Luis Montenegro enfrentou, no tempo que levamos de 2026, um comboio de meses horribilis. Janeiro trouxe o resultado miserável de Luís Marques Mendes, o candidato apoiado pelo PSD com investimento pessoal do presidente do PSD na campanha. Chegados a Fevereiro, vieram a ausência de reação às consequências da tempestade Kristin nas primeiras horas, as gaffes de comunicação, a demissão da Ministra da Administração Interna, as críticas públicas e regulares de Pedro Passos Coelho e a derrota da linha oficial na distrital de Braga e na concelhia de Espinho. Em Março, que nem sequer vai a meio, o Tribunal Constitucional rejeitou o recurso para impedir a divulgação de clientes da Spinumviva e sentem-se os primeiros efeitos da guerra, com um aumento brutal do custo dos combustíveis.
Perante isto, Luís Montenegro, sentindo a aproximação do abismo, deu um passo em frente e antecipou as diretas do PSD para Maio. Esta decisão, considerada uma jogada de mestre por alguns membros das claques organizadas e elogiada por vozes de esquerda que nunca votarão PSD, merece uma análise detalhada, que resumo em cinco pontos essenciais:
1.º: Parte de um erro de avaliação. O que Passos Coelho está a exigir a Montenegro é que cumpra a promessa de reformismo que apresentou ao país. O caminho desejado por Passos Coelho e o caminho prometido por Montenegro não são assim tão diferentes. O que difere é a vontade ou a capacidade de o percorrer. Isso significa que a legitimação que falta a Montenegro não se adquire em eleições internas. Adquirir-se-ia, fosse Montenegro capaz disso, com uma governação em linha com o que prometeu.
2.º: Revela uma enorme fragilidade. Com duas ou três intervenções públicas, Passos Coelho levou Montenegro a uma fuga em frente. Montenegro não foi sequer capaz de apresentar evidências de que foram feitas reformas ou de que tem intenção de fazê-las. Queres reformas? Toma lá eleições. Na Venezuela, quando Nicolás Maduro enfrentava dificuldades e perante a falta de soluções concretas, antecipava o Natal para Outubro. No PSD, luís Montenegro, incapaz de apresentar reformas feitas ou a concretizar, antecipou as diretas para Maio.
3.º: Torna pública e irreversível a fratura. Cortando com Passos Coelho, autoproclamado campeão do espírito reformista, Montenegro talvez não tenha percebido, mas converte-se imediatamente no porta-estandarte do seu contrário: um ás do taticismo e do conformismo. É uma estratégia brilhante de afunilamento de eleitorado. Montenegro é capaz de entender-se em algumas matérias com Ventura, o populista, e com Carneiro, o socialista. Não tem uma aversão insuperável ao que um e outro representam,. mMas não consegue encontrar uma ponte com Passos Coelho, reformista e figura maior do seu próprio partido. Parece óbvio em quem é que os eleitores que desejam reformas não devem votar numas próximas eleições.
4.º: Não resolve nada. Menos de 48 horas depois de ter anunciado a antecipação das diretas, Passos Coelho humilhou publicamente Montenegro. De um lado, a legitimidade de um percurso político. Do outro, a fragilidade de quem precisa de ir a eleições legitimar-se. Um a enredar-se em expedientes e artifícios. O outro a mandá-lo trabalhar. O que impedirá Passos Coelho de, umas horas depois de Montenegro obter um extraordinário resultado nas eleições internas de Maio, vir a público dizer o mesmo que tem dito, do alto da sua autoridade? E o que fará Montenegro nesse caso? Convoca outras diretas?
5.º: Permite estabelecer um padrão. Quando Montenegro se sente “apertado”, antecipa eleições. Não resolve, não muda, não melhora. Foi assim quando arrastou o país para as legislativas de Maio de 2025 na sequência do caso Spinumviva. É assim em resposta a Passos Coelho.
Tudo isto leva-nos a responder ao título deste artigo: qual é a pressa? A conclusão é clara: a pressa que leva a eleições antecipadas, legislativas ou diretas, não é a das reformas de que o país precisa com urgência. Montenegro não caiu no Parlamento por ousar mudar a economia, a segurança social ou a saúde. Caiu para se furtar ao escrutínio sobre os seus negócios. E Montenegro também não forçou diretas no PSD para pedir apoio interno reforçado para reformas a concretizar na legislatura. Antecipou-as com o objetivo único da autopreservação. Montenegro só arrisca, só tem coragem, só força a mão, quando é ele próprio que está em causa. Quando se trata do interesse do país, não há pressa. A pressa surge, apenas e só, quando decorre de uma lógica pura e dura de manutenção do poder pelo poder.