconómica” mas que, “em grande medida por responsabilidade própria”, já não é uma grande potência geopolítica. Isto porque, explicou, o velho continente tem dificuldade em definir uma agenda “essencial” e impo-la, focando-se em assuntoes laterais em vez de nos grandes problemas: a Defesa, a demografia e a produtividade, que são “muito difíceis de resolver na democracia digital”, sendo preciso compromisso político e constância no caminho.

Portas falava da Europa, mas o recado era também sobre a importância da estabilidade e da “constância”, como defenderia para Portugal. “Há tanta polarização que há pouca disposição para o compromisso”, explicou. A Europa e os EUA “têm dificuldade em fazer políticas de médio e longo prazo. A Defesa, a produtividade e o crescimento não se mudam por tweet ou post, mas com compromissos com coragem”.

E quis deixar algumas ideias para a Europa se concentrar “no que só depende de si”, para evitar o seu próprio declínio, já que “pode acontecer na geoeconomia o que já aconteceu na geopolítica”. Na demografia, frisou, este é o continente mais velho do mundo, pelo que é preciso políticas de família, de imigração, de mercado laboral — assunto tão discutido agora em Portugal — com “constância”. Mais uma vez, a estabilidade: “Não é vêm uns tiram isto, vêm outros tiram aquilo…”, lamentou.

Depois, a Europa tem um “gap de produtividade“, com Portugal e Espanha 25 pontos abaixo da média europeia. E mais um problema que atinge o país em concreto — e que se tem discutido à boleia da reforma laboral: o salário mínimo está demasiado próximo do médio; é preciso “melhorar a credibilidade da nossa mobilidade social”; e a única forma sustentável de o fazer “é aumentar a produtividade”.

Por fim, a necessidade de inovar: é preciso fazer uma “aliança férrea entre setor privado e setor público”, seguindo o exemplo dos “cinco heróis da inovação na Europa”: Suécia, Dinamarca, Finlândia, Áustria e Alemanha. “Se não acelerarmos o passo em matéria de inteligência artificial ficaremos para trás”, avisou Portas. A plateia ouviu com atenção.

O antigo líder do CDS aproveitou ainda para deixar avisos sobre o cuidado que é preciso ter com “antigos impérios”, como o Irão, que está a fazer uma escalada do atual conflito “perigosa”, seguindo uma estratégia “muito radical e de eficácia duvidosa”: o máximo dano no máximo de países aliados ou próximos dos EUA para porem termo à guerra rapidamente. A instabilidade nos mercados é muito grande, com esta primeira semana a mostrar “que a guerra, se se prolongar muito, prejudica todos”. O impacto geoeconómico foi tão grande nos primeiros dias, constatou, que isso é um grande incentivo a que não se arraste.