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Do petróleo ao supermercado: o impacto da guerra com o Irão

A guerra parece longe até ao dia em que se sente no depósito, no supermercado ou na prestação da casa. Ignorar os sinais sai caro.

Rita Sogalho
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Houve um momento, em 2022, em que a guerra deixou de ser apenas uma notícia distante e passou a ser uma conta para pagar. Primeiro, foi na bomba de combustível. Depois, no supermercado. Mais tarde, na prestação da casa. Em Portugal, a inflação chegou aos 10,1% em outubro de 2022 e o ano fechou com uma média de 7,8%, a mais alta em décadas. O que começou como um conflito entre Rússia e Ucrânia acabou por entrar, sem pedir licença, no orçamento das famílias portuguesas.

Na altura, a sequência foi clara: energia mais cara, custos de transporte e produção a subir, alimentos pressionados, inflação persistente e bancos centrais forçados a manter uma postura dura durante mais tempo. A guerra na Ucrânia não mexeu apenas com gás e petróleo, mexeu com cereais, fertilizantes, cadeias logísticas e com a própria confiança da economia europeia. Foi nesse contexto que a União Europeia acelerou o REPowerEU, um plano para reduzir rapidamente a dependência dos combustíveis fósseis russos, diversificar fornecedores e acelerar a transição energética. A Europa entrou em correção estratégica porque percebeu que depender demasiado de uma origem energética podia sair muito caro.

Agora, em 2026, o receio voltou. Desta vez, pela escalada militar em torno do Irão e pelo risco de perturbação num dos pontos mais sensíveis do sistema energético mundial: o Estreito de Ormuz. Em 2025, passaram por ali perto de um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo, e a rota é também crítica para o gás natural liquefeito. Mesmo quando nem toda essa energia vem para a Europa, o preço forma-se num mercado global e, quando esse mercado entra em stress, Portugal sente-o na mesma.

É isso que está a acontecer agora. Em poucos dias, o Brent chegou a subir perto de 30% na semana, enquanto o gás grossista na Europa já avançou quase 60%, com o contrato TTF a saltar de valores na casa dos 30 euros para mais de 60 euros por MWh. Ainda é cedo para saber se este choque será duradouro, mas já não é cedo para dizer que ele existe. Os mercados energéticos reagiram e, quando petróleo e gás sobem depressa, raramente ficam confinados às páginas de economia.

A Europa está hoje mais protegida do que em 2022, mas com limites. Aprendeu com a invasão da Ucrânia, diversificou fornecimentos, reforçou a estratégia energética comum e acelerou o afastamento dos combustíveis fósseis russos. A Comissão Europeia considera que a UE já cumpriu boa parte das metas mais ambiciosas do REPowerEU, reduzindo uma vulnerabilidade que em 2022 era enorme. Mas há uma diferença entre estar mais resiliente e estar imune: quando uma rota central como Ormuz entra em risco, o preço internacional da energia sobe para todos, e a Europa continua exposta.

E o BCE, pode travar o alívio que muitas famílias esperavam? Aqui é preciso nuance. Na reunião de fevereiro, o Banco Central Europeu manteve as taxas diretoras em 2,00%, 2,15% e 2,40%, e Christine Lagarde tem insistido que não existe uma resposta pré-definida à guerra: as decisões serão tomadas reunião a reunião, olhando para os dados. Vários responsáveis admitem, no entanto, que uma guerra prolongada no Médio Oriente pode voltar a pressionar a inflação através da energia e das cadeias de abastecimento. O risco mais realista não é uma explosão imediata das prestações da casa, mas outra coisa: o alívio nos juros pode ficar mais lento do que muitas famílias esperavam.

Esse risco pesa ainda mais porque o ponto de partida parecia relativamente favorável. As projeções mais recentes apontavam para uma inflação perto de 2% na área do euro nos próximos anos, sinal de “normalização” depois do choque de 2022. Quando surge um novo choque energético, o que fica em causa não é apenas o nível atual dos preços, é a trajetória de descida que parecia estar em curso. Se a energia voltar a contaminar custos e expectativas, o BCE terá menos margem para cortar agressivamente.​

Na economia real, o combustível costuma ser o primeiro aviso. Não porque seja o único canal, mas porque é o mais visível: quando o crude sobe e os riscos logísticos aumentam, gasolina e gasóleo sentem a pressão depressa. Antes de se verem estatísticas ou relatórios, vê-se o preço no painel da bomba. Depois vem a energia em sentido mais amplo. Mesmo com uma Europa mais bem preparada, uma subida forte e prolongada do petróleo e do gás acaba por contaminar custos industriais, transportes, produção alimentar e expectativas dos consumidores. Estes choques começam na geopolítica, passam pelos mercados e acabam na vida quotidiana.

No supermercado, o efeito chega com algum atraso, mas chega. A guerra na Ucrânia já mostrou como um conflito pode apertar o lado alimentar da inflação, não apenas por causa dos cereais, mas também pelos fertilizantes, pela logística, pela energia e pelo transporte. É por isso que o cabaz alimentar sobe depressa e demora muito mais a aliviar. Se este novo conflito prolongar a pressão sobre a energia e o transporte marítimo, é razoável esperar nova tensão sobre os preços alimentares, mesmo que não seja de um dia para o outro.

Então, como é que se pode preparar sem entrar em pânico? Talvez a melhor lição de 2022 seja esta: o pior momento para olhar para as suas finanças é quando o choque já chegou. Preparar não é dramatizar, é ganhar margem antes de ela fazer falta. Se tem crédito habitação com taxa variável, este é um bom momento para perceber quando é a próxima revisão e quanto é que uma prestação um pouco mais alta lhe tira, na prática, do orçamento mensal. Se tem despesas fixas que nunca mais revisitou, energia, telecomunicações, seguros, faz sentido voltar a comparar e ver se ainda está no contrato certo para o seu rendimento atual.

Se o seu orçamento já anda apertado, talvez o foco mais importante nem seja “investir melhor” ou “otimizar mais”, mas simplesmente criar algum espaço de manobra: eliminar pequenos desperdícios, renegociar serviços, reforçar uma pequena almofada de emergência. Choques destes não pedem autorização antes de chegar. Há também uma parte mais mental: em momentos de tensão, o ruído é enorme, e convém separar o que já está a acontecer do que ainda é apenas cenário. O que já está a acontecer é claro: petróleo e gás subiram, o BCE está mais vigilante e o risco inflacionista voltou ao debate europeu. O que ainda não se sabe é durante quanto tempo isto vai durar e até onde vai contaminar o resto da economia.

No fundo, é isto: a guerra parece longe até ao dia em que se sente no depósito, no supermercado ou na prestação da casa. Já se viu este filme com a Ucrânia. Não tem de se repetir da mesma forma, mas ignorar os sinais também não costuma sair barato. Nós vamos continuar a acompanhar este tema e a traduzir o que está a acontecer para aquilo que realmente interessa: o impacto no seu dinheiro, nas suas escolhas e na sua margem ao fim do mês. No meio do ruído, a diferença está em perceber o que muda, sem complicar.