(c) 2023 am|dev

(A) :: Irão: destruir o que não se compreende

Irão: destruir o que não se compreende

Não é preciso exterminar um povo para destruir uma civilização. Basta apagar-lhe a memória. Os persas não desapareceram.  Mas a matriz ética daquela civilização foi reduzida a uma minoria residual.

Antero Carvalho
text

Há uma região do mundo que, neste preciso momento, arde. As imagens chegam-nos pelo ecrã, fragmentadas, reduzidas a manchetes e análises geopolíticas que raramente ultrapassam a dimensão do petróleo e das alianças militares. Os mercados reagem. O barril do crude sobe e espelha-se nos custos dos combustíveis. E nós, consumidores indiferentes à catástrofe, absorvemos o espetáculo, quase com a mesma passividade com que mudamos de canal. Ninguém, ou quase ninguém, se detém para fazer a pergunta que importa: que terra é esta, o que é que existia nela, antes de se ter tornado naquilo que hoje bombardeamos?

Aquilo que hoje se apresenta como teocracia, como ameaça nuclear, como problema a resolver pela força, foi, durante mais de mil e duzentos anos, uma das civilizações mais tolerantes e mais intelectualmente fecundas que a humanidade alguma vez produziu. E no centro dessa civilização estava uma ideia religiosa tão profunda que moldou, sem que a maioria dos ocidentais o saiba, quase tudo aquilo em que o Ocidente diz acreditar.

O homem que inventou a escolha moral

Algures no planalto iraniano, num tempo que os historiadores situam entre o segundo e o primeiro milénio antes de Cristo, viveu um sacerdote chamado Zaratustra. Olhou para o politeísmo do seu tempo, para os rituais de sacrifício, para o culto dos daêvas, e disse: não. Há um Deus supremo, Ahura Mazda, o Senhor da Sabedoria, e diante dele, a existência organiza-se segundo um princípio simultaneamente cósmico e pessoal: Asha, a verdade, a ordem justa do universo, oposta a Druj, a mentira e a desordem. Cada ser humano é chamado a escolher entre um e outro. Não por imposição, mas por exercício de liberdade. Bons pensamentos, humata. Boas palavras, hukhta. Boas acções, huvarshta. Não era um catecismo. Era uma ontologia.

O que Zaratustra propôs não foi apenas uma reforma religiosa. Foi a invenção de algo que não existia antes dele: a ideia de que o tempo tem uma direção moral. Antes de Zaratustra, os povos viviam em ciclos. Depois dele, a humanidade passou a narrar-se como uma história com princípio, meio e fim, na qual o bem e o mal se enfrentam e a verdade prevalecerá. A escatologia, o julgamento final, a ressurreição dos corpos, o paraíso, a própria palavra “paraíso”, do persa antigo pairi-daeza, “jardim murado”, nasceu ali. Quando um cristão fala do Céu, quando um muçulmano descreve o Dia do Juízo, quando um judeu espera o Messias, está a repetir uma gramática inventada por Zaratustra. Estas doutrinas tornaram-se artigos de fé familiares para grande parte da humanidade por empréstimo do Zoroastrismo.

O império que inventou a liberdade de consciência

O Zoroastrismo foi religião de Estado de três impérios persas: o Aquemênida, o Parta e o Sassânida, mais de mil e duzentos anos durante os quais aquela região foi o que Hegel chamou “o primeiro grande povo da história da humanidade”. Ciro, o Grande, zoroastriano praticante, conquistou a Babilónia em 539 a.C. e, em vez de escravizar o povo, libertou os judeus do cativeiro, permitindo-lhes reconstruir o Templo, ato pelo qual é mencionado no Livro de Isaías como ungido de Deus, o único não-judeu a receber tal designação nas escrituras hebraicas.

O Cilindro de Ciro proclamava liberdade religiosa, abolição da escravatura forçada e direito dos povos a manterem os seus costumes, esta é talvez, a primeira carta de direitos humanos. Enquanto na Grécia democrática a escravatura era a prática comum, um imperador persa praticava o que hoje chamaríamos multiculturalismo. E fazia-o porque a sua teologia o exigia: se cada ser humano tem livre-arbítrio para escolher entre Asha e Druj, nenhum poder terreno tem legitimidade para substituir essa escolha pela coerção.

Como se apaga uma civilização

Em 651 d.C., os exércitos árabes completaram a conquista da Pérsia. O que se seguiu foi uma das mais profundas operações de reengenharia civilizacional da história. Textos sagrados queimados, sacerdotes executados, templos do fogo convertidos em mesquitas. Em Bucara, o governador árabe do século IX teve de converter a província quatro vezes. Às três primeiras, a população regressava à sua fé. À quarta, transformou o templo do fogo em mesquita e pagou dois dirhams a cada pessoa que fosse à oração de sexta-feira. No século XVI, os sacerdotes de Yazd lamentavam-se, dizendo que nenhum período da história, nem mesmo o de Alexandre, fora tão penoso para os fiéis.

Não é preciso exterminar um povo para destruir uma civilização. Basta apagar-lhe a memória. Os persas não desapareceram. A sua língua sobreviveu, os seus poetas reafirmaram uma identidade que se recusou a morrer. Mas a matriz ética que durante milénios sustentara aquela civilização foi reduzida a uma minoria residual: entre cem mil e duzentos mil zoroastrianos no mundo, a maioria na Índia, onde os Parsis mantêm acesa a chama do fogo sagrado.

O que devemos saber antes de destruir

O que vemos hoje naquela região é a consequência acumulada de catorze séculos de identidade fraturadas. Um povo que inventou a liberdade de consciência foi progressivamente reescrito até se tornar irreconhecível. O regime Pahlavi instrumentalizou o passado pré-islâmico para legitimar uma autocracia. A revolução de 1979 reagiu na direção oposta: guerra declarada à memória anterior. Zaratustra, Dario e Anushiravão foram removidos dos manuais escolares. O Nowruz foi desvalorizado. A língua persa foi inundada de terminologia árabe.

As religiões não são apenas crenças sobre o transcendente. São arquiteturas civilizacionais: sistemas de organização social, de codificação moral, de gestão do medo e de produção de sentido. O Zoroastrismo, na sua formulação original, era uma religião de responsabilidade. O Islão que o substituiu, quando fundido com o Estado, tornou-se uma religião de obediência. E a história mostra que as religiões de obediência tendem a substituir as de responsabilidade, não pela superior qualidade das suas respostas, mas pela superior eficácia dos seus mecanismos de controlo.

Isto não é um fenómeno exclusivo do Islão: o Cristianismo imperial perseguiu com zelo comparável. O que está em causa é a mecânica universal do poder quando se veste de sagrado. Quando destruímos uma região do mundo, estamos a destruir mais do que infraestruturas, governos e vidas. Estamos a destruir camadas de memória civilizacional cuja profundidade não conseguimos imaginar. Estamos a bombardear o berço de ideias que moldaram tudo aquilo em que dizemos acreditar: o Céu, o Inferno, o livre-arbítrio, o julgamento final, a responsabilidade individual. Estamos, num certo sentido, a bombardear a nossa própria origem moral.

Zaratustra ensinou que cada ser humano enfrenta a escolha entre a verdade e a mentira. Talvez seja esse o maior desafio do nosso tempo: aprender a escolher a verdade e mesmo perante a sua complexidade, aceitá-la. Ver, com olhos de quem sabe que tem de escolher. E procurar nas memórias da história, antes de decidir. Um povo sem memória é um povo à mercê de quem lhe queira impor uma outra identidade. E um mundo que não compreende, destrói sistematicamente, aquilo de que mais precisa: a lucidez, a única que nos pode aproximar da verdade.