É a nova fórmula da estação política, e tem desfilado pelas discussões mais vanguardistas e sofisticadas da internet. Algumas almas descobriram a “direita woke” e passeiam-na como a um chapéu excêntrico pelos tapetes mais garbosos: a expressão contaminou as bocas por este mundo fora como uma espécie de papeira ao contrário – que em vez de se pegar pelo amor, se pega pela discórdia – e a ideia juntou-se ao pequeno dicionário tribal que hoje passa por pensamento.
Como todas as coisas recentes, difusas, e salpicadas de uma discussão ferventíssima, “direita woke” não quer ainda dizer grande coisa – ou melhor: quer dizer quase tudo, e isso é uma das suas grandes armas. Permite aos comentadores longos textos explicativos sobre algo que podem torcer da maneira que quiserem, escrevendo na verdade mais sobre as suas ideias e os seus fantasmas do que sobre presenças reais. Ainda assim, parece haver pela internet pelo menos três formas diferentes de usar a expressão.
A primeira é a mais simples e mais surpreendente. Surpreendente porque é extraordinário que pessoas adultas, depois de terem passado anos na escola primária (e a julgar pela inteligência que revelam com este uso, deve ter sido quase uma década a coser cotoveleiras no bibe), ainda achem desarmante ouvir uma versão maquilhada do “tu é que és!”. A direita fala de wokismo? Pois eles é que são wokes. E a direita assim emudece, destruída e desmoralizada de todo o seu ímpeto combativo. Trata-se da versão que julga que, por falar de um erro, mesmo que seja para combatê-lo, uma pessoa se enoda nesse erro. Trata-se de um modo de pensar de tal maneira afocinhado na discussão, que já perdeu o propósito da discussão. É ridículo, mas faz parte de qualquer discussão travada até às raias da loucura haver um ponto em que alguém julga que o banho de sangue já pinta toda a gente da mesma cor, e a virtude está em não entrar na discussão. Acontece que a discussão do wokismo é uma discussão forçada – somos forçados a tomar uma posição, mesmo que o tema não nos interesse, pelo que a ideia de que o wokismo é apenas a entrada no jogo das guerras culturais, independentemente do lado, apenas desculpabiliza o verdadeiro wokismo.
A segunda forma de usar a expressão é mais sofisticada, mais ainda assim conserva alguns problemas. Tem que ver com a redução da ideia de wokismo, não a um conjunto de ideias, mas a um conjunto de táticas. É uma ideia tipicamente americana, já responsável pela popularização da ideia de marxismo cultural, cujo sentido se percebe facilmente: a ideia de liberdade é uma das mais caras às pessoas e uma das que apela mais facilmente ao sentido moral comum; daí que seja atractivo reduzir os males do marxismo ao lado opressor da União Soviética (e, nos Estados Unidos, a ideia de marxismo tem de facto um peso histórico diferente daquele que tem na Europa, por se ter vivido, na América, a Guerra Fria com mais intensidade e com um sentido claro de confronto entre liberdade e opressão), ou do wokismo ao policiamento e a uma espécie de ultra-ortodoxia, sem interessar o objecto desse policiamento. Nesse sentido, a direita também podia de facto ser woke; pôr os óculos na ponta do nariz para encontrar pontos de vista demasiado progressistas nas redacções dos seus asseclas, vigiar as posições conservadoras dos políticos e buzinar quando farejasse socialismo, o que fosse; isto, no entanto, não basta para ser considerado wokismo. Pugnar pela ortodoxia, pela verdade, pela pureza do que quer que seja é um hábito tão antigo que podia vestir um cromagnon; o problema do wokismo é o modo como a vigilância convive com a impossibilidade de se discutir a verdade do que é dito; ou seja, é diferente soltar um grito de indignação porque alguma coisa não me representa de soltar outro porque alguém não me pode representar. O facto de haver uma direita especialmente histérica, ou sensível, que reaja a qualquer manifestação de modernidade (seja lá isso o que for) tocando os martelinhos nas trombetas do Apocalipse pode torná-la maçadora, mas dificilmente a torna woke.
Há, no entanto, um aspecto em que devíamos poder falar com alguma legitimidade e sem muita vergonha de uma direita woke. Na verdade, não há grande razão para se considerar de esquerda, ou sequer woke, um património de grande vitalidade que, se tem pais, eles de facto estão à direita. Há razão, sim, simplesmente não é grande; por mais de um século, a ideia de que a linguagem não é neutra, de que expressa os mecanismos da própria sociedade, foi uma das bandeiras fundamentais da direita contra-revolucionária. Joseph de Maistre associa o declínio das linguagens ao declínio das sociedades. O próprio George Steiner, insuspeito de miopia mas também de produzir teses pouco consensuais, dedica um livro aos “logocratas”, pensadores que olham para a linguagem como uma força determinante no modo como se ordenam as relações entre os homens, e os principais são heróis clássicos da direita. A razão para as guerras de linguagem se terem tornado uma bandeira woke, como tantas outras das grandes “descobertas” dos últimos séculos nas ciências sociais, vem de uma inversão num ónus da prova que a esquerda operou sem precisar de explicar. Ou seja, ainda está por explicar porque é que a descoberta de um mecanismo oculto na sociedade é prova da sua ilegitimidade, e não do seu funcionamento. Passámos por isto com a psicanálise, com a descoberta dos mecanismos repressivos que foram imediatamente tidos por maus, com as várias “estruturas” e os tabus sociais (porque é que uma sociedade não os pode ter), como se a descoberta de uma regra provasse a sua falsidade. Há uma linguagem que mostra uma tendência das sociedades para se organizarem de certa forma? Se há, como dizem os wokes, como diziam os pensadores contra-revolucionários, porque é que essa forma é imediatamente tida por ilegítima?
A grande vantagem do wokismo nesta discussão está em forçar-nos a apanhar a discussão um passo à frente de onde devíamos; dispensa a esquerda de discutir o ponto mais contestável das suas teses – a maldade intrínseca das sociedades – apresentando-o como ponto assente.
O que o wokismo demonstra, como tantas das ciências sociais apresentadas hoje como a grande bandeira da esquerda, é acima de tudo a flagrante ingenuidade do projecto inicial esquerdista: o wokismo, as ciências sociais, mostram exactamente que as sociedades estão construídas em cima de, e respondendo a, uma série infindável de regras tácitas, esquemas sociais, complexos de relações, que são tudo menos arbitrários – daí a dificuldade em destruí-los.