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Bill Clinton diz que havia "provas credíveis" de que Gerry Adams, antigo líder do partido Sinn Féin, pertencia ao IRA

Gerry Adams é acusado de ter consentido a realização de atentados do IRA em Inglaterra. Ex-líder do partido irlandês Sinn Féin nega ligações a esta organização, mas carta de Clinton de 1993 indica-o.

Mariana Marques Tiago
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O antigo Presidente dos EUA, Bill Clinton, diz que havia “provas credíveis” de que Gerry Adams, antigo líder do partido irlandês Sinn Féin, pertencia à organização terrorista irlandesa IRA. E por este motivo impediu a sua entrada nos EUA em 1993.

Esta afirmação foi feita na passada segunda-feira em tribunal, no âmbito de um processo civil movido por três vítimas de ataques do IRA que acusam Gerry Adams de ter orquestrado os atentados. São eles John Clark (vítima de um atentado em 1973, em Londres), Jonathan Ganesh (vítima de um atentado em 1996 também em Londres) e Barry Laycock (vítima de um atentado também em 1996, em Manchester).

O antigo líder do partido Sinn Féin – que tem negado constantemente todas as ligações ao IRA — chegou ao Supremo Tribunal esta segunda-feira com um colete à prova de balas. E à saída do tribunal, já no final do primeiro dia de julgamento, o irlandês disse que queria deixa claro que a “única coisa” de que é culpado “é de ser um republicano irlandês empenhado em acabar com o domínio britânico” na Irlanda, procurando “unir o povo com base na liberdade, igualdade, paz e solidariedade”.

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O julgamento deverá acabar na próxima semana. Mas esta segunda-feira, no primeiro dia, foi lida uma carta escrita por Bill Clinton em 1993, na qual refere uma conclusão à época apresentada pelo FBI e o Departamento de Estado dos EUA, escreve o Telegraph. Clinton terá apoiado a decisão de impedir Gerry Adams de entrar nos Estados Unidos após estas entidades afirmarem que o antigo líder do Sinn Féin tinha estado “envolvido em atividades terroristas”.

Estas entidades tinham como objetivo “garantir o cumprimento da lei de imigração e nacionalidade, que proíbe especificamente a entrada nos EUA de pessoas que se envolveram em atividades terroristas”. “O Departamento de Estado e o FBI concluíram que [Gerry] Adams não é elegível para um visto nos termos dessa lei. Como tal, o Departamento de Estado recomendou à procuradora-geral que não permitisse a entrada do Sr. Adams nos EUA. Apoio essa decisão.”, lia-se na carta apresentada em tribunal.

E não ficava por aqui. “Existem provas credíveis de que [Gerry] Adams continua envolvido ao mais alto nível na elaboração da estratégia do IRA. Além disso, (…) ainda não renunciou publicamente ao terrorismo”, escreveu ainda o antigo Presidente dos EUA.

Ainda assim, no ano seguinte (em 1994), o irlandês recebeu um visto de 48h para visitar os EUA, decisão tomada por Clinton e que foi considerada controversa, uma vez que o IRA continuava a atuar.

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Esta segunda-feira, a advogada de defesa das vítimas acusou Gerry Adams (agora com 77 anos) de ser “diretamente responsável e cúmplice das decisões tomadas por esta organização [IRA] de detonar bombas no território britânico em 1973 e 1996”.

Segundo a advogada Anne Studd, Gerry Adams “faz uma distinção cuidadosa entre ser membro do ‘exército’ [IRA] e ser membro do Sinn Féin. Mas, na realidade, as provas demonstram que esta não era uma separação clara, como o arguido quer fazer crer”.

Os três queixosos defendem que todos os atentados de que foram vítimas ocorreram com conhecimento e consentimento de Gerry Adams. E apesar de o seu advogado argumentar que Adams “desempenho um papel fundamental no processo de paz que culminou na assinatura do Acordo de Sexta-Feira Santa, em abril de 1998, que pôs fim a um conflito que durou décadas”, as três vítimas sublinha que apesar de o político “ter contribuído para a paz, também contribuiu para a guerra”.

Seja como for, contra-argumenta o representante legal de Gerry Adams, estas três vítimas “não apresentaram uma única prova direta ou documentação para demonstrar que Gerry Adams desempenhou qualquer papel nos eventos históricos” em causa.