Hoje, mais do que nunca, a reciclagem de embalagens precisa de ser compreendida e valorizada. Só sendo clara, mobilizadora e próxima dos cidadãos poderá transformar-se num compromisso consciente e gerar melhores resultados e, por isso, acredito que a arte pode ajudar neste caminho. Pois se tem a capacidade de nos fazer parar, contemplar e refletir, além de despertar emoções, porque não colocá-la ao serviço da consciência social?
Pode realmente ser uma ferramenta poderosa dado o atual momento que vivemos, em que já não é suficiente mudar mentalidades, é urgente agir. Podemos trabalhar a responsabilidade coletiva, com a arte a dar voz ao que descartamos, a revelar o valor escondido em cada resíduo e a levar-nos a questionar a nossa relação com o consumo excessivo e o desperdício.
Um bom exemplo, entre vários que poderia dar, é a instalação sonora imersiva Testimonium, do dinamarquês Jacob Kirkegaard, que encontramos na Fundação Calouste Gulbenkian até maio. O artista, ao convidar o público a escutar sons e vibrações de resíduos como plásticos, vidro ou metais, transforma-os em protagonistas de uma experiência sensorial, com o objetivo de levar a uma mudança de atitude e a mais ação. O “lixo” — palavra que, podendo ser usada como provocação artística, desafia o paradigma da circularidade — passa, assim, a ser testemunha da atividade humana, despertando reflexão sem recorrer a um discurso moralista.
Também na arte urbana esta ligação se torna evidente. O conhecido trabalho de Bordalo II, que dispensa apresentações, utiliza resíduos e embalagens descartadas para criar esculturas de animais em grande escala, expostas no espaço público. Não vivem fechadas em museus. Ocupam ruas, muros e fachadas, confrontando-nos com a tensão entre consumo desenfreado e preservação da natureza. O impacto visual é imediato e a expectativa é que a mensagem permaneça muito depois do primeiro olhar.
A arte assume um papel decisivo, nomeadamente a que está acessível no espaço público. Locais como praças, muros, estações de comboio ou centros comerciais, ajudam a democratizar a reflexão ambiental e alcançar públicos mais vastos. Quando construída a partir de embalagens recicladas, ou infelizmente, das que ainda são depositadas em aterro, torna visíveis os materiais e o potencial da economia circular como o paradigma que faz sentido continuar a ser desenvolvido.
Num momento em que a participação de todos é essencial para melhorar a qualidade de vida, preservar ou restaurar o ambiente e cumprir metas ambientais ambiciosas, a arte pode ser uma ponte que une informação e ação.
Transformar resíduos, como as embalagens, em matéria criativa, faz da sensibilização uma experiência e lembra-nos que aquilo a que alguns ainda chamam “lixo” pode ser, afinal, o ponto de partida para o futuro que queremos construir em conjunto.