(c) 2023 am|dev

(A) :: Do interior esquecido ao Porto. Seguro arranca pelo país com dedo apontado ao Governo e ao centralismo

Do interior esquecido ao Porto. Seguro arranca pelo país com dedo apontado ao Governo e ao centralismo

Aldeia de dez residentes, populações por apoiar, uma comissão de apuramento dos fogos por arrancar, um país além-Lisboa. Foi o Portugal que Seguro escolheu para estrear o mandato em Belém.

Rita Tavares
text
Diogo Ventura
photography

Tó Robalo traz uma folha A4 com uma frase escrita a esferográfica, nas letras mais garrafais que conseguiu fazer: “Presidente Tó Zé, sou de Penamacor”. Vive em Arganil há 11 anos e foi até à aldeia de Mourísia para tentar cumprimentar o novo Presidente. “Saí de lá quando ele estava na barriga da mãe. Fui empregado do pai dele, no café.” Conseguiu dizer tudo isso a António José Seguro, no meio dos apertos da chegada, e ainda lhe deu dois beijos conterrâneos. A ida do estreante presidencial até ali levava a prova de proximidade na agenda e continuou em Guimarães e no Porto, durante a tarde.

Quando chega o Mercedes com as bandeirolas da Presidência, há mais gente do que a que realmente habita na pequena aldeia que fica na encosta da serra do Açor — vieram das proximidades, como Tó Robalo, para ver Seguro. Não fosse aquela visita matinal e, num dia normal, não estariam mais de dez pessoas.

Maria Helena viveu ali todos os seus 72 anos, mas nestes últimos meses já não tem a sua companhia de sempre, a irmã que morreu no verão passado, precisamente no agosto tenebroso em que as casas ficaram cercadas por chamas e até um telhado chegou a arder. Nessa altura, Mourísia tinha muito mais gente, com as visitas das férias do verão. “Se fosse agora, com as pessoas que aqui vivem, tinha ardido tudo“, diz ao Observador.

A meia dúzia de quilómetros da conhecida aldeia de Piódão, Mourísia tem as mesmas casas de xisto, mas muito menos gente ou holofotes. Entre quem resiste e por ali ficou a viver repetem-se as palavras “abandono” e “isolamento”. Maria Helena desdramatiza, diz ao Observador que vai a Coimbra, que o padre vem duas vezes por semana à aldeia, que há produtos alimentares fornecidos diariamente e farmácia, médico e escolas em Coja, que fica a cerca de 17 quilómetros. “Não nos falta nada”, garante ao mesmo tempo que lamenta que ninguém fique e que não se criem oportunidades de trabalho para que quem quisesse permanecer pudesse fazê-lo.

As escolas também já não fazem falta há uns anos, desde que Sónia e o irmão cresceram e já só regressam para passar férias, para as principais festas e visitar os pais que por ali permanecem. Sónia foi o último bebé da aldeia e tem hoje 28 anos. É ela que está a servir os cafés no salão onde a comunidade local montou uma mesa cheia de iguarias para receber o novíssimo Presidente.

Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador em Mourísia, e o relato de Sónia, última bebé a nascer na aldeia.

https://observador.pt/programas/reportagem-observador/seguro-em-mourisia-nao-nasce-um-bebe-na-aldeia-ha-28-anos/

Seguro falou com todos e fez um circuito pelas ruas para chegar a uma eira suspensa sobre a encosta ardida, onde estava instalado um microfone de pé para fazer declarações e responder às perguntas dos jornalistas. Trazia três avisos alinhados, os dois primeiros sobre o que já ali tinha visto em pré-campanha, em agosto, sobretudo a bandeira nacional posta ao lado da placa toponímica depois do susto dos fogos.

Falou na “coragem” e “bravura” dos que combateram as chamas, para depois passar aos avisos ao Governo sobre os apoios que continuam por chegar às populações afetadas no verão: “Menos expectativas, mais apoios. Menos palavras, mais atos”. “As pessoas têm de ter a certeza de que quando o poder político fala é para valer”, afirmou colocando especial peso nesse objetivo neste seu mandato que agora começa. “Serei um Presidente exigente. Renovo essa exigência neste momento aqui, em Mourísia, para que, de facto, as palavras na política possam valer e que isso reconcilie os portugueses com as nossas instituições.” É um dos argumentos que vai usar para o combate aos populismos.

E, na mesma linha, também apontou o dedo ao Parlamento, que aprovou em dezembro uma comissão técnica e independente para avaliar os incêndios do último verão, mas que até hoje está por arrancar — embora o Parlamento já tenha feito a sua parte e aguarde os peritos indicados por reitores e politécnicos. O terceiro aviso já foi sobre uma matéria mais afastada dali, a reforma laboral.

“A coesão não é uma palavra de circunstância”

A agenda do dia foi desenhada para o Presidente poder afirmar o que disse, no final do dia, na Câmara do Porto. O roteiro não foi “um gesto simbólico”, mas sim a “expressão política de que Portugal é um todo e que nenhum território é dispensável”. “A coesão não é uma palavra de circunstância”, afirmou ao lado de Pedro Duarte, o presidente da Câmara que na intervenção que antecedeu a de Seguro tinha elogiado o socialista por ter ido ao Porto no primeiro dia em funções presidenciais.

A escolha “certifica que a mais alta figura do Estado Português olha para o território nacional como um todo. E que nos trata por igual”, afirmou o autarca na receção ao Presidente nos Paços do Concelho. “Este é o tempo para a igualdade de oportunidades e para a coesão territorial. É o tempo certo para nos libertarmos de um centralismo degradante, paralisador e opressivo que há demasiadas décadas bloqueia o desenvolvimento do país.”

O social-democrata foi um dos primeiros a apoiar Seguro publicamente na segunda volta das presidenciais, com o então candidato a visitá-lo no Porto durante uma ação de campanha. Nesta receção mostrou alinhamento com Seguro que no discurso da posse, no dia anterior, já tinha dito — ao falar das desigualdade territoriais — que “o caminho da descentralização e da valorização dos territórios merece reflexão e decisões futuras“.

Na Câmara, Seguro esteve acompanhado pela mulher Margarida Maldonado Freitas (que não tinha estado no resto do dia) e os dois ficaram a conversar com Pedro Duarte depois da receção, antes do concerto na Casa da Música, com Pedro Abrunhosa — outro dos apoiantes da sua candidatura presidencial, mas este logo durante a campanha da primeira volta. Ao Porto, o novo Presidente deixou rasgados elogios, sobretudo por não ser “apenas um lugar no território, é uma afirmação de caráter, uma forma de estar na história e no mundo”.

Em Guimarães, onde foi assinalar o ano em que a cidade é capital verde europeia, o novo Presidente teve pouco tempo para justificar a visita. Esteve acompanhado da ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, na visita ao Laboratório da Paisagem (dedicado ao conhecimento e inovação através da investigação científica na área da sustentabilidade ambiental), mas a agenda já estava tão apertada que Seguro falou apenas quatro minutos.

Disse que tinha ido a Guimarães neste primeiro dia de Presidência para “testemunhar e dar voz à visão estratégica” e “coragem que os vimaranenses e os seu autarcas afirmaram e desenvolveram ao longo das ultimas décadas” as políticas ambientais. “É o berço da nacionalidade e demonstra que é um dos berços do nosso futuro, do futuro da sustentabilidade”, disse ainda quando quer fazer do combate às alterações climáticas um dos temas deste seu mandato em Belém.

A visita foi perdendo intensidade ao longo do dia, com o ponto mais significativo a acontecer logo pela manhã, em Mourísia. O novo Presidente trazia a promessa do tempo da campanha, quando disse que iria voltar se fosse eleito. Mesmo aparecendo na estreia do mandato, não parece convencer que tudo não passe de uma flor na lapela quando se apresenta ao serviço. Afinal, continua a ouvir por ali o pedido repetido: “Não se esqueça de nós.”