Não. Não estamos em Junho de 1914 quando, umas semanas antes da troca de declarações de guerra, ninguém acreditava que um conflito entre as grandes potências viria a ser possível. Não nos podemos esquecer de que foi com essa displicência sobre os possíveis efeitos de alguns acertos de contas armados – supostamente necessários para restabelecer a ordem das coisas – que as grandes potências se lançaram na destruição mútua. E, ao fazê-lo, acabam com o período de maior crescimento económico e de acumulação de riqueza que a Humanidade havia conhecido até aí. Sonâmbulos é como os historiadores caracterizam os actores políticos de 1914.
Recentemente, Bill Emmott, famoso editor do The Economist, escreveu no Financial Times que o Kaiser Wilhelm, o Czar Nicholas e o Imperador Franz Joseph estão hoje bem representados por Xi Jinping, Vladimir Putin e Donald Trump. Bill Emmott citava depois Lawrence Freedman quando este chamava a atenção para que: ”Há uma regra geral que se aplica às operações militares, em que as consequências não previstas acabam quase sempre por ultrapassar em impacto os objectivos que justificaram o seu início”.
A guerra no Irão ainda está no início e não é possível prever como poderá vir a ser o seu desfecho. O Irão dos clérigos pode, sim, capitular, como adianta Trump, ultrapassado que está o modelo venezuelano, que ele imaginava poder reproduzir. Mas, apesar de ser uma nação dividida, Trump desvaloriza a força do orgulho que o Irão tem nos seus milhares de anos de História e de imperiais glórias. É verdade que o grande Império Persa já foi vencido no passado longínquo pelo jovem Alexandre. Só que, ao contrário de Trump, Alexandre tinha sido formado pela elite dos sábios e filósofos gregos e a sua herança cultural proporcionou a reorganização política e administrativa de toda uma vastíssima região. E como dizia Philip Roth, “Nunca tivemos ninguém tão pobre no plano humano como Trump. Ignorante quanto ao governo, e quanto à História, Ciência, Filosofia, Arte e incapaz de exprimir ou de reconhecer a mínima subtileza ou a mínima nuance, totalmente desprovido de decência e unicamente capaz de manipular um vocabulário de 77 palavras.”
Trump pode ser tudo isto, mas é possível que o Regime Iraniano venha mesmo a cair. E se este regime – que há mais de quatro décadas violenta e assassina o seu povo e condiciona a riqueza à luta contra a exterminação de Israel e daqueles que, no mundo inteiro, considera como infiéis – cair, o mundo virará uma das páginas mais tenebrosas dos tempos modernos. Esse é claramente o desígnio assumido por Israel, embora para Trump um “deal” que lhe acrescente uns milhões de barris de petróleo seja já recompensa suficiente. Só que, aplicando-se a regra geral enunciada por Lawrence Freedman, os resultados inesperados podem muito bem vir a tornar irreconhecíveis as aspirações existenciais de Israel e as financeiras de Trump.
O que não podemos ignorar é que com os poucos dias que dura esta guerra, um novelo como o que incendiou o mundo em 1914 encontra-se já em pleno movimento. De facto:
– O petróleo e o gás que regularizam o mercado global de energia e alimentam a indústria asiática – que por sua vez abastece todo o mundo – estão parados em Ormuz.
– A parte rica do mundo muçulmano, que usufrui da renda que extrai do seu subsolo e que aspira a reforçar o seu lugar à mesa dos grandes, arrisca-se a entrar em guerra com os seus irmãos de fé.
– A Rússia de Putin, cuja existência económica depende do petróleo e cuja substância política depende do resultado da Guerra na Ucrânia, não vai poder manter-se eternamente fora de jogo.
– A China de Xi Jinping, cujo actual esplendor económico e tecnológico ultrapassa todo o poderio do seu passado imperial milenar, pode não ficar imune à vertigem de autoridade como aconteceu ao Kaiser Wilhelm em 1914.
Aconteça o que acontecer, certo é que as questões em causa – nomeadamente as que foram atrás referidas – vão acarretar importantes custos colaterais. E, tal como em 1914, caso a guerra se venha a eternizar, a destruição global será profunda. Os sonâmbulos parecem estar, neste momento, mais uma vez no controle das operações.
E a Europa? Continua impotente e dividida, assistindo envergonhada ao apocalipse, ou encontra líderes e energias colectivas que lhe permitam capitalizar soluções para o seu futuro, como aconteceu com os Estados Unidos com a Primeira Guerra Mundial?