Diante de uma sala vazia, a mesma que, daí a poucas horas, terá mais de 10 mil pessoas, Sara Correia fixa um ponto no espaço, lá longe, onde se situam os lugares mais distantes do pavilhão esgotado naquele sábado à noite, a 7 de março. Com plateia sentada, serão em breve 13 mil espectadores, uma multidão, mais do que o somatório das três noites de Coliseu dos Recreios cheio, em 2024, quando apresentou o terceiro álbum, Liberdade.
Em preparativos para o grande evento, entre a azáfama dos técnicos de luzes e som, acompanhada pelo staff da editora e da equipa de management, a fadista de 32 anos permanece imperturbável: toldada por um véu de introspeção e seriedade, parece quase frágil em cima do grande palco da MEO Arena. Nas laterais, onde os músicos começam a testar os primeiros acordes, a sua imagem é maximizada por dois grandes ecrãs, onde duas “Saras” gigantes, com as faces maquilhadas emolduradas pelo cabelo negro e escorrido e pelos chumaços de um casaco retangular da autoria do atelier português SSANCHO, contemplam todos os lugares por preencher.
Sara Correia esgotou o concerto na MEO Arena três meses antes de subir ao palco, na véspera do Dia da Mulher, ocasião em que também estreia o novo álbum Tempestade, lançado no passado dia 27 de fevereiro. A escolha do dia não poderia ter sido melhor, afinal todas as 11 canções foram escritas no feminino, por mulheres como Sophia Mello de Breyner ou Florbela Espanca, mas também Aldina Duarte, A Garota Não, Carolina Deslandes, Márcia, entre outras: como refere no tema de abertura do álbum, Avisem que eu Cheguei, “a Tempestade tem nome de mulher”.
É essa a melodia que a fadista sussurra baixinho nos bastidores (“Nunca sonhei ser uma estrela / Mas o céu fica-me bem”), onde, rodeada por uma equipa de confiança, recebe os últimos mimos do cabeleireiro e maquilhador Tom Perdigão, que lhe apara as pontas do cabelo. “Mais do que a roupa, [aquilo que me dá confiança em palco] são as pessoas que estão comigo”, reconhece Sara. “Desde o meu maquilhador, quem me veste, a minha agência, os meus músicos, a produção, todos. É o mais importante, porque eles são os meus pilares.”
O dia 7 de março acarreta uma dose extra de nervos. Não só representa a estreia da fadista no palco da MEO Arena, como é também a primeira vez que apresenta o quarto álbum na íntegra diante do público. “Este espectáculo é um grande marco na minha vida. Se não o maior”, admite, reconhecendo o nervosismo: “Se não estivesse nervosa, era porque não estava preocupada com nada. E isso não é verdade. Tenho responsabilidade.”
Entretanto, começam a chegar os primeiros convidados. O público só desconfia da presença de Pedro Abrunhosa, mas a lista de estrelas é mais extensa: a pianista e compositora Mila Dores (que escreveu o tema As Mãos do Meu Carinho), os irmãos de São Tomé e Príncipe, Calema, e Carolina Deslandes. O grupo de músicos permanentes em palco é formado por Diogo Clemente na viola, Ângelo Freire na guitarra portuguesa, Frederico Gato no baixo e Joel Silva na percussão. Junta-se ainda uma orquestra de cordas, com seis violinos e dois violoncelos, constituída especialmente para o evento.

À exceção de Mila Dores, que foi candidata ao Festival da Canção em 2024, todos os restantes convidados já cantaram na maior sala do país a título singular, sendo que Carolina Deslandes anunciou o regresso ao palco da MEO Arena, para “o espectáculo mais ambicioso da sua carreira” a 7 de março de 2027. Foi lá que, há pouco mais de um mês, Pedro Abrunhosa apresentou o último álbum, Inverbo, e se sentou ao piano ao lado de Sara, convidada para cantar o dueto Que o Amor Te Salve nesta Noite Escura.
A preparação do espectáculo é a mais ambiciosa da carreira da fadista. “A sala é maior, por isso há muito mais coisas a acontecer”, afirma. “Há muito mais luzes, mais trocas de instrumentos, vamos ter cordas no concerto… Mas, para mim, tudo igual. Vou cantar, como tenho feito até agora, serei a Sara Correia que fui até hoje.”
“Não há perigo equivalente a uma mulher que canta o fado”
Não é pouco. Cresceu no bairro de Chelas, como canta com orgulho na canção com o mesmo nome, sob a influência de uma “família de fadistas”, segundo confessou no podcast Geração 90. A tia cantava o fado, os avós ouviam e foi preciso pouco para que a Sarita começasse a pisar os palcos das casas da vizinhança, sempre apoiada pelo excelentíssimo mentor Armando Tavares, em memória de quem dedica o concerto. É também a ele que reza antes de entrar em palco, e à “santa Amália Rodrigues” — incontornável referência no fado. Fora isso, não tem grandes rituais: “Benzo-me e acredito em mim. Depois, avanço.”
Com 13 anos, venceu a categoria juvenil da Grande Noite do Fado de Lisboa, que lhe abriu muitas portas, nomeadamente a da seleta Casa de Linhares, onde recebeu os ensinamentos dos mestres Celeste Rodrigues, Jorge Fernando ou Maria da Nazaré — com quem gravou Tu Não Me Digas. Apesar da carreira de sucesso e das estreias nas grandes salas, Sara volta sempre às casas de fado, a sua “igreja”. É lá que presta culto às muitas influências musicais que acumulou ao longo dos anos, junto das quais bebe da sua “energia e semblante”. “Nas casas de fado, é como se estivesse a cantar ao ouvido de alguém, é diferente”, admite nos bastidores do maior concerto da sua carreira até à data.
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Um espaço menos intimista do que os cantos de Alfama onde se popularizou o fado, a MEO Arena é o cenário ideal para um espectáculo ambicioso, com uma produção elaborada ao detalhe, no som e na imagem. Apesar da distância que afasta as extremidades do pavilhão e das atenções dispersas do público, a agitação dos espectadores é palpável. Os músicos já subiram ao palco em forma de T e preparam os instrumentos: são seis de cada lado de um longo lençol branco e translúcido, que se estende misteriosamente até ao chão.
Finalmente, as luzes baixam e, com elas, o burburinho de 13 mil pessoas expectantes, que fixam os olhos no ecrã onde ganha forma a figura de Diogo Clemente acariciando a viola, acompanhado por uma orquestra de cordas determinada. O instrumental ainda irreconhecível dá lugar aos acordes familiares de Avisem Que Eu Cheguei, e, nisto, a voz de Sara Correia enche a sala, ao mesmo tempo que os contornos difusos da sua sombra são projetados no lençol.

“Não há perigo equivalente a uma mulher que canta o fado” é a deixa para que se revele a fadista em toda a sua forma e elegância, olhando de frente para uma audiência que sustém a respiração antes de explodir num aplauso efusivo. Novos e velhos, o público de Sara é verdadeiramente diversificado, desde que, em 2023, se tornou jurada do programa de talentos da RTP, The Voice Portugal. São muitas as crianças que, da plateia, dão voz ao refrão da música que se habituaram a ouvir na rádio, escrita por Carolina Deslandes com Diogo Clemente.
“És linda!”
O público acolhe a tempestade de Sara com uma trovoada de aplausos igualmente avassaladora e muitos “És linda!” exclamados em voz alta, que não ameaçam a postura solene e elevada que apresenta em palco. Imperturbável, avança para o próximo tema, uma estreia em concerto — Eu Venho, composto por Mafalda Arnauth —, e logo cumprimenta quem a vê e ouve, neste que “foi o dia mais emotivo da [sua] vida”. Mas sem chorar, admite entre risos —, afinal “batalhou e cantou muito para chegar à maior sala do país”, onde se apresenta com todo o coração. “Hoje somos só um coração.”
“Perguntas-me o porquê do fado/Perguntas-me o porquê da vida” é o mote de Porquê do Fado, tema do segundo álbum, que canta com movimentos muito contidos, como reza a tradição. Sara não tem medo do palco, mas é na economia de gestos e manifestações físicas que acredita transmitir a força daquilo que canta. Como diz em entrevista, “o fado é mágico, não é palpável, é uma coisa que se sente, não dá para dizer de outra maneira”.
Seguem-se os temas Liberdade e Marias da Terra e a queda do lençol que abre passagem para a primeira convidada da noite, Carolina Deslandes. A autora de Canto junta-se agora à intérprete numa versão em dueto da música, que afirma com violência a necessidade existencial que ambas têm de cantar “até sentir que a voz sai da pele” em denúncia do amor tóxico e agressivo exercido contra as mulheres e numa apologia da união feminina — que celebram com um longo e carinhoso abraço aclamado pelo público.

“Esta sala é pequena para a Sara”, exclama Deslandes, com lágrimas nos olhos: “O mundo é pequeno para a Sara”. A cabeça de cartaz agradece emocionada: “Há pessoas que acreditam mais em nós do que nós próprios. Escreveste as canções mais bonitas que já cantei na minha vida, a tua arte não tem medida.”
O repertório de Sara Correia está recheado de talentos, como também demonstram os temas seguintes — Fado Sara e Sou a Casa, escritos por Aldina Duarte e pelo mestre fadista Joaquim Campos, respetivamente —, depois dos quais recebe a discreta Mila Dores no piano, a fim de acompanhar a música que compôs para o álbum Tempestade, As Mãos do Meu Carinho.
Um dos momentos mais emocionantes do serão é a colaboração com a fadista que morreu em julho do ano passado, Maria da Nazaré, imortalizada a preto e branco numa silhueta projetada diante do perfil de Sara. A gravação num registo quase acapella e carregado de emoção anima os lábios engelhados que cantam Tu Não Me Digas. Os versos sobre um amor que chega ao fim preenchem cada espaço vazio do pavilhão e culminam numa interrupção estratégica e necessária, que obriga Sara a abandonar o palco, deixando o público nas mãos do grupo de músicos talentosos — dedicados a entreter quem vê com uma faixa de instrumental inspirada no tema composto por Carlos Paredes para a banda sonora do filme Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha.
Diogo Clemente e os restantes instrumentistas ocupam-se do público que cobiça a fadista, absorvida numa troca de figurinos à velocidade da luz nos bastidores do concerto. Quatro minutos e meio é o quanto tempo tem para mudar de roupa e percorrer o caminho entre a lateral do palco e o estrado montado no meio da plateia, com o luxo de uma estrela pop — a bordo de um carrinho, é empurrada pelo staff.
Emerge com uma camisa branca e volumosa que estende a cauda até aos pés, ao lado do homem da guitarra portuguesa, Ângelo Freire — para indignação das filas da frente, onde uma série de cabeças surpreendidas pelos acordes da Balada de Outono, de José Afonso, se voltam para trás. “Viva a música portuguesa! Viva o fado!”, exclama enquanto descreve o caminho de regresso ao palco. Os tributos a artistas nacionais continuam com Ódio, melodia com letra de Florbela Espanca e Nevoeiro, baseado no poema com o mesmo nome de Sophia de Mello Breyner, mas não sem antes agradecer ao “pintor de todos os [seus] discos”, Diogo Clemente. “Já sabes, no dia em que deixares de tocar, eu deixo de cantar”.

A resposta do músico e produtor reveste-se da mesma ternura: “No início de 2025, a Sara Correia teve um problema grave na voz. Não sabíamos o que ia acontecer, mas a primeira coisa que dissemos um ao outro foi que dia 7 de março íamos ter uma noite espetacular. Obrigada Deus por me fazer viver no tempo da Sara Correia”, exclama, após refletir sobre a intervenção cirúrgica nas cordas vocais que ameaçou comprometer a voz e capacidade de cantar da fadista. Quem a ouve hoje jamais poderia imaginar a experiência complicada do último ano, ainda que uma escuta atenta do álbum Tempestade seja reveladora das influências que teve no trabalho de estúdio.
O nostálgico Era o Adeus e Dizer que Não, com a sua batida de tango, preparam o público para o terceiro convidado, Pedro Abrunhosa que, com os inconfundíveis óculos escuros e ,de blazer azul vivo, repete o momento solene de 31 de janeiro. Que o Amor te Salve Nesta Noite Escura faz o que tem a fazer e as vozes daqueles que cantam em uníssono a homenagem aos resistentes da Guerra da Ucrânia, com uma pujança inédita contida na vibração dos instrumentos de cordas. “Acredito na fé, sobretudo neste mundo que de jeito nenhum nos consegue dar paz”, reflete Sara. “Mal ou bem, até estamos num cantinho aqui que é um paraíso.”
“Tenho 32 anos, sou deste tempo e o meu fado também é deste tempo”
Mas não há nada como o cantinho de Sara em Lisboa, o bairro de Chelas, onde cresceu, e que dá nome a uma das suas canções mais famosas. Com uma energia renovada, percorre o corredor que o palco estende em direção ao público com passinhos de dança saltitantes pouco apropriados para uma casa de fados, mas que encaixaram perfeitamente nesta celebração do bloco de “prédios de todas as cores”. “Obrigada ao meu bairro! Sou muito orgulhosa!”, admite sorridente, antes de introduzir os Calema, autores do tema Respirar, que leva a audiência ao rubro com a sua batida de inspiração africana.
Apesar do fado tradicional ser a matriz de Sara Correia, não se revê na figura de uma fadista antiga e procura inovar o género sempre que pode. “Tenho 32 anos, sou deste tempo e o meu fado também é deste tempo, é uma junção do antigo ao novo”, admite, um esforço também empreendido ao nível do guarda-roupa, que combina o salto alto com a ganga sem qualquer pudor. “Juntar aquela elegância do fado com a pop e com a modernidade faz sentido para mim, porque é aquilo que sou.”
Mas há sempre espaço para recordar os incontestáveis do fado e da música popular portuguesa, intenção que reforça no final do espectáculo, com uma homenagem a António Variações através de Quero É Viver, e à “santa” Amália Rodrigues. Sara tinha seis anos quando a lendária diva do fado morreu. “Vou cantá-la para o resto da vida” e também neste palco o faz: a longa guitarrada inicial termina com um silêncio doloroso e prolongado, ao qual se sobrepõe a voz pujante da fadista, cantando Estranha Forma de Vida.

Entretanto, entre o público começa a instalar-se o frenesim de quem sabe que o espectáculo está prestes a acabar. É ao som de Pechincha que Sara se despede do público e aplaude a banda, com os créditos do concerto pelas costas, só para regressar e fazer uma segunda ronda de Chelas, entre gritos descontrolados, palmas dos espectadores e animada de uma nova ginga: dança, canta e sorri sem medo, confiante de que a tempestade Sara Correia não é passageira. Depois de Lisboa, deve repetir a proeza no Super Bock Arena no Porto, a 7 de dezembro, e em várias cidades europeias — já confirmadas Londres, Amesterdão e Paris, e por anunciar em Espanha e na América Latina. Mas, antes disso, vai de férias: “também mereço”.
A derradeira despedida de Sara Correia é recebida com uma ovação estrondosa do público, que dispersa hesitante quando as luzes do pavilhão acendem. Enquanto uma multidão de amigos e família em êxtase espera para felicitar a estrela da noite, Sara permanece resguardada nos camarins. Além deles, há ainda uma fila de 100 fãs que aguardam vez para conhecer a fadista, num evento de meet and greet destinado aos vencedores de passatempos. Num espaço contíguo ao pavilhão, começa a preparar-se a after party destinada a membros do staff e aos músicos. A família Correia circula pelo espaço, assediada por mensagens de parabéns e elogios à “menina d’ouro”, que, como se não bastasse, ainda recebeu na mesma noite dois galardões, um de platina pela sua interpretação de Quero é Viver, outro de platina dupla, devido à colaboração com os Calema em Respirar.
Se os prémios são reconhecimentos bem-vindos do seu trabalho, estão longe de figurar nas prioridades da fadista. Acima de tudo, afirma, “quero que a minha voz chegue ao coração das pessoas”. “Quero que saiam do concerto com uma luz, com vontade de ouvir mais, e que se sintam bem. É por isso que canto, eu não canto para mim, eu canto para os outros. Eu canto para o público, eu canto para o povo.”





