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(A) :: Sai Marcelo e entra Seguro, mas o jogo está perdido

Sai Marcelo e entra Seguro, mas o jogo está perdido

No almoço de tomada de posse, Seguro serviu vinho da sua própria produção. Está esquecido das rotinas socialistas: o vinho é para ficar nas caixas, que dão imenso jeito para guardar alguma poupança.

Tiago Dores
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Para quem considera este um espaço de pura maledicência, aqui fica — para além do louvor à perspicácia — uma proposta pertinente, atempada e justíssima que, por mera coincidência, me ocorreu no passado domingo à noite. Em nome do mais elementar bom senso, preconizo que uma equipa que chegue ao fim da Liga Portugal com zero derrotas deve ser, automaticamente, campeã. Acabou o campeonato sem vitórias e com 34 empates em 34 jogos, ou seja, com zero derrotas? Campeã. Os 34 pontos não garantiram mais do que um 15.º lugar? Não interessa: campeã. Pois se foi a única equipa à qual nenhuma das outras 17 conseguiu vencer, é obviamente a campeã!

A propósito de empatar, António José Seguro tomou posse da Presidência da República. E a Presidência da República lá se deixou possuir em nome dos procedimentos oficiais, coitada, mas sem disfarçar um longo e muito honesto bocejo. Bocejo que se estendeu aos portugueses, e aos lisboetas em particular, junto dos quais o entusiasmo com a cerimónia não foi, digamos, contagiante. Talvez por isso se tenha visto menos gente na rua a saudar o novo Presidente do que a circular num dos dias em que foi proibido sair de casa à conta do suposto poder contagioso da COVID.

Por acaso, fiquei surpreendido com os escassos festejos pelas ruas da capital na segunda-feira. Não que a entrada de Seguro em Belém os justificasse, como é óbvio, mas já a saída de Marcelo de Belém, enfim. Vai-se a ver e após 175 viagens em 10 anos, os portugueses não se lembraram que esta era mesmo a derradeira deslocação de Marcelo, desta vez para casa e não até à Papua-Nova Guiné para assinalar a chegada dos portugueses àquela paragem remota em 1538 com o 1538.º mergulho da sua presidência.

No entanto, Marcelo não podia sair de cena sem antes levar a cabo uma derradeira marcelice. Enquanto esperava pela tomada de posse de Seguro na Assembleia da República, Marcelo foi ao supermercado e comprou um pacote de batatas fritas. A traquinice parvinha provocou o impacto mediático desejado, ainda que tivesse sido mais apropriado Marcelo ter comprado uma embalagem de biscoitos: se há coisa que ficou clara ao fim de dois mandatos é estarmos na presença de um indivíduo que se considera a última bolacha do pacote. Em todo o caso, foi um grande gosto, esta década, mas não creio que vá ser recordada com imensa saudade, a companhia do Batatinha.

Quanto a António José Seguro, e em termos de viagens, tenho quase certeza que será muito mais parcimonioso do que Marcelo. Desde logo porque, aparentemente, nem para Lisboa o homem se quer deslocar. Segundo parece, Seguro manter-se-á sediado nas Caldas da Rainha. Confesso que desconhecia que na descrição para o emprego de Presidente da República constava que o cargo pode ser desempenhado em teletrabalho. Mas melhor assim. Aos preços a que se teme que os combustíveis cheguem caso Trump não resolva depressa a questão do Médio Oriente, era coisa para ficar mais dispendioso Seguro fazer Caldas-Lisboa-Caldas, todos os dias, de carro, do que ficou Marcelo voar de Falcon para alguns 60 países. Além de que, e por falar em Trump, se o Presidente norte-americano tem Mar-a-Lago, porque raio não pode Seguro ter as Caldas-da-Rainha?

Agora que penso nisso, este não foi o único indício de que Seguro anda a inspirar-se em Trump. Desde logo, houve o espírito que impulsionou a sua candidatura, o também MAGA, Make Adormecimento Great Again. Agora, é esta coisa do Palácio de Belém informal, longe da capital. E já na própria tomada de posse, Seguro deu uma de empreendedor do sector HORECA, ao fornecer vinho da sua própria produção para olear a almoçarada de tomada de posse. É o Trump das Caldas! Queres ver que, afinal, há esperança? É que, além do mais, ao levar as bebidas para a dita festança, Seguro mostrou-se esquecido das rotinas socialistas: o vinho não é para servir; é para ficar nas caixas, que dão imenso jeito para guardar alguma poupança.