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Garcia de Orta. Maioria dos obstetras do Barreiro recusa integrar escalas da urgência regional, o que está a atrasar abertura

Apenas três obstetras do Barreiro aceitaram deslocar-se para o Garcia de Orta, e as escalas da urgência regional terão de ser completadas com tarefeiros. Futura urgência vai realizar 3.100 partos/ano.

Tiago Caeiro
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Apenas três dos sete obstetras do hospital do Barreiro aceitaram, até agora, deslocar-se para o hospital Garcia de Orta em Almada, onde funcionará a futura urgência regional de Obstetrícia da Península de Setúbal. Além destes três médicos, também estão dispostos a completar as escalas de urgência alguns médicos internos, disse ao Observador fonte conhecedora do processo. A recusa dos médicos em exercerem estas funções de urgência, que lhes é permitida devido à idade, tem dificultado a elaboração das escalas que, caso a situação não se inverta, terão de ser completadas por médicos tarefeiros.

Sem data marcada para a reabertura — ao contrário da urgência regional de Loures-Odivelas/Estuário do Tejo, que estava previsto que não fosse a primeira mas funcionará a partir de 16 de março no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures —, na Península de Setúbal a urgência centralizada só deverá abrir portas no final de março ou no início do mês de abril, indica a mesma fonte. Questionados pelo Observador, a Direção-Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) e os respetivos hospitais não responderam em tempo útil.

O plano do Ministério da Saúde — que está a ser operacionalizado pela DE-SNS com os dois hospitais envolvidos — passa por mobilizar para o Garcia de Orta os profissionais especialistas em Ginecologia/Obstetrícia do Hospital do Barreiro (médicos e enfermeiros), de forma a garantir o funcionamento em pleno da urgência regional, impedindo os encerramentos não programados que têm marcado o funcionamento das urgências obstétricas destas duas unidades hospitalares nos últimos anos.

No final de fevereiro, a ministra da Saúde anunciou, numa audição no Parlamento, que o Governo iria criar a curto prazo uma urgência regional de obstetrícia na Península de Setúbal, confirmando o que alguns autarcas da margem sul temiam: que a “urgência do Barreiro” iria “fechar” por não ter “condições para se manter aberta”. Antes, em setembro de 2025, também na Comissão de Saúde da Assembleia da República, Ana Paula Martins já tinha apontado para o fecho da urgência do Barreiro, devido à falta de profissionais. “Se o Barreiro tem dois médicos que têm de fazer urgência (e os outros fazem porque querem) não acho que seja uma situação muito sustentável”, disse, na altura, a ministra da Saúde.

O plano do Governo para mobilizar os obstetras do Barreiro rapidamente foi colocado em causa pelos próprios médicos, como noticiou o Observador em setembro. “Fazemos [urgência] porque estamos em casa. Senão, não fazemos”, assegurava fonte hospitalar, ainda em setembro, garantindo que os médicos obstetras do hospital do Barreiro não estavam disponíveis para prestar serviço no Garcia de Orta.

https://observador.pt/especiais/obstetras-que-ministra-queria-mobilizar-a-forca-recusam-garcia-de-orta-maioria-tem-mais-de-55-anos-e-esta-dispensada-da-urgencia/

Apenas três especialistas aceitaram deslocar-se para o Garcia de Orta

Agora, passado quase meio ano, parte do serviço continua a recusar a deslocação para a urgência regional. Apenas três dos sete especialistas mostraram disponibilidade para exercer funções em Almada, garante ao Observador uma fonte que está a acompanhar o processo, a que se juntam os seis médicos internos do serviço de Ginecologia/Obstetrícia do hospital do Barreiro (embora nem todos possam fazer urgência no imediato, por estarem a estagiar noutros hospitais do SNS).

A integração dos médicos obstetras do Hospital do Barreiro na futura urgência regional arrisca-se a ter resultados limitados, até por um motivo que a própria ministra da Saúde conhece e que está relacionado com o envelhecimento do serviço de Ginecologia/Obstetrícia. O hospital de Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, conta com uma equipa de sete obstetras, sendo que, desses, cinco têm mais de 55 anos e estão, por isso, dispensados por lei da realização de serviço de urgência em período diurno ou noturno. Embora a maioria destes médicos continue a assegurar a urgência da própria unidade hospitalar (por opção) enquanto esta funcionar, não estão disponíveis para integrarem a futura urgência regional, no Garcia de Orta.

Esta indisponibilidade está a dificultar o preenchimento das escalas, o que tem atrasado a abertura da urgência regional. Prova disso é que a urgência regional de Obstetrícia da Península de Setúbal, que Ana Paula Martins anunciou em outubro (depois de uma reunião do Conselho de Ministros) que seria a primeira a abrir portas, já não o será. No dia 16 de março, começará a funcionar a urgência regional sediada no hospital Beatriz Ângelo, em Loures, que passará a receber os casos urgentes do hospital de Vila Franca de Xira, anunciou o diretor executivo do SNS, Álvaro Almeida, na passada quinta-feira. O esquema utilizado é em tudo idêntico e passa pela partilha de equipas entre os dois hospitais. No entanto, a situação é diferente, uma vez que o serviço de Ginecologia/Obstetrícia de Vila Franca de Xira tem um quadro muito mais limitado, que praticamente só assegura a atividade programada, estando a urgência entregue sobretudo a médicos tarefeiros (que agora irão trabalhar para Loures).

"Do Barreiro, devem ir 800/850 partos para o Garcia de Orta, ou seja, dois partos por dia"
Fonte conhecedora do processo ao Observador

No caso de península de Setúbal, o processo está mais atrasado, devido à resistência dos obstetras do Barreiro em integrarem as escalas conjuntas em Almada mas também devido à dimensão da futura urgência regional. Como explica ao Observador fonte conhecedora do processo, o Hospital do Barreiro realiza mais partos do que o de Vila Franca de Xira, o que fará aumentar mais a pressão no Garcia de Orta do que no hospital de Loures.

https://observador.pt/2026/03/05/confirma-se-fecho-da-urgencia-de-ginecologia-obstetricia-de-vila-franca-de-xira-resposta-ficara-concentrada-no-hospital-de-loures/

Futura urgência regional fará 3.100 partos/ano e precisará de quatro obstetras em permanência

No Barreiro, são realizados anualmente cerca de 1.400 partos, sendo que 40 a 45% são partos e cesarianas programados, que se continuarão a realizar naquela unidade. Os restantes serão realizados no Garcia de Orta. “Do Barreiro, devem ir 800/850 partos para o Garcia de Orta, ou seja, dois partos por dia“, indica a mesma fonte. Se tivermos em conta que o Garcia de Orta realiza anualmente 2.300 partos, a nova urgência regional deverá realizar mais de três mil partos por ano, mais concretamente cerca de 3.100.

O regulamento atualmente em vigor relativamente às equipas de urgência de Ginecologia/Obstetrícia, elaborado pela Ordem dos Médicos (e que foi publicado em Diário da República em fevereiro de 2026) define que, em hospitais de nível 2 e 3 que realizem mais de 2.500 partos/ano, como será o caso do Garcia de Orta quando arrancar a urgência regional, deverão estar escalados entre três e cinco especialistas (um número que varia consoante o total de atendimentos diários).

No caso da urgência regional da Península de Setúbal, a projeção feita aponta para os 50 atendimentos diários, “pelo que deverão ser quatro médicos escalados” por turno (que podem ser dois especialistas e dois internos), avança a mesma fonte, um número superior à equipa mínima que, neste momento, o Garcia de Orta se encontra obrigado a escalar para manter a urgência aberta.

Ou seja, só com mobilização de mais médicos, vindos do hospital do Barreiro (o que não parece provável, uma vez que, até ao momento, apenas três especialistas aceitaram deslocar-se para Almada), ou de tarefeiros, será possível cumprir o número mínimo exigido pela OM. Uma outra fonte conhecedora do processo admite que a futura urgência regional terá de contar com tarefeiros, uma vez que os médicos dos quadros do Garcia de Orta e os três médicos do Barreiro (que aceitaram deslocar-se) não são suficientes para garantir o funcionamento ininterrupto da urgência. A introdução de tarefeiros na ‘equação’ tem complicado a elaboração das escalas, uma vez que, explica a mesma fonte, estes médicos só transmitem disponibilidades a curto prazo, estando agora a ser feito um trabalho junto dos prestadores de serviço para que se comprometam com turnos a médio prazo. Ainda assim, admite a mesma fonte, a inclusão de tarefeiros pode colocar em risco alguns turnos, uma vez que estes profissionais podem comunicar a indisponibilidade para o serviço a qualquer momento.

https://observador.pt/especiais/garcia-de-orta-ainda-so-contratou-quatro-dos-sete-obstetras-anunciados-por-ana-paula-martins-ministra-culpa-administracao-do-hospital/

Neste momento, o serviço de Ginecologia/Obstetrícia do hospital Garcia de Orta tem cerca de 15 médicos, embora parte não realize serviço de urgência, apurou o Observador. Depois de se ter registado uma grande sangria de especialistas até ao verão de 2025, com a saída de nove médicos em poucos meses, a contratação de quatro médicos no final do ano (alguns deles vindo do setor privado, como o atual diretor de serviço, Pedro Rocha) veio reforçar a capacidade de resposta, permitindo ao hospital manter, desde aí, a urgência de Obstetrícia aberta praticamente sem constrangimentos. O mesmo não acontece com a urgência do hospital do Barreiro, que fecha com frequência. Por exemplo, durante esta semana encerrou na segunda-feira e só voltará a abrir esta quinta-feira, às 8h, segundo o portal dos Serviços de Urgência do SNS.

Apesar do reforço de especialistas, a urgência de Ginecologia/Obstetrícia do Garcia de Orta continua a depender de médicos tarefeiros, uma vez que os médicos do serviço têm também de garantir, para além da urgência, a restante atividade assistencial programada. Para além disso, alguns dos médicos do Garcia de Orta não fazem urgência. Também o hospital do Barreiro recorre a médicos tarefeiros para manter toda a atividade programada (não só os partos programadas, mas também consultas e cirurgias), o que irá continuar a fazer quando for aberta a urgência regional, diz fonte conhecedora do processo.

O Observador questionou a Direção Executiva do SNS sobre se já foi definida uma data de abertura para a urgência regional de Ginecologia/Obstetrícia da Península de Setúbal e se forem encetados contactos com os obstetras do hospital do Barreiro, mas não obteve resposta. Também a ULS Almada-Seixal (que abarca o hospital Garcia de Orta) não respondeu às questões enviadas, que iam no sentido de perceber se esta unidade tem sentido dificuldades na elaboração das escalas da futura urgência regional e se o hospital tem as condições físicas necessárias para acomodar o aumento de afluência à urgência e de partos previsto. Contactada, a ULS do Arco Ribeirinho (que abarca o hospital do Barreiro) também não respondeu às questões enviadas.

Recorde-se que o processo da criação das urgências regionais acabou por se arrastar. O decreto-lei ‘chapéu’ que estabelece o funcionamento destas urgências foi aprovado em Conselho de Ministros a 22 de outubro, mas levantou dúvidas ao ex-Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que devolveu esse e outros dois diplomas ao Governo para “aperfeiçoamento” no final de dezembro. A luz verde de Belém só chegou a 8 de janeiro. Uma semana depois, o decreto-lei era publicado em Diário da República. Faltam, contudo, publicar os despachos referentes a cada uma das urgências regionais a criar — até agora, nenhuma foi publicada.