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Sánchez, a Europa e a Guerra

Lamento, mas Sánchez viu nesta guerra uma enorme oportunidade política e está a aproveitá-la. Quem não perceber isto não percebe nada do que se passa

Jorge Fernandes
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Começo este artigo com um conjunto de perguntas simples. Alguém acha que a actual guerra no Médio Oriente vai terminar bem? Alguém acha que, dos escombros deste conflito, vai emergir no Irão um regime mais respeitador dos direitos humanos, uma democracia remotamente funcional? Alguém acha que existe um plano em Washington para o que fazer depois da fase inicial a que estamos a assistir? As respostas a estas perguntas são fáceis. Em primeiro lugar, a memória das últimas décadas de intervenção Ocidental no Médio Oriente, do Afeganistão ao Iraque, passando pela Líbia, mostra as enormes dificuldades em realizar qualquer tipo de mudança de regime de forma eficaz. Todos nos lembrámos das imagens do Verão de 2021. 2.3 triliões de dólares depois, os Estados Unidos saíram humilhados de Cabul, entregando novamente o país aos Talibãs. Em segundo lugar, a administração Trump está notoriamente sem saber quais os passos seguintes na guerra com o Irão. A cacofonia dentro da administração é bem disso demonstrativa. Desde o início da guerra ouvimos toda a sorte de opiniões sobre os seus objectivos, a sua duração, a necessidade de ter homens no terreno. Não existe um plano coerente, o que dificulta uma tarefa que era, já de si, hercúlea.

A Europa está numa posição extremamente delicada. Trump tem utilizado fortemente a geoeconomia, um conceito popularizado por Edgar Luttwak depois da Guerra Fria para descrever uma abordagem às relações entre estados em que os interesses económicos são utilizados como mecanismo de pressão negocial, o que torna a vida da Europa difícil. A resposta da Europa à guerra do Irão é fortemente condicionada por dois aspectos. Em primeiro lugar, a Europa sabe que qualquer enfrentamento com Trump poderá ter consequências económicas profundamente negativas, começando, por exemplo, com a revisão dos termos da NATO ou das tarifas. Em segundo lugar, enquanto a ferida aberta na Ucrânia não for fechada, a Europa não tem qualquer margem de manobra para não anuir às decisões dos Estados Unidos. Diferentemente de 2003, quando o cisma europeu sobre o apoio ao Iraque criou aquilo que, hoje, visto à distância, parece uma crise menor, os Estados Unidos exigem total alinhamento dos seus aliados, sob pena de retaliação.

À luz de tudo isto, Pedro Sánchez está a revelar-se um político profundamente inteligente. Esqueçam a questão moral, a hipocrisia de deixar os Americanos utilizarem as bases espanholas apesar da retórica do presidente do governo. Sei bem que a popularidade de Sánchez em Portugal é pequena. Sinceramente, também não aprecio o estilo e espero que saia dos comandos da Moncloa o mais depressa possível. Todavia, subestimar a inteligência ou a capacidade política de um adversário é um erro recorrente em política. E, lamento, mas Sánchez viu nesta guerra uma enorme oportunidade política e está a aproveitá-la. Quem não perceber isto não percebe nada do que se passa.

Dificilmente Sánchez deixará de colher dividendos políticos do seu posicionamento quanto ao Irão. Em primeiro lugar, o óbvio: ao contrário de Portugal, Espanha é um país onde o sentimento anti-Americano é muito forte, inclusive em vastos segmentos da direita. Trump é profundamente impopular em todo o eleitorado e qualquer posição política que seja anti-Trump é bem acolhida. Em segundo lugar, a utilização do slogan “não à guerra” é uma piscadela de olho directa ao PSOE do início dos anos dois mil, quando este mesmo slogan foi utilizado pela oposição na luta contra Aznar e o seu apoio à Guerra do Iraque. Naturalmente, apesar de sabermos hoje que Madrid não foi escolhida pela Al-Quaeda como alvo pelo apoio de Aznar à guerra, na psique popular continua viva a ideia de ligação entre ambas as coisas. Para além disso, a utilização deste slogan dificulta ainda mais a vida a Feijóo porque é obrigado a rejeitar este slogan, popular junto do eleitorado, sob pena de ter o velho PP de Aznar contra ele.

Deixo para último a forma mais evidente como Sánchez ganhará politicamente com esta posição. Quando as consequências da guerra no Irão se começarem a sentir, seja com uma crise de refugiados ou, mais provavelmente, com uma nova crise inflacionária com o aumento brutal no custo de vida, Sánchez terá o argumento perfeito. Um conflito prolongado no Médio Oriente significa perturbações no fornecimento de petróleo e gás, com impacto directo nos preços da energia e nos bens de consumo. Significa pressão migratória sobre o flanco sul da Europa, com Espanha na primeira linha. Significa instabilidade financeira nos mercados, com efeitos que se farão sentir nas hipotecas, no crédito, no emprego. O cidadão comum não lê relatórios geopolíticos — sente a guerra no supermercado e na factura da luz. E quando isso acontecer, Sánchez estará ali, com o dedo apontado, a lembrar a todos que ele disse “não à guerra”.

Há ainda uma dimensão que não pode ser ignorada. Sánchez governa num contexto doméstico extraordinariamente difícil. Os escândalos sucedem-se: o caso da sua mulher, Begoña Gómez, investigada por tráfico de influências; o seu irmão David, com um lugar público criado à medida; o caso Koldo, que envolve figuras próximas do partido. Em condições normais, esta acumulação de escândalos seria suficiente para afundar qualquer governo. Não é por acaso que Sánchez tenta encontrar na guerra uma tábua de salvação. Nada como uma crise internacional para empurrar os problemas domésticos para as páginas interiores dos jornais, que o diga Trump que matou definitivamente o caso Epstein. A narrativa escreve-se sozinha: a direita apoiou uma guerra que empobreceu os espanhóis. Em política, este tipo de posicionamento tem um nome: seguro de vida. E Sánchez, ao que parece, tem um instinto apurado para o assinar no momento certo.