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Justiça às cegas: quando o algoritmo decide e o humano se engana

Por muito tecnológica que seja, a investigação forense digital é feita por pessoas, e as pessoas têm enviesamentos. O CLARUS vem resolver os problemas de comunicação e enviesamento,

Lúcia Branco Lebre
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Entramos numa era em que o destino de um arguido pode depender menos de uma testemunha ocular e mais de um rasto invisível de metadados ou de um histórico de navegação. A prova digital, outrora um acessório exótico nas salas de tribunal, é hoje o pilar central da justiça moderna. No entanto, há um perigo silencioso a crescer sob a superfície: enquanto nos deslumbramos com a precisão dos algoritmos, esquecemos que a sua interpretação continua a ser feita por humanos falíveis, muitas vezes perdidos num ‘grego’ técnico que ninguém se atreve a traduzir. Se não abrirmos esta caixa negra, corremos o risco de transformar a justiça num jogo de sombras onde a tecnologia decide, mas ninguém compreende realmente o porquê.

Ao longo das últimas décadas, assistimos a uma transformação radical na natureza do crime, e com ela, os métodos para o combater tiveram de se adaptar a uma velocidade vertiginosa. Em casos complexos de cibercrime ou em investigações de terrorismo que atravessam fronteiras, registos de chamadas, metadados de localização ou históricos de navegação são, muitas vezes, as peças que faltavam para desvendar o que realmente aconteceu. Mas trazer este mar de dados para dentro de um tribunal está longe de ser um processo simples. Sem um cuidado rigoroso na forma como esta informação é tratada e apresentada, corremos o risco de comprometer a equidade das decisões e a própria perceção que a sociedade tem sobre a justiça.

Um dos obstáculos mais evidentes prende-se com a barreira técnica. A forense digital é um campo altamente especializado, onde os peritos lidam com conceitos que podem parecer, para a maioria, autêntico ‘grego’. O grande desafio aqui é a tradução: como explicar pormenores técnicos complexos de forma que juízes, advogados e polícias os compreendam perfeitamente? Quando esta comunicação falha, abrem-se portas a interpretações erradas que podem levar a decisões judiciais injustas, o que acaba por desgastar a confiança das pessoas nas instituições.

Além disso, não podemos esquecer o fator humano. Por muito tecnológica que seja, a investigação forense digital é feita por pessoas, e as pessoas têm enviesamentos. Estudos mostram que os peritos podem ser influenciados, mesmo que inconscientemente, por informações contextuais que não deveriam afetar a sua análise técnica. Num ambiente onde se analisam volumes gigantescos de dados, este risco é real e pode comprometer a neutralidade das conclusões. É precisamente para responder a estes problemas – a falha na comunicação e o risco de enviesamento – que nasceu o projeto CLARUS.

CLARUS: A Luz no Labirinto Digital da Justiça

O CLARUS (cujo nome completo é Building clarity and preventing bias in digital forensic examination, interorganisational communication and interaction) é uma iniciativa financiada pela União Europeia através do programa Horizonte Europa. Mais do que um projeto teórico, trata-se de um esforço coletivo para criar ferramentas que ajudem quem está na linha da frente da justiça digital a não tropeçar no escuro.

O projeto reúne um consórcio diversificado: universidades, agências forenses e forças policiais de seis países europeus. Esta colaboração é essencial porque a justiça não acontece num vácuo; ela depende de como diferentes instituições comunicam entre si e de como as leis de cada país se articulam. A ideia central do CLARUS é simples, mas ambiciosa: ao identificarmos onde é que a comunicação falha e onde é que os preconceitos se podem infiltrar, conseguimos criar sistemas mais justos. O objetivo final é garantir que, em casos graves como o terrorismo, as provas digitais sejam usadas de forma objetiva e transparente, levando a resultados judiciais em que todos possamos confiar.

Para isso, o projeto foca-se em quatro eixos principais, sempre em colaboração direta com quem vai usar estas ferramentas no dia a dia:

Mapear as Falhas: Identificar exatamente onde é que a informação se perde ou é mal interpretada na passagem entre polícias, peritos e tribunais.

Analisar os Enviesamentos: Perceber como é que as diferentes culturas organizacionais e terminologias podem levar a erros de julgamento.

Criar uma Linguagem Comum: Desenvolver um léxico técnico padronizado em várias línguas, para que todos falem a mesma ‘língua’ técnica.

Ferramentas de Verificação: Criar instrumentos práticos que ajudem os peritos a detetar e mitigar os seus próprios enviesamentos durante a análise das provas.

Ferramentas para o Terreno: Otimizar a Investigação, Humanizar a Decisão

O que distingue o CLARUS é o seu foco na utilidade prática. Não se trata apenas de produzir relatórios, mas de entregar soluções que as forças de segurança possam usar para melhorar o seu trabalho e, crucialmente, para que a justiça não seja ‘cega’ à complexidade digital.

Uma dessas soluções é o Léxico Técnico Especializado. Imagine a confusão que pode surgir se um investigador, um perito e um juiz tiverem ideias diferentes sobre o que é um ‘valor de hash’ ou uma ‘cadeia de custódia digital’. Ao criar um dicionário comum, o CLARUS elimina estas ambiguidades, garantindo que todos os envolvidos compreendem as implicações técnicas de cada prova. É um passo fundamental para desmistificar o ‘grego’ tecnológico.

Outro ponto fundamental é a criação de Protocolos Padronizados. Como o crime digital ignora fronteiras, é vital que a forma como recolhemos e analisamos provas em Portugal seja compatível com o que se faz noutros países europeus. Esta harmonização facilita imenso a cooperação internacional e torna as investigações muito mais ágeis e robustas, evitando que a falta de interoperabilidade cegue a justiça.

Mas a tecnologia não resolve tudo sozinha; é preciso investir nas pessoas. Por isso, o CLARUS aposta forte na Formação Interdisciplinar. O objetivo é que peritos e juristas consigam dialogar de igual para igual, permitindo que as provas digitais sejam apresentadas e defendidas em tribunal com muito mais clareza e segurança. É aqui que o humano, munido de conhecimento, pode evitar ser enganado pelo algoritmo ou pela sua própria interpretação enviesada.

Reforçar a Confiança: Uma Justiça para Todos, e não Apenas para os Peritos

No fim de contas, o grande beneficiário deste projeto é o cidadão. A confiança pública é o que dá legitimidade à polícia e aos tribunais. Quando as pessoas percebem que a justiça é feita com base em métodos rigorosos, transparentes e imparciais, sentem-se mais seguras e confiantes no sistema. O CLARUS contribui para isto de várias formas:

Transparência: Ao tornar os processos técnicos mais compreensíveis, a justiça deixa de ser uma ‘caixa negra’ impenetrável.

Rigor: Ao reduzir o erro humano e o enviesamento, diminuímos a probabilidade de condenações injustas ou de culpados ficarem em liberdade por falhas processuais – falhas que, muitas vezes, nascem da incompreensão.

Proximidade: Uma polícia que usa métodos transparentes e modernos ganha credibilidade perante a comunidade, facilitando a colaboração dos cidadãos e desfazendo a ideia de uma justiça distante e inacessível.

O Olhar no Futuro: A Inteligência Artificial e a Ética da Decisão

Não podemos falar de futuro sem falar de Inteligência Artificial (IA). A IA oferece oportunidades incríveis para analisar volumes massivos de dados em tempo recorde, mas também traz novos riscos, como a falta de transparência nos algoritmos. O trabalho do CLARUS é, por isso, mais atual do que nunca. Os princípios de clareza e ética que o projeto defende são a base necessária para que possamos integrar a IA na justiça de forma responsável. Precisamos de uma ‘IA explicável’, onde as conclusões das máquinas possam ser validadas e compreendidas por seres humanos. Caso contrário, a ‘justiça às cegas’ tornar-se-á uma realidade ainda mais perigosa, com algoritmos a decidir e humanos a serem enganados, ou pior, a enganarem-se a si próprios.

Justiça com um Caminho Mais Claro, mas  que Exige Vigilância Constante

O projeto CLARUS marca um passo decisivo para modernizar o sistema judicial. Ao enfrentar de frente os desafios da comunicação e do fator humano na forense digital, o projeto não está apenas a otimizar o trabalho da polícia; está a proteger os direitos dos cidadãos e a fortalecer os alicerces da nossa democracia. Num mundo cada vez mais digital, o futuro da justiça tem de ser, acima de tudo, claro. Mas essa clareza não é um dado adquirido; é uma construção contínua que exige vigilância, formação e, acima de tudo, a consciência de que, por trás de cada algoritmo, há sempre um impacto humano. Só assim evitaremos que a justiça se torne verdadeiramente cega, entregue às decisões frias de máquinas que não compreendemos, e onde o erro humano se esconde sob o manto da tecnologia.

Referências 
Website Oficial do Projeto CLARUS https://claruseu.net/
Scism, R. M. (2022). It takes work: Understanding the dynamics of communication in public safety agencies.
Sunde, N., & Dror, I. E. (2019). Cognitive and human factors in digital forensics: Problems, challenges, and the way forward.
Horsman, G. (2021). The different types of reports produced in digital forensic investigations.
Grimmelikhuijsen, S. (2015). The effects of judicial transparency on trust.
Billah, M. (2025). Explainable AI for digital forensics: Ensuring transparency in legal evidence analysis.
Stockholm Prize in Criminology. (s.d.). Tom R. Tyler.