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(A) :: "Varandas não é presidente de todos, só de alguns. Os sócios não se identificam". Entrevista a Bruno Sá, candidato à presidência do Sporting

"Varandas não é presidente de todos, só de alguns. Os sócios não se identificam". Entrevista a Bruno Sá, candidato à presidência do Sporting

Cresceu nas imediações de Alvalade, foi jogador de basquetebol dos leões e é dono de um dos restaurantes mais míticos do universo leonino. Entrevista a Bruno Sá, candidato à presidência do Sporting.

Mariana Fernandes
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Os primeiros anos de vida de Bruno Sá, na altura ainda conhecido como Bruno Coelho ou Bruno Sorreluz, foram feitos em várias direções partindo sempre de uma zona próxima ao Centro Comercial do Lumiar, na Alameda das Linhas de Torres, onde morava. Para o lado direito tomava a direção do Paço do Lumiar, onde estudou no Colégio Manuel Bernardes antes de acabar o 12.º na Escola Secundária do Lumiar. Para o lado esquerdo ficava todo o Mundo Sporting, que tinha na altura o Estádio José Alvalade, a Nave, os Pavilhões mais antigos e toda a zona circundante com uma vida que as novas infraestruturas acabaram por “mudar”. Para a direita mas virando de novo para a direita e não para a esquerda encontra-se ainda hoje o Colégio São João de Brito – e foi ali, nos torneios de fim de semana entre escolas, colégios e clubes (que ainda agora se realizam, mas tendo sobretudo escolas de futebol), que começou a dar nas vistas para o desporto.

Bruno Sá foi atleta de ginástica dos leões, numa altura em que o desporto de base do Sporting estava no seu apogeu pelo fomento implementado na era João Rocha no clube, gostou desde pequeno de basquetebol por influência do irmão Gonçalo, que jogava dois escalões acima do seu nos verde e brancos, mas chegou a ir fazer treinos de captação ao futebol de formação leonino, que contava na altura com treinadores de base que tinham sido antigos jogadores como Osvaldo Silva ou César Nascimento. Ainda esteve uns tempos no pelado, ainda viveu a experiência de se equipar nos balneários do Estádio e atravessar depois a 10A para o campo, acabou por “render-se” aos pavilhões e ao basquetebol. Foi aí que fez todo o percurso como atleta jovem até aos 15 anos, na posição de base e com o número 7, sendo um dos jogadores mais promissores dessa geração – algo que chegou a ser mesmo destacado pelo Jornal Sporting. Em paralelo, participava também nos torneios entre colégios de basquetebol, futebol e o que mais houvesse. Tempo para os TPC era pouco…

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Sendo de uma geração que cedo se habituou a fazer vida no Estádio e arredores, o fim de semana acabava por ser passado todo em Alvalade. A participar em jogos no sábado de manhã, a ver jogos no sábado à tarde e à noite, a passar pelos campos relvados de cima aos domingos de manhã que enchiam com centenas de pessoas que quase delimitavam por elas próprias as linhas de jogo sobretudo na altura das fases finais de juniores e juvenis (iniciados e infantis ainda tinham a final nacional na zona Centro do país), a rumar ao campo onde o futebol sénior jogasse no domingo à tarde. Pelo meio, os sítios de convívio eram os mesmos: o restaurante Magriço, um outro restaurante no estádio chamado Toca do Cardoso, o Léo Burger em frente ao Museu, a sala de sócios com mesas para cartas e snooker, a loja de conveniência na Alameda das Linhas de Torres que os mais novos aproveitavam por ter preços mais acessíveis. Assim passavam os fins de semana, naqueles que foram também os primeiros anos em que começou a andar na claque Juventude Leonina.

A extinção do basquetebol, num referendo feito pela Direção do clube então liderada por Pedro Santana Lopes que colocava também em jogo o andebol, acabou por começar essas dinâmicas. À semelhança de toda a equipa da geração de 80, Bruno Sá teve de encontrar uma nova equipa, com a maioria desse grupo a rumar à PT e mais tarde tarde ao Clube TAP, mas uma lesão grave no joelho acabou por travar durante algum tempo a carreira – ficou apenas o bichinho, que mais tarde levou a que organizasse a fundação da Academia Basket Lumiar, que chegou à Proliga. Já com o basquetebol quase como um hobbie, tirou o curso de Jornalismo e Comunicação da Universidade Lusófona e fez outras formações nas outras duas paixões: a fotografia (chegou a ter um espaço também na zona do Lumiar) e o futebol. Foi isso que lhe reabriu a porta do Sporting.

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Depois de ter tirado o curso UEFA B (nível 2), fez o estágio na Academia em Alcochete onde se cruzou com nomes como Eric Dier e Iuri Medeiros e acabou por ficar como olheiro do departamento de scouting verde e branco para a formação, na altura em que Bento Valente era o coordenador técnico. Acabou por sair numa fase de desinvestimento do Sporting nessa área – que para muitos ainda hoje tem impacto no clube.

O sonho de abrir um restaurante que pudesse recriar aquilo que vivera na sua juventude esteve presente durante vários anos, ganhando outro relevo nessa altura de 2014 e 2015 com a edificação do Pavilhão João Rocha depois de longos anos com as modalidades de “casa às costas”. Faltava apenas o espaço, que surgiu na Rua António Stromp, perto do novo pavilhão dos leões e numa zona sempre frequentada por muitos adeptos antes e depois dos jogos do futebol e das modalidades. Até o nome estava antes pensado: o Cantinho para recordar o momento em que João Morais deu o único título europeu do futebol ao Sporting com a Taça dos Vencedores das Taças em 1964, Sá em homenagem a um dos seus grandes ídolos do universo leonino, Ricardo Sá Pinto, que lhe valeu a alcunha pela qual ainda hoje é conhecido. Agora seguiu-se o outro “sonho”.

Mais do que algo “pensado”, a ideia de avançar com uma candidatura à presidência do Sporting acabou por ser mais uma consequência de vários anos a tomar contacto pelo clube por dentro com todas as pessoas que iam passando pelo restaurante do que propriamente uma “causa”. E, na essência, se a ideia de ter um espaço como o Cantinho do Sá entroncava nesse imaginário do que era o quotidiano verde e branco nos anos 90, a possibilidade de ser candidato à liderança do clube em 2026, que foi amadurecida durante os últimos dois/três anos, procura também apontar no sentido de um Sporting mais “à antiga”, que coloca os sócios no centro de tudo e não deixa cair essa cultura mais “pura” numa era moderna que acompanha novas realidades em torno do fenómeno desportivo. E com mais um ponto: o facto de ter percebido as movimentações que existiam (ou existem) para o ato eleitoral de 2030 acabou por “acelerar” a entrada da corrida… Já em 2026.

A ideia de ser presidente do Sporting é uma espécie de sonho de menino que sempre lhe passou pela cabeça ou foi criada por uma vaga de fundo nos anos mais recentes?
É óbvio que o Sporting é um amor de muitos anos. Passei pelo Sporting como atleta, como adepto, como membro da claque. Faz parte do meu dia a dia. Claro que o sonho ganhou mais força com o confessionário que abri ali perto do estádio [o restaurante de que é dono, “Cantinho do Sá”], comecei a lidar com muitos atletas, com muitas pessoas ligadas ao clube, a ouvir muita coisa. Parecia um destino que já estava traçado e que ultimamente ganhou forma. Desejo muito bem ao Sporting, o Sporting está bem neste momento e acho que esta é a grande altura de provar o meu amor e o meu compromisso ao Sporting. Tinha de ser numa fase em que o Sporting está bem.

Já disse muitas vezes que esta não é uma candidatura pessoal, não é uma candidatura contra ninguém. Mas é uma candidatura contra uma ideia? Uma maneira de fazer as coisas e de liderar o Sporting?
É contra uma ideia um pouco antagónica, até porque o lema do atual presidente era “Unir os sócios”. Tem existido um grande afastamento dos sócios, um caminho muito vincado para os clientes, um caminho muito empresarial. O meu caminho é completamente antagónico, é de grande proximidade às pessoas, aos sócios, aos Núcleos. Devolver as pessoas ao centro da decisão e voltar a reunir a família sportinguista, é um caminho muito diferente do que está a ser traçado pela atual direção, que é muito empresarial, um modelo americano. O meu modelo é à base dos sócios. Devolver o Sporting à essência.

Tem falado muito sobre este ser um Sporting cada vez mais corporate, mais empresa, mais virado para os clientes e não para os sócios e adeptos. De que maneira é que pretende aproximar o clube de quem o apoia?
Uma ideia que tenho muito vincada e que acho essencial ao Sporting é criar um Gabinete do Sócio, onde as pessoas possam ir queixar-se… É uma coisa que veio muito do negócio que tenho ali perto do estádio, ouço muito as pessoas e acho que é essencial que as pessoas voltem a sentir que fazem parte do clube. Com esse Gabinete do Sócio acho que as pessoas podem ir lá queixar-se, dar ideias, voltarem a sentir-se próximas. As Assembleias-Gerais são muito importantes, é muito importante devolver as pessoas a esses momentos e haver um debate de ideias, de construção, de crítica, para as pessoas sentirem que fazem parte do clube. Os Núcleos também se sentem abandonados, tenho andado pelo país e as pessoas sentem-se muito distanciadas. É muito importante voltarmos a pensar no horário dos jogos. O site é muito importante para as pessoas que não são de Lisboa, para que este seja mesmo o Sporting Clube de Portugal. Existe uma série de medidas urgentes para as pessoas sentirem que fazem parte do clube. Ainda agora estão à venda os bilhetes para o Bodø/Glimt e é tudo muito virado para os não-sócios, um preço muito alto, as pessoas sentem-se afastadas. O Sporting está a afastar-se do “futebol para todos”. Tudo isto é cada vez mais um negócio, é um espetáculo, até as próprias obras no estádio, o investimento que está a ser planeado é muito para a parte central do estádio e não para o “futebol para todos”, para a bancada, para os sócios comuns. Hoje em dia, alguém se faz sócio do Sporting não tem quase direitos nenhuns.

"Tem existido um grande afastamento dos sócios, um caminho muito vincado para os clientes, um caminho muito empresarial. O meu caminho é completamente antagónico, é de grande proximidade às pessoas, aos sócios, aos Núcleos."
Bruno Sá

Mas acha que este é um caminho traçado desde o início da liderança de Frederico Varandas ou que se intensificou nos últimos anos?
O lema de Frederico Varandas no primeiro mandato era “Unir os sócios”, quando entrou no Sporting até disse que tinha sido membro da claque, que tinha uma grande ligação às claques, tinha membros das claques na lista. Acho que foi com o tempo. Acho que Frederico Varandas está muito preocupado com o futebol e depois tem uma série de pessoas em quem delega muitas coisas e que tomam conta do coração do clube. Essas pessoas é que estão a escolher esse caminho. Basta olhar para o final do programa — que foi feito um pouco à pressa —, que diz que o Sporting hoje em dia é “um hub de entertainment”. Ora, é muito complicado explicar aos meus filhos o que é isto, explicar isto às pessoas da verdadeira essência do Sporting. Depois diz “we are our legacy”… Estamos muito num caminho de desligar dos sócios, do ADN, e isso tem ficado cada vez mais claro. Agora, existem várias coisas me preocupam muito para além desse caminho que está a ser traçado, como a possível entrada de investidores, de perdermos a maioria do capital da SAD, estou um pouco alarmado com isso. Por isso é que decidi candidatar-me numa altura em que o Sporting tem tido algumas vitórias desportivas. Vou apelar muito à democracia, ao voto, a uma ideia. E alertar quem não está a ver para além do resultado desportivo.

Mas a verdade é que estamos em 2026, no século XXI, e que existem casos de clubes conhecidos pelo seu associativismo que não deixam de ser ultra modernos, como o Bayern Munique. Esse meio-termo é possível?
O Bayern Munique é um bom exemplo, mas se olharmos para Inglaterra, por exemplo, já estamos a voltar aos lugares de pé, ao peão. Clubes que são detidos por pessoas que não são eleitas, que compraram o clube, estão a voltar à cultura de clube, de quase regionalismo do futebol. Claro que os lugares corporate são muito importantes, mas a grande questão aqui é mesmo esse meio-termo. Os critérios da bilhética… Hoje em dia, pessoas que são sócias há muito, muito tempo perderam direitos ao adquirir bilhetes em relação a pessoas que compram Lion Seats. Claro que temos de mediar, essa parte empresarial é muito importante, mas no dia em que o espetáculo não for do agrado dos clientes, quem é que fica? Os verdadeiros sócios do Sporting. Tem de haver muito cuidado, não podemos fechar a porta às pessoas que fizeram a história do Sporting. Estou curioso para perceber este investimento de 225 milhões de euros que vai ser feito, se vamos continuar a olhar apenas para a parte central do estádio, para tudo o que envolve o corporate, ou se vamos abrir a infraestruturas de clube, a tudo o que envolve o clube no futuro e que é intemporal, que passa de presidente para presidente. Tudo isto parece muito superficial, muito empresarial, aquele show de luzes, coisas que em termos de futuro e quando não existirem tantas vitórias é muito pouco palpável.

Tem revelado preocupação com o empréstimo que o clube fez junto da SAD e o aumento do passivo apesar dos saldos semestrais positivos para fazer o investimento na requalificação do Estádio e zona circundante. Porquê?
Preocupam-me os juros, que somando ao passivo são 200 e tal milhões, mas lembro-me de que na primeira Assembleia Geral da SAD a que fui havia uma grande preocupação desta direção em ser transparente. Havia uma grande dívida a fornecedores, de 36 milhões de euros, neste momento vai em 119. Se falarmos em passivo acumulado são mais de 500 milhões. Há uma série de dívidas que estão a ser empurradas para a frente e que me preocupam muito. Havendo este caminho de clientes mais esta dívida… Leva-me a crer que a qualquer momento teremos uma grande dificuldade de tesouraria e tem de entrar capital externo. E o meu problema não é só os 220 e tal milhões e os juros, é o que vai ser feito com este dinheiro. Vai ser investido em infraestruturas? Em scouting? Num grande departamento médico?

Portanto, a grande preocupação é com a transparência.
E a transparência não é só nesta decisão, porque acabamos por votar decisões destas num momento de impulso, numa Assembleia Geral depois de uma vitória. E depois não sabemos como é que vão ser utilizados estes valores. E não é só esta questão, é também a questão dos auto aumentos. O Sporting vangloria-se muito de ter 90% da SAD [são 88%], de os sócios serem os donos da SAD, mas não contam para nada. É a questão do empréstimo, dos auto aumentos, da compra do Alvaláxia, de um outro negócio que passou ao lado da maior parte dos sócios em que subalugámos o parque de estacionamento do estádio por 35 anos e seis milhões de euros. Preocupa-me o futuro da Academia, com o aeroporto ali, o que está a ser pensado para aqueles terrenos já que não há investimento na Academia. Estou um pouco alarmado com todos estes valores absurdos. Faz-me lembrar um tempo que houve no país em que estava tudo bem, o primeiro-ministro tinha sido eleito com maioria absoluta e seis meses depois tivemos de chamar a troika. Apresentamos lucro semestral e isso premeia os administradores… No meio de todos estes problemas ainda há quem receba prémios de mérito financeiro.

Tem questionado a ausência de transparência da atual direção em relação a uma possível entrada de investimento externo na SAD. Mas o que é que defende em relação ao assunto? Acha que o Sporting deveria aprovar a entrada de uma participação minoritária na SAD?
Se for eu a mandar, todas essas decisões têm de passar pelos sócios. Quero que esta direção seja clara sobre o que vai fazer. Se tomar uma decisão minoritária ou maioritária, os sócios vão ser ouvidos. Não foram ouvidos no negócio do parque, não foram ouvidos nos 225 milhões do empréstimo, não foram ouvidos nos auto aumentos. O que me preocupa é se isso vai ser claro, se a ideia vai ser clara. Porque os sócios é que vão decidir isso.

Já falou sobre contactos com Câmaras Municipais perto de Lisboa no sentido de poder estudar uma Cidade Sporting que pudesse ter outra vida, rentabilidade e centralidade. Quanto poderia custar um investimento desses e como poderia ser amortizado?
O que eu sei é que há muitas pessoas que querem investir no Sporting. Existe uma cultura de medo, há pessoas que querem pôr dinheiro no Sporting, mas depois aparecem umas sombras contínuas na direção do Sporting que acham que esse dinheiro vem de pessoas que auguram ser presidentes no futuro. Falo dos patrocinadores que existem nas modalidades, por exemplo. Quando falo numa Cidade Sporting é também com a ideia de ter uma Academia das modalidades aqui perto de Lisboa. Agora, teremos de pensar também se faz sentido que a Academia de Alcochete continue ali. Não sei se vou ganhar agora, mas terei de questionar o que estão a pensar fazer em relação a isso. Quero também criar uma Casa do Atleta estilo Casa do Artista, porque vejo muitos ex-atletas desligados do Sporting, abandonados, com dificuldades no dia a dia, pessoas que foram grandes referências do Sporting. Muitos sportinguistas à volta de Lisboa teriam todo o interesse em ter essa cidade desportiva, essa Academia das modalidades, avaliando também Alcochete muito bem.

"O Sporting vangloria-se muito de ter 90% da SAD [são 88%], de os sócios serem os donos da SAD, mas não contam para nada. É a questão do empréstimo, dos autoaumentos, da compra do Alvaláxia, de um outro negócio que passou ao lado da maior parte dos sócios em que subalugámos o parque de estacionamento do estádio por 35 anos e seis milhões de euros."
Bruno Sá

Foi jogador de basquetebol do Sporting e também praticou ginástica, mantendo uma ligação muito forte às modalidades e uma clara preocupação com o ecletismo de clube. Acha que as modalidades têm sido vulgarizadas pela atual direção? 
As modalidades têm tido algum sucesso, também com o trabalho do Miguel Afonso [vogal para as Modalidades], mas obviamente que a liderança do presidente Varandas não é uma liderança pela presença, ele não é uma pessoa presente nas modalidades. Temos tido alguns resultados, mas por exemplo: temos três pessoas no departamento comercial e o rival tem 45 [Benfica]. Temos de ir em busca de novos apoios. No andebol e no futsal estamos muito perto de voltar a conquistar títulos europeus e é óbvio que há muita gente que quer pôr dinheiro no Sporting, mas há sempre muita dificuldade em abrir a porta a esse apoio externo porque aparece essa preocupação do “aquele senhor quer ser presidente”. Temos de estar abertos ao diálogo e receber tudo o que possa engrandecer o Sporting.

Mas há diferenças entre o tratamento dado ao futebol e o tratamento dado às modalidades?
Sim. Por exemplo, os atletas do Sporting ganham o triplete numa qualquer modalidade e não recebem qualquer prémio. Acho que não faz qualquer sentido este escalar dos prémios na SAD… Claro que há muito mais receitas, mas tem de existir uma interligação, uma procura de apoios, de patrocínios, de pessoas que querem desenvolver as modalidades. E liderar sempre pela presença e pelo acompanhamento. Houve agora a questão do Zicky, com muitos jornais a dizerem que ia terminar a carreira porque estava lesionado. Se fosse eu, teria ido confortá-lo, obviamente, porque é um grande símbolo do futsal. A grande preocupação dos clientes, desse investimento estrangeiro, não vai ser as modalidades, não querem saber das modalidades para nada. Estamos a ser atacados na essência. Eu serei um presidente presente nas modalidades e procurarei investimento para as modalidades.

Isso está relacionado com a ideia que já repetiu de que Frederico Varandas é apenas presidente da SAD e que o que pretende é ser presidente do clube e da SAD?
O presidente atual está muito fechado no futebol. Delega muito. Sei que o Sporting é um clube muito grande, mas ele só quer saber do futebol e isso preocupa-me, obviamente.

Falando precisamente sobre futebol, já disse que o Sporting tem vivido à boleia do projeto de Ruben Amorim e do que foi deixado pelo antigo treinador. Como é que o Sporting pode passar para essa era pós-Amorim?
Apesar de termos conseguido resultados no final do ano passado, com mérito do Rui Borges, acho que o fim da era Amorim será agora em junho e com a saída do Hjulmand, do Morita, do Quenda. Fala-se muito sobre alegadas promessas de saída, como o caso do Trincão e até do próprio Geny, o Diomande. Estou muito preocupado para o sítio para onde caminhamos porque não se veem substitutos para os jogadores. Olhamos para os dois últimos mercados e são muito fracos, com Biel, o Faye ainda estou para ver o que é, ainda não chegou um substituto para o Edwards. Vamos perder uma série de jogadores e acho que junho será o fim do ciclo, porque passámos de um treinador que mandava em tudo para o Rui Borges, que é outro estilo de treinador porque ainda não se percebe bem hoje em dia quem é que manda no futebol do Sporting. O Bernardo Palmeiro é competente, temos um scouting que já provou que é muito bom, mas os mercados também têm provado que há pouco investimento. E, como tudo na vida, o mais difícil é manter. Também quero alertar para essa falta de projeto desportivo, porque noto que estamos em fim de ciclo.

Se Bernardo Palmeiro é competente, se o scouting é muito bom, como é que os mercados estão a falhar?
Não percebo, não se percebe muito bem quem é que manda. Tivemos um treinador que mandava em tudo, escolheu toda a gente que está na Academia, os treinadores, o modelo tático na Academia, e agora parece que andamos aqui numa questão de ego, de querer provar que o presidente consegue tomar conta do futebol e ser campeão nacional sem o Amorim e sem o Gyökeres. Vou aguardar para ver, desejando sempre o tricampeonato. Mas noto muitos sinais de fim de ciclo, porque não chegam os substitutos para os jogadores. Já saiu o Gyökeres, o Harder, o Hjulmand já tem promessa de saída… E essa é outra, é muito estranho termos um presidente que apresenta os jogadores e os treinadores a dizer que daqui a três anos estão num grande clube. Estamos a abrir um precedente de que o Sporting é um clube-ponte, não é um clube tão grande como os maiores da Europa, como dizia o nosso fundador.

Criticou recentemente a maneira como o Sporting geriu o dossiê Gyökeres e também a polémica com Hjulmand já nesta temporada. O que é que teria feito diferente?
Não posso mesmo apresentar jogadores a dizer que daqui a três anos estão em grandes clubes. O Sporting é um grande clube, não é um ponto de passagem. Hoje em dia os ordenados dos jogadores são muito altos, têm de valorizar o sítio onde estão. Em relação ao Gyökeres só estranho, porque é raro um jogador sair a bem do Sporting. Um jogador que foi o melhor marcador, que era amado pelos sócios, bicampeão, houve muita coisa que não foi explicada até hoje. Talvez uma promessa, fala-se muito das promessas feitas pelo Hugo Viana que continuam a ser feitas… O próprio Hjulmand, o capitão do Sporting,  e o presidente diz no início da época “o Hjulmand deu-nos mais um ano”. Não é ele que dá um ano ao Sporting, ele tem contrato, tem uma cláusula, recebe um ordenado muito alto. Esse tipo de discurso abre a porta aos jogadores. Sei que os jogadores fazem tudo o que querem, assim como os empresários, mas vamos ter de conversar com as pessoas porque este Sporting tem de deixar de existir. Eles têm de valorizar o sítio em que estão e têm contrato, não se fazem acordos de saída quando se renova. Se é para renovar, é para ficar e suar a camisola.

A questão da renovação de Rui Borges foi tema nos últimos dias, principalmente depois do empate em Braga e de uma entrevista sua há poucos dias. Muito diretamente: consigo, Rui Borges renovava?
Eu ainda não estou lá. Quando lá estiver, teremos de analisar tudo. O que eu quis dizer na tal entrevista à SIC foi que, olhando para a história, se eu fosse o Frederico Varandas e o meu treinador tivesse 12 lesionados em dezembro, eu desse o Biel e o Rui Silva, ele consegue ser campeão e fazer a dobradinha, no ano a seguir outra vez 10 lesionados, dou o Luis Guilherme e o Faye… Analisando o trabalho, o caráter, a frontalidade, nunca se queixou de estar no Sporting, se eu estivesse naquela posição já teria renovado com ele. Agora, também lhe tinha dado outras condições, porque o modelo tem de ser de clube e os treinadores têm de ter todos as mesmas condições.

"Noto muitos sinais de fim de ciclo, porque não chegam os substitutos para os jogadores. Já saiu o Gyökeres, o Harder, o Hjulmand já tem promessa de saída… E essa é outra, é muito estranho termos um presidente que apresenta os jogadores e os treinadores a dizer que daqui a três anos estão num grande clube."
Bruno Sá

O que é que isso quer dizer?
Não é “chave na mão” para o Amorim e esta falta de autonomia para o Rui Borges. Acho que ele é tão bom homem, tem tanto caráter, que não exigiu nada. O início das relações é muito importante, não culpo o Rui Borges, mas teria de ter exigido mais quando entrou. Houve a questão do Jota Silva, também, que chegou atrasado. O Sporting não conseguiu dar nada do que o Rui Borges pediu, é um modelo muito diferente do do Ruben Amorim. Se lá chegar, sento-me com o Rui Borges, analiso os resultados, mas nunca disse que ia renovar se lá chegasse. Se estivesse lá com ele já teria renovado. Chegando lá, vamos avaliar os resultados desportivos. Existe uma enorme discrepância entre a forma de liderar do Amorim e a forma de liderar do Rui Borges, são modelos de liderança muito distintos. Se lá chegar, logo verei.

Acha que existiu um aproveitamento do sucesso da equipa profissional de futebol por parte da direção atual? 
Eu acho que as pessoas não compreendem muito bem quando falo em projeto desportivo. As vitórias do passado ainda estão muito presentes nas pessoas. Esse será um dos pilares da minha candidatura que as pessoas só vão compreender mais para a frente, com a falta de resultados. Aproveitam-se as vitórias para fazer muitas coisas para as quais estou aqui a alertar, coisas que é muito importante analisar.

As 20 medidas imediatas do seu programa incluem uma reunião com os grupos organizados de adeptos. Tirando a parte óbvia do apoio em estádio, de que maneira é que as claques podem ter uma influência positiva na vida do clube?
As claques têm pessoas boas e pessoas más, como em tudo na vida. Se perguntarmos aos capitães de todas as equipas se preferem jogar com o apoio de claques ou sem o apoio de claques o que é que respondem? Claro que é jogar com claques. Agora, têm cumprir as regras do clube e tem de existir sempre um diálogo aberto. Este presidente entrou e disse que era das claques, mas agora está a querer ser presidente só de uma parte dos adeptos do Sporting. A porta do diálogo tem de estar aberta. É uma ferida que continua aberta e sem sentido nenhum. Se for presidente, claro que vou sentar-me com eles e impor regras que terão de ser cumpridas. Vou juntar todas as pessoas na mesma curva e vai existir responsabilização. Fala-se muito da pirotecnia, mas se houver acordo com claques – que Frederico Varandas fez, no início e com benefícios inéditos, mas que foi abaixo quando falaram contra ele – as multas são pagas por eles, pelo menos metade.

Sim, mas apesar de tudo o Sporting continua a ser um clube muito marcado pelo aconteceu em 2018 em Alcochete. Não é normal que essa ferida continue aberta?
Esse foi um episódio trágico na história do Sporting. Mas é como já disse, as claques têm pessoas boas e pessoas más. Nem quero recordar esse episódio, marcou muito o Sporting e não vale a pena falarmos do passado. Acho que o presidente atual tem de ser presidente de todos os sócios. Até porque, mesmo depois do que aconteceu em Alcochete, a lista dele tinha membros da claque, fez aquele protocolo… Não faz qualquer sentido estar a desenterrar 2018.

O Sporting é um clube unido, atualmente? Ou está partido mesmo tendo estabilidade institucional há vários anos?
Mesmo a ganhar, este tempo faz-me lembrar o tempo em que o Sporting ficou em sétimo lugar [2012/13]. O estádio raramente está cheio, o pavilhão raramente está cheio. Parece que esta ferida com as claques cria ali um desconforto. Há muito investimento na central e pouco investimento nas bancadas normais de sócios. Tudo isto cria desunião, não estamos todos a remar para o mesmo lado. Com o Sporting a ganhar e comigo lá, o estádio estaria sempre cheio, o pavilhão estaria sempre cheio, haveria uma grande união, uma grande família leonina. Este momento faz-me mesmo lembrar o ano em que ficámos em sétimo lugar. Os próprios horários também complicam, o futebol não está virado para as famílias, está virado para o superficial, para o show off, para as entradas com luzes, não há a verdadeira mística Sporting e essência Sporting. E claro que isso me preocupa, porque não interessa só ganhar, interessa ter o Sporting mobilizado, com emoção. O ambiente parece de um clube que não ganha.

Isso também está relacionado com a saída de Ruben Amorim? Porque fica a ideia de que enquanto ele lá estava existia essa congregação à volta do clube…
Os sócios não se identificam com o líder atual. Só poderão mantê-lo porque ganha. Não o veem como o pai de todos os sócios e essa é uma das dificuldades de Frederico Varandas. Ele sabe que, mesmo ganhando, não é o presidente de todos os sócios e que não o identificamos como pai de família, como a pessoa que lidera o clube, que nos orgulha, que nos defende. Defende só alguns. Não é o presidente de todos, é o presidente de alguns.

Uma das questões sublinhadas no programa passa pela aprovação dos nomes das portas do estádio e dos recintos em Alcochete em Assembleia Geral de sócios. Isto quer dizer que não concorda com os nomes atuais?
Não, eu não concordo com o facto de as decisões não passarem pelos sócios. Vivemos muito a questão do merchandising, dizemos que o Sporting está muito evoluído… Um miúdo olha para uma porta e vê lá o Jordão, ele sabe quem é o Jordão? Só vê lá a fotografia. Não era tão fácil ter lá um código QR para ver com o telemóvel e explicar a história do Sporting? Mas essa é apenas uma das decisões, como a dos 225 milhões, do Alvaláxia, dos auto aumentos. São pequenas decisões que tinham de passar pelos sócios, têm de passar em sufrágio, os nomes das portas, alguns nomes polémicos que estão na Academia. O próprio nome da Academia, Cristiano Ronaldo, teria de ir a sufrágio. Gosto muito do Cristiano, é o melhor jogador de todos os tempos, sportinguista, com uma grande história de passado no Sporting, formação Sporting e ADN Sporting, mas o Sporting está acima de todos. Toda e qualquer decisão que seja tomada tem de passar pelos sócios. Os presidentes não são donos dos clubes, os presidentes lideram os sócios, foram eleitos pelos sócios. Os sócios têm de tomar quase todas as decisões. Não sei dizer se discordo de alguns, sei que faltam lá alguns de que gosto muito, como o Sá Pinto, o Beto, o Nani. Mas sei que teria de ser decidido pelos sócios.

"O estádio raramente está cheio, o pavilhão raramente está cheio. Parece que esta ferida com as claques cria ali um desconforto. Há muito investimento na central e pouco investimento nas bancadas normais de sócios. Tudo isto cria desunião, não estamos todos a remar para o mesmo lado. Com o Sporting a ganhar e comigo lá, o estádio estaria sempre cheio, o pavilhão estaria sempre cheio, haveria uma grande união, uma grande família leonina."
Bruno Sá

Outra das 20 medidas imediatas passa pelo fim da “cultura do medo e castigo”. O que é que isto quer dizer? Há pouca democracia no Sporting?
Há muito pouca democracia no Sporting. A minha campanha não foi recebida como um ato de democracia e de representação de sócios. Frederico Varandas não fez campanha, o programa foi todo desformatado e depois voltaram a corrigi-lo. Não houve campanha, não tem havido democracia. Vai existir um debate, mas há pouca opinião. Não há debate de ideias nas próprias Assembleias Gerais, não há um canal onde possamos discutir, vivemos uma ditadura que me preocupa muito. Não sei se vou ganhar no sábado, mas é muito importante que as pessoas votem para não darmos carta branca a esta direção. É muito importante que exista uma oposição forte e validada pelo voto. Temos sido pouco ouvidos e é muito importante estarmos vigilantes nos próximos quatro anos.

Interpreta o facto de Frederico Varandas não ter qualquer ação de campanha programada como desrespeito pela sua candidatura?
Não, eu tenho 45 anos, não é o Frederico Varandas nem ninguém que vai desrespeitar-me. O meu caminho está criado, como sportinguista, como pai de família, como uma pessoa educada, bem formada, honesta. Isto não é um desrespeito por mim, é um desrespeito por ele próprio e pelos sócios do Sporting Clube de Portugal. Parece que o ego dele está acima do Sporting. E comigo, como toda a gente sabe, nunca estará.

Já disse que decidiu candidatar-se agora porque em 2030 “pode ser tarde”. Tarde para quê? E, ainda assim, esta candidatura é um primeiro ensaio para voltar a apresentar-se a eleições daqui a quatro anos – conhece movimentações de outros putativos candidatos já a olhar para 2030 “deixando passar” as eleições de 2026?
O Sporting sempre teve muita política e Frederico Varandas já avisou que irá sair em 2030. Há várias candidaturas que estão a preparar-se para daqui a quatro anos. Acho que isso é pensar no “eu”, não é pensar no bem comum, que é o Sporting Clube de Portugal e só isso é que interessa. Em relação a candidatar-me no futuro, só os sócios é que poderão decidir, logo verei e depois da votação que terei no sábado. Atualmente, a minha missão é alertar e reunir as pessoas do Sporting. E tarde porque este caminho de clientes… Nós não somos ouvidos, os sócios estão esquecidos, não há um sítio onde os sócios possam falar. O passivo, o empréstimo, as dívidas a fornecedores, o empurrar com a barriga, se calhar vai aparecer alguém estrangeiro a comprar uma parte da SAD ou a maioria da SAD. E aí já não vale a pena todos estes senhores estarem na sombra do Frederico. Eu dou a cara contra ele. Os outros andam na sombra a tentar fazer listas. Mas se calhar na altura o Sporting já tem um dono e já deixou de ser dos sócios. Agora já é dos clientes, poderá deixar dos sócios e aí o presidente será quem compra o clube.