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O Eixo do Atlântico Sul: Venezuela, Mercosul e o Papel Estratégico da Península Ibérica

No centro da estratégia, liderada pelos Estados Unidos, de criar um novo continente americano com ênfase na América Latina, Portugal e Espanha devem assumir o protagonismo.

Carlos Schulz Nunes
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O tabuleiro geopolítico global atravessa uma das suas recomposições das últimas décadas. A convergência de uma crise energética aguda no Médio Oriente, a reconfiguração da política externa dos Estados Unidos sob a administração Trump com a forte pressão para unir o Continente americano em especial os países sul americanos, e, a iminente ratificação do acordo União Europeia-Mercosul coloca a Venezuela e, por extensão, a Península Ibérica (Portugal e Espanha), numa posição de centralidade estratégica inquestionável.

A Crise no Médio Oriente e o Paradigma Energético, os recentes ataques às infraestruturas petrolíferas e refinarias no Irão, bem como a instabilidade no Estreito de Ormuz, não são apenas eventos táticos, representam uma disrupção estrutural no fornecimento global de energia, hidrocarbonetos. Com o mercado sob a ameaça de preços de racionamento e a atingir valores elevados, a segurança energética mundial exige alternativas robustas e geograficamente seguras; e a China, a Rússia e a India são os primeiros a sofrer, e com um Irão anulado.

É nesta incerteza que a Venezuela reafirma a sua importância. Detentora das maiores reservas de crude do planeta, a nação venezuelana não é apenas uma alternativa, mas o fiel da balança em especial para o Estados Unidos e os países da região.

A recente aproximação de Washington, materializada no diálogo com as nações da América Latina, sinaliza uma realpolitik pragmática: a estabilidade do mercado energético ocidental depende da capacidade de escoamento e refinação do petróleo venezuelano.

Por outro lado, existe um Ressurgimento Económico e uma Janela de Mercado, MERCOSUL.

As projeções macroeconómicas para a Venezuela em 2026 apontam para um crescimento extraordinário, com estimativas de dois dígitos, impulsionado pela reativação do setor de hidrocarbonetos (petróleo e gás), também mineral e pela reabilitação de infraestruturas críticas, como os portos estratégicos e a reconstrução de toda a rede elétrica nacional, fundamental para a indústria petroleira. Este ciclo expansivo coincide com o que considero ser o momento mais oportuno para a consolidação do acordo, UE-Mercosul.

A importância deste acordo transcende o comércio de bens; trata-se de segurança económica. Para a Europa, garantir o acesso a um mercado de 780 milhões de pessoas, onde metade fala português e a outra metade castelhano, é uma das regiões mais ricas em recursos naturais e energia é um imperativo de sobrevivência face ao unilateralismo crescente e às barreiras tarifárias globais.

No meu ponto de vista, Portugal e Espanha são dentro da União Europeia dos países que mais podem beneficiar, uma vez que são A Ponte Natural.

No centro desta estratégia, liderada pelos Estados Unidos, de criar um novo continente americano com ênfase na América Latina, Portugal e Espanha devem assumir o protagonismo que a história e a geografia lhes conferem. Como porta atlântica do sul da Europa, a Península Ibérica possui o “know-how” diplomático e comercial para atuar como o elo de ligação entre Bruxelas e o eixo Caracas, Bogotá, Brasília, Buenos Aires, e as restantes capitais do continente sul americano.

Para o empresariado ibérico, não só no sector da agricultura e alimentação mas também em particular para aqueles que operam no comércio internacional e no setor da energia, infraestruturas, tecnologias, logísticas, entre muitas outras áreas, a entrada efetiva no mercado do Mercosul permitirá uma “bonita” expansão das nossas empresas portuguesas e espanholas que detêm competências de excelência e sabem trabalhar diplomaticamente nestas economias transatlânticas.

Em conclusão, não estamos apenas perante uma oportunidade comercial, mas sim perante a necessidade de desenhar uma nova arquitetura de cooperação. A Venezuela (onde temos uma comunidade lusófona de aproximadamente 500 mil portugueses), com o seu potencial de crescimento sustentado e reservas estratégicas, é o motor deste novo continente americano que desperta. Portugal e Espanha, ao impulsionarem o acordo Mercosul, não estarão apenas a defender os seus interesses económicos, mas a garantir que a Europa permanece relevante num mundo onde a energia e a proximidade regional voltaram a ser as moedas mais valiosas da política internacional.

Registos interessantes:

-Presença Diplomática e Consular – Existem Embaixadas nas capitais dos países estrategicamente ou demograficamente mais relevantes (como EUA, Brasil, Colômbia, Argentina, México, Venezuela, etc.). Em determinadas Embaixadas, podem ser responsáveis pelas relações diplomáticas com vários países vizinhos onde não há presença física permanente.

-Rede Consular – A rede é complementada por Consulados-Gerais (focados nas grandes comunidades, como Caracas, São Paulo, Boston, etc.) e por uma vasta malha de Consulados Honorários.

-A Diáspora – mais de 2 milhões de pessoas com passaporte português no Continente Americano.

-Sul América – a presença demográfica portuguesa é dominada por três países históricos (Brasil, Venezuela e Argentina), com mais de 1 milhão de portugueses registados e um grande número de luso descentes.