A multidão de pessoas que se juntou na Basílica da Estrela não veio despedir-se de Nuno Morais Sarmento. Veio celebrar a sua vida. Ninguém se despede de quem nos habita. De quem, pela força das suas ideias e pela convicção e coragem de as concretizar, nos leva a entender que temos várias missões na Terra e que quase todas exigem compromisso e dor.
Com ele era assim: entender a vida. Antecipar o que aí vinha, debater até à exaustão soluções e caminhos que acreditava poderem fazer-nos mais felizes e solidários.
Visto de longe, para alguns, foi o “boxeur”. Sobretudo para certos adversários políticos, a quem desafiava a subir ao ringue para testar a força das ideias. Eram os que davam luta, aqueles que mais respeitava.
Ninguém lhe ficava indiferente. E sabíamos estar perante um amigo ou amiga incondicional quando alguém relatava a infinita espera por um encontro que podia até acabar por não acontecer e, ao mesmo tempo, partilhava uma história vivida com ele. Simplesmente porque é quase impossível não nos lembrarmos da intensidade e da profundidade do seu pensamento. Um pensamento de que não se gabava. Se o fizesse, teria descoberto mais cedo que a sua vida pública nasceu depois de uma vida cívica construída em valores de solidariedade e em ações de voluntariado que sempre praticou.
A multidão de pessoas que se juntou na Basílica da Estrela tinha mais uma dimensão comum: em algum momento da sua vida fez parte de um projecto, de uma ideia, de um ideal, de uma iniciativa. As pontes que estabelecia, e a forma como o fazia, criaram para sempre redes informais e equipas que não se desfizeram. “Células adormecidas”, ainda hoje ligadas por ideias e que, dezenas de anos depois, retomaram, em frente ao Jardim da Estrela, a conversa onde ela tinha ficado.
O Nuno amava profundamente a sua família. O sorriso mais humano de que me lembro sempre foi quando se referia à Filipa, aos seus filhos, aos seus irmãos, aos seus sobrinhos e, claro, aos seus pais e tios. Acrescento aqui o José Luís, o João Matos e o Victor Reis. Porque também eram irmãos.
Não há razões plausíveis que nos levem a esquecê-lo. Até porque nos deixou a morada para onde foi: a linha do horizonte onde o céu toca o mar. Ele está exactamente nesse ponto.