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(A) :: Escalada do gás. Com a "ajuda de São Pedro" e mais renováveis, mercado elétrico está mais protegido do que na guerra da Ucrânia

Escalada do gás. Com a "ajuda de São Pedro" e mais renováveis, mercado elétrico está mais protegido do que na guerra da Ucrânia

Mercado ibérico da eletricidade ainda não está a ser contagiado com subida do preço do gás natural. Estamos mais protegidos do que em 2022 porque há mais renováveis e pela abundância de chuva e vento.

Ana Suspiro
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O mercado ibérico da eletricidade está mais protegido hoje contra o efeito de uma escalada no preço do gás natural do que no período que se seguiu à invasão da Ucrânia em 2022. Na altura, a subida do preço do gás empurrou os preços do mercado grossista para valores nunca vistos — na casa dos 300 euros por megawatt hora (MWh), levando Espanha e Portugal a impor um teto ao preço da eletricidade produzida pelas centrais a gás natural que estava a contagiar o resto da energia transacionada.

A eletricidade no mercado ibérico está a subir desde que se iniciou o conflito no Irão, mas só o preço fixado para segunda-feira, e negociado no domingo, é que ultrapassou os 100 euros por megawatt hora. A tendência agravou-se nos preços de terça-feira (fechados na véspera) quando foram ultrapassados os 130 euros por MW hora, com Portugal a pagar menos que Espanha. Mas os valores recuaram para a casa dos 100 euros na negociação dos preços para esta quarta-feira e continuaram em queda na transação para quinta.

Apesar de ter valorizado de forma significativa nos primeiros dias do conflito, sobretudo depois do maior produtor de Gás Natural Liquefeito do Médio Oriente, o Qatar, ter suspendido as exportações, as cotações do gás aliviaram. Mas perante o prolongamento do conflito e os ataques aos navios que atravessam o Estreito de Ormuz, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, admitiu esta quarta-feira subsidiar ou introduzir um teto ao preço do gás.

Não vale a pena esconder que há uma contaminação de preços à energia produzida a partir de centrais a gás natural e que isso pode puxar os preços da eletricidade para cima, diz ao Observador o presidente da ACEMEL (Associação dos Comercializadores de Energia no Mercado Liberalizado),

Mas João Nuno Serra defende que o mercado ibérico está hoje mais protegido do que quando foi atingido pelos efeitos colaterais da Guerra na Ucrânia em 2022. Desde logo, porque tem maior potência renovável instalada, mas também porque na maioria dos 15 minutos de negociação que fixam o preço médio diário no mercado ibérico, o gás natural não está a fixar esse preço.

Estamos mais protegidos porque temos as barragens cheias. “São Pedro está a ajudar com chuva, mas também vento e sol”, afirma o presidente da ACEMEL. E são estas tecnologias que têm estado a fixar o preço diário do mercado grossista e não o gás natural. João Nuno Serra assinala contudo que as centrais a gás foram mais usadas para prestar serviços ao sistema em resposta aos efeitos da tempestade Kristin nas redes elétricas. Os custos dos serviços de sistema não aparecem no mercado grossista, mas vão à fatura de quem compra eletricidade, tendo duplicado em fevereiro após a passagem da depressão para 30 euros por MW hora.

No caso de Portugal, em 2022 a potência renovável instalada era de 17,445 Gigawatts, tendo crescido 26% até janeiro de 2026. Mais relevante que esse crescimento absoluto é o fortíssimo disparo da potência fotovoltaica que nestes quatro anos que mais do que duplicou (cresceu duas vezes e meio), ultrapassando a eólica. Por outro lado, o facto de em 2022 a maior potência renovável estar concentrada na hídrica, combinado com a seca intensa que se viveu em Portugal em Espanha, também é um fator diferenciador entre as duas crise de gás e que nos dá vantagem na atual conjuntura.

Quanto ao impacto desta crise nos clientes finais, o presidente da ACEMEL reconhece que quando há volatilidade nos preços do petróleo e do gás há contaminação dos preços, sobretudo de quem tem os contratos indexados à variação do mercado. E esses clientes, em grande parte empresas, já estão a procurar alternativas de fornecimento que lhes permitam fixar os preços. Os contratos a longo prazo, como os que cobrem a energia vendida à generalidade dos consumidores domésticos, não permitem aos comercializadores começarem já a fazer refletir uma eventual subida dos preços grossistas nos seus clientes.

Mas, remata, “o ponto principal é que felizmente temos as renováveis que nos dão independência face a essa volatilidade”, ao mesmo tempo que defende a necessidade de acelerar o licenciamento de mais unidades para poder manter os preços baixos.

João Nuno Serra reconhece ainda que a criação de uma plataforma para transacionar contratos a prazo iria ajudar a proteger os consumidores da volatilidade do preço do gás natural e do risco de contágio ao mercado elétrico. O Governo tomou a iniciativa de nomear o OMIP, o polo português da bolsa de eletricidade ibérica (o Mibel) para lançar a plataforma que permita negociar contratos do tipo PPA (contrato bilaterial de longo prazo) e CFD (garantem um preço de referência para a energia, liquidando financeiramente a diferença entre esse preço e o preço de mercado). Estas opções podiam ajudar, permitindo ao consumidor contratar diretamente produtos mais estáveis em vez de estar exposto ao mercado indexado. Estes contratos já existem, mas o objetivo é criar um market place que permita regular o preço destes contratos e criar um índice de referência a partir do registo de todos os contratos deste tipo já realizados.