No primeiro dia de Presidência, António José Seguro já ensaiou um aviso ao Governo e um recado para o Parlamento. Durante a visita que fez à aldeia da Mourísia, no concelho de Arganil, o novo Presidente da República repetiu que será “um Presidente exigente” e pressionou o Governo sobre os apoios às populações afetadas pelos incêndios do verão, que tardam em chegar.
A aldeia escolhida para este segunda dia de programa da sua tomada de posse como Presidente não só é no interior do país, como esteve este ano cercada pelo fogo. Um exemplo do país esquecido que Seguro quer apontar. O chefe de Estado tinha acabado de saber, pelo presidente da Câmara de Arganil que acompanhava a visita, que “ainda há apoios por concretizar” e que, “só em Arganil, são cerca de 4 milhões de euros”. A situação mereceu um reparo direto ao Governo, com o Presidente a pedir “menos expectativas, mais apoios, menos palavras, mais atos”.
António José Seguro não esqueceu também a responsabilidade própria do Parlamento. Recorde-se que foi criada uma comissão técnica independente para analisar os incêndios do verão de 2025, mas esta ainda não está em funções. “Ainda não tem todos os membros para começar a funcionar”, lamentou numa conferência de imprensa com os terrenos ardidos no verão como pano de fundo.
A comissão foi uma proposta do PS, que, em dezembro passado, teve os votos a favor do PSD, CDS, Livre, PAN e JPP, a abstenção do PCP e os votos contra do Chega e da IL. A iniciativa legislativa previa que a equipa de avaliação fosse composta por 12 técnicos especialistas de reconhecido mérito (à semelhança do que já tinha acontecido nos incêndios de Pedrógão Grande em 2017), para produzir rapidamente um relatório com conclusões e recomendações. Seguro assinala que, ate agora, ainda não arrancaram os trabalhos e que em pouco tempo o país voltará a entrar em nova época de incêndios.
“Aqui está um exemplo do que não pode acontecer no nosso país”, disse o Presidente, apontando a necessidade de mudar “a maneira como se faz política em Portugal”. “As pessoas têm de ter a certeza de que quando o poder político fala é para valer”, afirmou colocando especial peso nesse objetivo neste seu mandato que agora começa.
“Serei um Presidente exigente. Renovo essa exigência neste momento aqui, em Mourísia, para que, de facto, as palavras na política possam valer e que isso reconcilie os portugueses com as nossas instituições”, argumentou.
Numa aldeia onde vive atualmente uma dúzia de pessoas, António José Seguro reforçou que o interior do país “exige respostas políticas”. “Sobretudo quando se fazem promessas de apoio, é importante que essas promessas sejam concretizadas”, referiu mais uma vez sobre os apoios prometidos pelo Governo para a região.
À população local, que assistia, numa rua da aldeia, à primeira visita presidencial, Seguro disse ter ido cumprir a palavra de não se esquecer das populações do interior — e em concreto aquela, que visitou precisamente no mês de agosto. Garantiu ainda estar ali para agradecer “a bravura e luta” daqueles dias de incêndios e que “podem contar” com o Presidente da República.