(c) 2023 am|dev

(A) :: Vali Nasr. "Isto está profundamente enraizado na mentalidade iraniana: estão sozinhos"

Vali Nasr. "Isto está profundamente enraizado na mentalidade iraniana: estão sozinhos"

Em entrevista, Vali Nasr, autor do livro "Irão — Grande Estratégia", fala sobre bases do regime iraniano: isolamento e ódio aos EUA. Isso levou à criação do eixo de resistência — que está mais frágil.

José Carlos Duarte
text

Um país sempre envolvido em conflitos. Governado pelos aiatolas juntamente com a Guarda Revolucionária, o Irão está em estado de guerra quase permanente desde 1979. Criado após uma revolução que instituiu uma teocracia, o regime iraniano viveu sempre cercado de inimigos e praticamente sozinho. Isso moldou para sempre a forma como atua na comunidade internacional e como reage a adversidades, como a atual operação militar que Israel e os Estados Unidos da América (EUA) desencadearam no passado dia 28 de fevereiro e que causou a morte do Líder Supremo, Ali Khamenei.

No Livro Irão — A Grande Estratégia (ed. Contexto), o autor e professor na Universidade Johns Hopkins Vali Nasr aborda como a guerra foi fundamental para o regime iraniano se impor, prevalecendo na base da resistência perante os inimigos. “Isso acabou, de facto, por mudar tudo no Irão, desde a sociedade às instituições do Estado, passando pela economia”, diz o especialista iraniano-americano. O foco consiste em resistir contra todas as ofensivas estrangeiras. Em particular do principal inimigo: os Estados Unidos da América.

Em 2026, o regime iraniano atravessa talvez o maior desafio desde 1979, num conflito aberto contra os Estados Unidos e Israel — em que estes dois países admitem que o futuro poderá passar pela mudança de regime. O Irão está a ser bombardeado e a população sofre diariamente os efeitos de uma guerra. No entanto, na lógica de um Estado centrado na sua sobrevivência, isso até pode acabar por se revelar positivo para o Governo dos clérigos xiitas. “Na verdade, os ataques israelo-americanos ao Irão só vieram convencer o sistema de que sempre teve razão. De que não se pode confiar na América, de que a América quer destruir o Irão. De que confiar na América é um erro.”

EUA são um inimigo “muito potente”. “Isso obrigou o Irão a mobilizar todos os seus recursos para se organizar em função disso”

No livro, explora a ideia de que a guerra sempre foi a base do regime iraniano: ou está em guerra ou está a preparar-se para uma guerra. Pode desenvolver essa ideia? Até que ponto é que a guerra influenciou o regime iraniano?
De certa forma, a República Islâmica está em guerra desde que foi implementada em 1979. Muito pouco depois de ter chegado ao poder, houve a guerra entre o Irão e o Iraque — um grande conflito com pouco mediatismo no Ocidente —,  que durou oito anos e foi muito nociva em termos de número de mortos e de custo para o país. E, depois disso, o Irão esteve em confronto com os Estados Unidos da América no Líbano e espalhou-se pelo Médio Oriente. Esteve ainda envolvido numa guerra económica com os EUA por causa das sanções económicas. E agora está de facto numa guerra aberta com os Estados Unidos. Portanto, de certa forma, a República Islâmica nunca deixou realmente de estar em conflito.

É a norma do regime…
O poder das suas Forças Armadas, a forma como organiza os militares, a forma como a economia passou a ser organizada por causa das sanções… Tudo isso, no fundo, é fruto do conflito do Irão com os Estados Unidos da América e de outras guerras que acabaram por moldar o rosto do regime.

Os Estados Unidos sempre foram uma espécie de referência para o Irão. Os norte-americanos foram sempre tido como os inimigos?
Exatamente. Sempre foram um inimigo, mas é um inimigo muito poderoso. É um inimigo muito potente, no sentido em que obrigou o Irão a mobilizar todos os seus recursos para se organizar em função disso.

Menciona no livro que o Irão sempre esteve isolado, ainda que refira que nos últimos anos se aproximou da China e da Rússia. Mas até que ponto é que o Irão esteve isolado e até que ponto é que isso ajudou a moldar o regime?
O Irão, tal como a Rússia nos primeiros tempos da Revolução de Outubro, ou a China nos primeiros tempos da Revolução [maoísta], representou uma ameaça à ordem estabelecida ao seu redor. Isto também foi verdade no caso da Revolução Francesa, de cariz antimonárquico. Por isso, todos os países em volta que lhe eram hostis acabaram por entrar em guerra com França. O mesmo aconteceu quando Lenine tomou o poder na Rússia e quando Mao tomou o poder na China. E o mesmo é verdade para o Irão. Mas, com o tempo, o Irão deixou de se ver isolado. Está isolado do Ocidente, embora tenha embaixadas e relações com a Europa. Não está isolado da China e da Rússia. Não está isolado de muitos países. Na visão iraniana, está a tornar-se mais isolado porque a América o está a isolar.

Está a falar de sanções secundárias?
Sim. A Índia não pode fazer negócios [com o Irão], comprar petróleo iraniano ou investir num porto do Irão por causa das sanções americanas. O Japão e a Coreia não podem comprar e vender as coisas ao Irão por causa das sanções americanas. Portanto, na perspetiva iraniana, mais uma vez, o principal problema do isolamento vem dos Estados Unidos — e isto é a perspetiva da República Islâmica. Estou certo de que europeus e americanos diriam que tiveram de o fazer por uma variedade de razões. Os iranianos acreditam que os EUA se opuseram desde o início à revolução, porque esta derrubou o aliado de Washington no Irão [o antigo Xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlavi].

Para a República Islâmica é um cordão sanitário, então.
Sim: os EUA têm tentado construir um cordão sanitário à volta do Irão, que vão apertando cada vez mais. Portanto, o isolamento do Irão não se deve ao facto de a maior parte do mundo se opor ao Irão. Esse isolamento, para eles, deve-se ao facto de os Estados Unidos estarem a isolar o Irão.

"Com o tempo, o Irão deixou de se ver como isolado. Está isolado do Ocidente, embora tenha embaixadas e relações com a Europa. Não está isolado da China e da Rússia. Não está isolado de muitos países. Na visão iraniana, está a tornar-se mais isolado porque a América o está a isolar."

O fim do “escudo defensivo”. Enfraquecimento do Hezbollah levou os EUA e Israel a “deixaram de ter receio de atacar o Irão”

Acha que é por isso que o Irão construiu um eixo de resistência em todo o Médio Oriente?
Sim. Depois da guerra contra o Iraque [1980–1988], o Irão passou a preferir não se defender nas suas próprias fronteiras, embora seja exatamente isso que tenha de fazer agora na guerra com os Estados Unidos e com Israel. Percebeu nessa guerra que não consegue ter Forças Armadas convencionais, porque ninguém lhe vende tanques, artilharia ou aviões, e por isso um Exército convencional não é uma opção. Daí a aposta em mísseis, drones e, antes disso, na criação de milícias aliadas no Líbano, Iraque, Síria e Iémen, como o Hezbollah e outros grupos. Estas forças servem para defender o Irão a partir do mundo árabe e para desviar a pressão militar de Israel e dos Estados Unidos para campos de batalha árabes. Ter estas capacidades no mundo árabe passavam também a funcionar como dissuasor contra um ataque ao Irão. Portanto, o eixo de resistência, de certa forma, foi construído inicialmente com base numa estratégia que os iranianos chamavam de ‘defesa avançada’; ou seja, defender-se fora de fronteiras contra um futuro ataque contra o país.

Uma capacidade avançada de dissuasão, então.
Sim. Pudemos assistir ao colapso dessa defesa avançada quando Israel decapitou o Hezbollah e enfraqueceu o Hezbollah. Depois, a Síria caiu em dezembro de 2024 [com o fim do regime do antigo Presidente Bashar al-Assad, aliado do Irão]. A partir daí, os EUA e Israel deixaram de ter receio de atacar o Irão.

Está a dizer que esta espécie de destruição parcial do eixo de resistência acabou por empurrar Israel e os Estados Unidos para atacar o Irão?
Sim. Às vezes não devemos perder-nos nos rótulos que colocamos nas coisas. Chamar terrorista ao Hezbollah, falar em proxies iranianos, etc., serve para os definir como maus, como negativos. Mas isso na verdade não nos diz nada, em termos analíticos, sobre que funções é que estão a desempenhar. A função que desempenham é pressionar Israel e os Estados Unidos para que não ataquem o Irão. Para o Irão, os seus proxies não eram tanto uma arma ofensiva, mas sim um escudo defensivo. Portanto, quando se diz que o Irão não tem um sistema de defesa aérea, isso é verdade, porque o Irão contava com o Hezbollah como sistema de defesa aérea. Israel não atacaria o Irão, porque, se o fizesse, o Hezbollah poderia atacar Israel. Esse equilíbrio desmoronou depois de 7 de Outubro. O resultado foi que Israel e os EUA deixaram de ter qualquer problema em atacar o Irão, porque esse escudo caiu.

https://observador.pt/especiais/como-nasrallah-tornou-o-hezbollah-um-dos-maiores-inimigos-de-israel-e-semeou-o-caos-no-libano/

No livro, também diz algo que considero interessante sobre o eixo de resistência. Refere que, por exemplo, o Hezbollah tem alguns interesses em Teerão e que também consegue influenciar a política iraniana. Como é que isso funciona?
Porque o eixo de resistência é uma arma do Irão, mas como é composto por pessoas, não é uma arma convencional. Ou seja, quando o Irão estabelece uma relação com o Hezbollah ou com as milícias no Iraque, eles também estabelecem uma relação consigo. O Irão tem influência sobre eles, mas eles por vezes também têm influência sobre o Irão. E é preciso ter isso em conta. Portanto, o Hezbollah, as milícias iraquianas, os Houthis iemenitas, não são forças estrangeiras nos solo que ocupam. É um pouco como alguns exemplos na América Latina, em que existe uma organização separatista que é, sim, uma milícia armada, uma organização de guerrilha, mas também controla um território. Portanto, tem uma base social. Tem interesses próprios ao mesmo tempo. Tem de responder à sua própria base. No eixo de resistência, os proxies também têm os seus interesses e também os defendem, para além de apoiarem o Irão.

Grupo dos reformistas e moderados iranianos “perdeu sempre”

Terminou o livro em 2024. Aconteceu muita coisa entretanto, houve a guerra dos Doze Dias e agora temos uma guerra em grande escala. Acha que o Irão estava preparado para esta guerra em concreto?
Bem, o Irão estava mais preparado para esta guerra do que estava para o que aconteceu em junho de 2025. Tem razão quando diz que muita coisa aconteceu desde então. Mas o livro não é sobre comentar o dia a dia dos acontecimentos. O que descrevo neste livro tem a ver com a lógica fundamental das decisões de segurança e de política nacional do Irão. E isso continua lá, a ideia da resistência continua lá. A estratégia iraniana de defesa avançada colapsou. Agora há uma grande guerra, há uma segunda grande guerra em curso, e não sabemos para onde as coisas vão caminhar. Se quisermos perceber como pensa a liderança iraniana sobre as ameaças, sobre a região, porque é que seguiu políticas que a trouxeram até este ponto é para isso que o livro foi criado.

Nessa lógica, aborda no livro que — nas guerras todas que o Irão travou — existe sempre um conflito paralelo dentro do regime entre moderados e revolucionários. Acha que esta guerra em 2026 veio dar força aos mais radicais?
Sempre houve este debate no Irão entre aqueles que acreditavam na importância esmagadora de resistir aos Estados Unidos e de organizar o país em função disso e entre aqueles que defendiam que o Irão devia concentrar-se no seu desenvolvimento. Houve Presidentes iranianos como Rafsanjani, Rouhani e o movimento reformista no Irão, que basicamente queriam abrir o Irão para o exterior. Mas abrir o Irão implica pôr fim à resistência e ter uma visão muito diferente dos Estados Unidos. O anterior Líder Supremo, e agora o seu filho, quiseram essencialmente defender a ideia da resistência. Acreditam que o mais importante é proteger a independência do Irão face aos Estados Unidos. Ao contrário dos reformistas que diziam que o mais importante era desenvolver o Irão e só depois resistir ao exterior. Mas esse grupo perdeu sempre. E agora, com outra guerra, o Presidente Trump pensou que, ao atacar o Irão, iria fortalecer os reformistas. Ou seja, ao matar o Líder Supremo, removeria o grande defensor da resistência e o sistema regressaria a onde estavam os reformistas, como Rouhani, como Rafsanjani. Mas aconteceu precisamente o contrário. Na verdade, os ataques israelo-americanos ao Irão só vieram convencer o sistema de que sempre teve razão. De que não se pode confiar na América, de que a América quer destruir o Irão. De que confiar na América é um erro.

A estratégia dos revolucionários foi validada, então.
De certa forma, Khamenei pai, Khamenei filho e os Guardas Revolucionários acreditam agora que tudo o que pensavam sobre a América era verdade. Que talvez precisem de uma estratégia diferente para combater a América. Mas o que vemos hoje no Irão é que as pessoas que estão no poder não têm dúvidas sobre a estratégia da resistência. Acham, pelo contrário, que a resistência tem agora de ser ainda mais forte. O Irão, neste momento, nesta guerra, está a resistir à América, certo? Portanto, a lógica que descrevo no livro foi, na verdade, reforçada por estas guerras. Entre os decisores políticos, não quero dizer entre a população.

Sim, e eu também queria perguntar-lhe isso, porque menciona no livro que há uma diferença entre o que pensa a população e o regime. O próprio Ali Khamenei reconheceu que estão em polos distintos. Até que ponto é que essa contradição pode fazer a diferença?
Bem, às vezes torna-se conflituosa, como vimos em janeiro. Parte da ira da população em relação ao regime vem precisamente do facto de haver pessoas que simplesmente não gostam dele porque é autoritário, religioso e tudo isso. Mas muitos iranianos também estão cansados do custo económico do isolamento, do custo económico das sanções e do custo económico da resistência. Portanto, quando os protestos se iniciaram no Irão, em dezembro de 2025, começaram por questões económicas. Há um grande número de iranianos que, obviamente, não está satisfeito e quer pôr fim à resistência. Mas, neste momento, o Irão está em guerra e essa mudança não vai acontecer agora. Teremos de ver o que vem a seguir.

A economia sempre foi um problema para o regime?
Bem, veremos o que sai desta guerra. Acho que a grande questão agora é o que vai acontecer no fim da guerra e quais são os possíveis cenários que poderão surgir. A política no Irão, penso eu, tornar-se-á muito mais importante quando a poeira assentar. A política não se manifesta no meio da guerra. Vai manifestar-se quando a guerra terminar.

No livro, recordou que, depois da guerra entre o Irão e o Iraque, o governo iraniano se concentrou mais na economia e até houve alguma abertura do regime…
Sim, houve. Mas nenhuma dessas mudanças acabou por ser de tal forma profunda que viesse, no fim de contas, alterar o caráter do regime. Os iranianos tiveram, por exemplo, o Movimento Verde em 2009, que pretendia levar o país por um caminho muito diferente da resistência — de abrir o país ao mundo, de se relacionar com o mundo. E foi derrotado. Foi reprimido. Portanto, há momentos em que o público iraniano mostrou que está cansado da resistência, mas não conseguiu pôr fim à resistência porque não conseguiu chegar ao poder. Os Guardas Revolucionários e o Líder Supremo mantiveram-se sempre do lado da resistência. E o novo Líder Supremo também está do lado da resistência.

Não está a falar apenas antes da revolução como também depois?
Sim, mesmo antes da revolução. Mas a revolução, no fundo, foi o momento em que a segurança nacional do Irão passou a estar realmente focada na ideia de resistência. Essa resistência acabou, de facto, por mudar tudo no Irão, desde a sociedade às instituições do Estado, passando pela economia.

Durante a guerra no Iraque e outros conflitos que se seguiram, destaca no livro que o apoio da população foi fundamental para que o regime sobrevivesse a algumas guerras. Essa motivação, imagino, não será a mesma…
É por isso que as guerras são agora guerras à distância, até ao momento em que, digamos, os Estados Unidos decidam pôr tropas no terreno. Acho que já não se trata de soldados. Trata-se, neste momento, de intercetores de mísseis, mísseis e bombas.

"Há momentos em que o público iraniano mostrou que está cansado da resistência, mas não conseguiu pôr fim à resistência porque não conseguiu chegar ao poder. Os Guardas Revolucionários e o Líder Supremo mantiveram-se sempre do lado da resistência. E o novo Líder Supremo também está do lado da resistência."

Mas entre a população a motivação para uma guerra não é a mesma, pois não? Antes havia um apoio às ofensivas do regime …
A motivação para o regime continua a ser defender o Irão. Para eles, o agressor continua a ser a América. O agressor tem sido a América, na perspetiva deles, em 1979. Acreditam que a América esteve por trás da invasão do Irão pelo Iraque. Portanto, nestes últimos 50 anos, esta resistência à América não mudou.

O que o move o regime “não é a religião”. “A ideia é que tem de proteger a independência e a soberania do Irão”

Menciona no livro que o regime teocrático passou a estar mais concentrado na segurança do que na religião. Isso é verdade?
Diria que sim, porque, no fundo, o regime tem uma linguagem religiosa. Mas, no fim de contas, o que o move não é a religião, é a segurança nacional. A ideia mais importante é que os Estados Unidos são uma ameaça para o Irão e que têm de proteger a independência e a soberania do país face aos Estados Unidos. E isso tem sido, de facto, o motor da sua política externa.

Assinala ainda que os  Guardas Revolucionários passaram a controlar a política externa do Irão. Como é que isso aconteceu e se tornou num domínio total?
Tornaram-se uma força cada vez maior. Mas acho que, ao nível de topo, mesmo entre os líderes civis que estão no comando, há um consenso entre o Líder Supremo e os conselheiros de segurança nacional. Não se trata de um Governo controlado pelos militares, como o Chile de Pinochet. Há uma integração entre a liderança civil e militar, que partilham, essencialmente, uma determinada visão do mundo. Agora, claro, os comandantes militares e os líderes civis que foram promovidos nos últimos 50 anos para chegarem ao topo não são pessoas que pusessem em causa essa visão.

https://observador.pt/especiais/de-sabios-religiosos-a-lideres-politicos-como-e-que-os-aiatolas-chegaram-ao-poder-cinco-respostas-sobre-o-irao-e-o-xiismo/

De certa forma, as elites do sistema também subscrevem essa visão, porque foi esse o critério de seleção e promoção até chegarem onde estão.
Exatamente, sim. E agora temos esta guerra.

Irão “não está surpreendido” com falta de apoio chinês e russo

De que forma é que esta guerra pode mudar as relações entre o Irão, a China e a Rússia? A Rússia e a China estão a ser demasiado tímidas? Porque é que não apoiaram verdadeiramente o Irão?
Não, porque acho que o Irão não esperava que o apoiassem da mesma forma que os EUA apoiam Israel. Ou da forma como os europeus apoiam Israel. Não creio que essa expectativa alguma vez tenha existido.

Refere que o Irão tem ficado ligeiramente desapontado com a falta de apoio chinês…
Mesmo assim, acho que não pode haver uma perceção de que o tipo de estratégia que o Irão segue poderia alguma vez ser apoiado pela China ou pela Rússia. Eles não vão travar uma guerra pelo Irão, sobretudo contra os Estados Unidos. Mas penso que o Irão tem recebido muito apoio. Recebeu apoio quando precisou. Mas não é ao nível do que Israel recebe dos EUA. Portanto, isto faz parte de todo o argumento que apresento no livro: que o Irão esteve sempre sozinho. Esteve sempre sozinho na região, esteve sempre vulnerável. Sim, houve períodos em que os EUA o ajudou contra a União Soviética. Mas isto está profundamente enraizado na mentalidade iraniana: estão sozinhos. Não têm amigos regionais que venham em seu auxílio, não de uma forma que seja estrategicamente relevante. Isto está entranhado no pensamento iraniano.

"O Irão esteve sempre sozinho. Esteve sempre sozinho na região. Esteve sempre vulnerável. Sim, houve períodos em que os EUA o ajudaram contra a União Soviética. Mas isto está profundamente enraizado na mentalidade iraniana: estão sozinhos. Não têm amigos regionais que venham em seu auxílio, não de uma forma que seja estrategicamente relevante. Isto está entranhado no pensamento iraniano."

Então não é uma surpresa para eles?
Não, não é uma surpresa para o Irão. Podem ter ficado apenas com pequenas dúvidas, como “porque é que a Rússia não fez isto ou aquilo?”, mas nunca esperaram que a Rússia, ocupada com a guerra na Ucrânia, viesse lutar por eles. O que estamos a ver é que a Rússia os tem ajudado de forma discreta, por exemplo com informação confidencial para atacar bases e radares americanos, o que é importante na guerra. Não sabemos exatamente todo o tipo de ajuda que recebem, mas não passa por mísseis capazes de afundar navios americanos, porque isso arrastaria outro país diretamente para o conflito. No futuro, qualquer eventual decisão do regime iraniano quando a guerra terminar terá em consideração que o Irão continua, em grande medida, sozinho e só pode contar com certas ajudas limitadas. Volto a repetir: parece que não ficaram surpreendidos com o facto de a ajuda não ter vindo. Quer dizer, não receberam sistemas de defesa aérea chinesa nos últimos 10 anos; não os iam receber no meio de uma guerra.

No livro também explora a relação entre os países árabes e o Irão, o que também é, creio eu, uma componente do seu isolamento.
Sempre houve rivalidade entre eles. Durante algum tempo nem sequer tiveram relações. Penso que os sauditas chegaram à conclusão, a certa altura, de que não lhes era vantajoso manter este tipo de conflito com o Irão. Por isso, normalizaram as relações [em 2023], mas, no fim de contas, não são grandes amigos, digamos assim. É uma relação que ainda está a desenvolver-se.

E os ataques de que foram alvo estes países podem mudar a relação com o Irão? Vão aproximar os países do Golfo dos Estados Unidos?
Acho que os vai afastar dos Estados Unidos. Penso que esta guerra está a mostrar à Arábia Saudita que os EUA, na verdade, não estão dispostos a defendê-la ou não a conseguem defender. A guerra está a causar ataques às suas infraestruturas petrolíferas e às bases que existem na Arábia Saudita, mas as expectativas que tinham de que os EUA os protegeriam do Irão não se confirmaram. Penso que o Irão conseguiu pôr em causa, para o mundo árabe, esta dependência das bases americanas, porque essas bases não estão a proteger os países do Golfo, estão, isso sim, a atrair os ataques. Isto é algo que o Irão soube explorar muito bem.

E Israel? Considera que o regime sente a mesma inimizade por Israel que sente pelos Estados Unidos? Ou o Irão ainda vê Israel como um fantoche ou uma espécie de subordinado dos Estados Unidos?
Penso que agora o Irão tem uma visão mais sofisticada do papel de Israel. Continua a ser tudo sobre a América, mas o regime percebe que Israel não é apenas um instrumento dos EUA. Israel pode, de facto, moldar a política norte-americana. Mas isso não altera, em termos fundamentais, a mentalidade ainda em vigor. Não é como se, de repente, a Rússia ou a China fossem uma ameaça maior. Portanto, para o regime, Israel e os Estados Unidos sempre foram um só. No Irão, continuam a acreditar que os Estados Unidos são, essencialmente, o principal inimigo do Irão. É uma mentalidade que, se pensarmos na Europa dos anos 70, era semelhante à da nova esquerda em relação ao imperialismo americano. É esse o tipo de mentalidade que o Irão tem.

“O Irão tem sido uma potência regional muito importante no Médio Oriente desde a revolução iraniana”

O Irão, conclui no livro, conseguiu influenciar o Médio Oriente nos últimos anos. Até que ponto o regime iraniano alterou a região? Em que medida tem o estatuto de potência regional?
Alterou a região, porque, em larga medida, as suas políticas no Líbano, na Síria, no Iémen, etc., também moldaram as dinâmicas da região. A sua postura agressiva em relação a Israel, ou a postura do Hezbollah face a Israel, ou do Hamas face a Israel, também ajudou a criar a situação que estamos a ver. Portanto, o Irão estava a tentar defender-se, na sua própria ótica, mas, ao mesmo tempo, criou ameaças contra as quais depois tem de se defender. Neste jogo de ação e reação, a região foi sendo moldada desta maneira nos últimos 50 anos. Dito de outro modo, o Irão tem sido uma potência regional muito importante no Médio Oriente desde a revolução iraniana. Tal como a revolução chinesa tornou a China numa potência enorme na Ásia — causou a guerra da Coreia, a guerra do Vietname e fez ameaças à Indonésia. Ou como a União Soviética foi a razão da existência dessa relação transatlântica, da NATO e do investimento americano na Europa: tudo isso foi produto da ameaça soviética. Portanto, de certa maneira, o Irão teve um impacto semelhante na região, nos últimos 50 anos.

Tal como a União Soviética, o Irão tentou, pelo menos no início do regime, exportar a revolução. Havia até diferentes doutrinas e posições no Irão para construir uma ‘internacional xiita’. Esse movimento chegou alguma vez a ter impacto?
Em parte, sim. Mas, mais uma vez, é uma realidade em movimento.

"O Irão estava a tentar defender-se, na sua própria ótica, mas, ao mesmo tempo, criou ameaças contra as quais depois tem de se defender. Neste jogo de ação e reação, a região foi sendo moldada desta maneira nos últimos 50 anos."
Vali Nasr

Mas até que ponto é que o Irão estava realmente a tentar este tipo de internacionalismo? Acha que, no passado, isso foi um esforço consistente ou também era algo muito dividido internamente?
Bem, a nível internacional, o Irão teve relações muito boas com o Sul global. A sua relação com a Europa tornou-se cada vez mais problemática, em parte por causa das sanções, em parte por causa de várias outras questões. Mas houve uma altura em que o Irão, quando negociava o acordo nuclear, por exemplo, via a Europa como um contrapeso necessário aos EUA. Por iss, insistiu que, além de França e Reino Unido, a Alemanha também fizesse parte das negociações do JCPOA [Plano de Ação Conjunto Global, o projeto que negociou o acordo nuclear de 2015]. Mas agora, sob pressão da administração Trump, tudo isso se desfez. E a Europa está hoje mais hostil ao Irão do que os próprios Estados Unidos. Já com o resto do mundo, o Irão tem mantido boas relações. Como disse, essas relações ficaram mais limitadas porque as sanções americanas não permitem comércio com o Leste Asiático ou com África. Mas mesmo nesta guerra, neste momento, fora da Europa e dos EUA, o Irão tem um enorme apoio global. Mesmo na Europa e nos EUA, entre os jovens progressistas, o Irão goza de muita simpatia. O que é muito diferente de há cinco ou seis anos, quando isso não acontecia.

Acha que a guerra em Gaza também contribuiu para essa perceção menos negativa do Irão?
A guerra em Gaza contribuiu muito para isso, porque os argumentos em que o Irão assenta — essa ideia de resistência contra o imperialismo americano —, encontram agora uma base de apoio mais ampla. A guerra de Gaza tornou-se também um grande esforço anticolonial e anti-imperialista. E o Irão, naturalmente, está muito mais ligado a esse esforço. O Irão nunca foi um símbolo da globalização, mas está claramente numa época em que há cada vez mais resistência aos excessos da política externa americana. E o Irão encaixa nesse discurso anti-imperialista.

Já mencionou no decorrer desta entrevista, mas gostaria de lhe perguntar: como será o futuro Líder Supremo, Mojtaba Khamenei? Disse que seguirá a linha do pai, mas acha que o regime pode mudar ou ficará tudo na mesma?
Bem, só saberemos isso depois da guerra. Porque durante a guerra não haverá mudanças, isso é certo. O seu percurso é, evidentemente, muito próximo do do pai. Mas se ele sentir necessidade e se terá poder para mudar de rumo, só saberemos mais tarde. Por enquanto, ele segue o legado do pai. Foi para isso que foi escolhido.

Neste momento, temos esta grande guerra. Os Estados Unidos e Israel estão a tentar pôr fim ao regime iraniano. Na sua opinião, quão forte é o regime? E quão difícil será derrubá-lo?
Neste momento é bastante difícil derrubar o regime, porque, agora, a população não está virada para a política. Está preocupada com a guerra e com o país. Também não parece que a República Islâmica esteja à beira do colapso, a menos que os bombardeamentos se tornem muito mais intensos. Penso que as suas fragilidades se vão tornar visíveis e veremos depois da guerra se elas são ou não decisivas.