(c) 2023 am|dev

(A) :: Guerra no Irão volta a testar a máxima "O MAGA é Trump": "Não foi nisto que votámos"

Guerra no Irão volta a testar a máxima "O MAGA é Trump": "Não foi nisto que votámos"

Guerra no Irão volta a levantar vozes críticas, mas lealdade a Trump ainda é preponderante. Com audiências de influencers em risco, Pentágono e Casa Branca adotam nova estratégia de comunicação.

Madalena Moreira
text

“Não foi nisto que votámos.” Passou pouco mais de um ano desde que Donald Trump tomou posse e esta frase tornou-se um lamento cada vez mais frequente da base de apoiantes do Presidente norte-americano. Entre influencers e congressistas republicanos, as palavras são repetidas sobre vários temas: os ataques contra o Irão em junho de 2025 ou contra a Venezuela em janeiro deste ano, a hesitação na publicação dos ficheiros Epstein ou a abordagem do ICE para cumprir as políticas migratórias.

Agora, volta a fazer-se ouvir depois de os Estados Unidos terem atacado novamente o Irão ao lado de Israel e começado uma guerra no Médio Oriente. O sentimento expressado é explicado pela posição isolacionista de política externa que Trump adotou ao longo da campanha presidencial e que ficou plasmada na promessa eleitoral de pôr a “América Primeiro”.

Porém, os lemas que sustentaram o regresso do republicano à Casa Branca valem pouco quando comparados com as vontades do chefe de Estado, argumenta Emma Ashford. “‘América Primeiro’ tornou-se menos sobre reafirmar os interesses americanos na sua relação com o mundo — e mais sobre caprichos do Presidente, tendência para fazer bullying e gosto pelo aventurismo militar”, escreveu a analista do programa “Reimaginar a estratégia dos EUA” no think tank Stimson Center, numa coluna de opinião na revista Foreign Policy.

As palavras do próprio Presidente refletem aquilo que os especialistas definem como um “culto da liderança” de Trump dentro do Partido Republicano. “O MAGA é Trump”, declarou, referindo-se ao outro lema de campanha, “Make America Great Again” (Tornar a América Grande Outra Vez), que dá nome à sua base de apoiantes. “O MAGA quer ver o nosso país a ser bem-sucedido e seguro. E o MAGA adora o que eu estou a fazer — todos os aspetos disto”, continuou, numa entrevista dois dias depois de a guerra ter começado.

O eco que o lamento “não votámos nisto” tem feito dentro do Partido Republicano revela que, ao contrário do que diz Trump, nem todo o MAGA “adora” a guerra no Irão. E, ainda que o Presidente e os seus aliados rejeitem as críticas, classificando-as como minoritárias e acusando os seus autores de serem falsos membros do MAGA ou infiltrados liberais e democratas, o coro anti-guerra pode pôr em risco para o futuro a aliança que eleitores que garantiu a sua vitória em 2024.

As críticas dos podcasters e influencers e o desinteresse do seu público jovem

“Só para perceberem, uma mudança de regime não é como mudar o treinador dos Chicago Bears. Tipicamente, no Médio Oriente, é muito confuso, cria uma situação difícil. E depois há a guerra civil. Sabem quão grande é o Irão? É enorme. Faz com que o Afeganistão e o Iraque pareçam um passeio no parque”. A frase não é de agora, mas do dia 17 de junho de 2025, antes da intervenção norte-americana na Guerra dos 12 Dias. O alerta contra a entrada em cena dos EUA era deixado pelo influencer conservador Charlie Kirk.

Kirk foi morto a tiro dois meses depois num evento numa universidade e classificado por Trump como “um mártir pela liberdade norte-americana”, mas os seus alertas ainda ressoam no espaço mediático que dominava. Nos últimos dias, foram vários os influencers conservadores que utilizaram os microfones dos seus podcasts para criticar a guerra no Irão. Tucker Carslon e Megyn Kelly, antigos apresentadores da Fox News, acusaram Donald Trump de estar a enviar soldados para morrer “numa guerra estrangeira”, que foi desencadeada por Israel.

As declarações do secretário de Estado, Marco Rubio, dois dias depois de a guerra ter começado, em que declarou que Washington foi informada de que Israel ia lançar um ataque e que escolheu juntar-se porque isso podia “precipitar um ataque [iraniano] contra forças americanas”, ajudaram a fortalecer o argumento dos críticos. “Os Estados Unidos não tomaram a decisão. Benjamin Netanyahu é que tomou”, criticou Carlson, que classificou o ataque contra o Irão como “absolutamente nojento e cruel”. Entre os críticos conta-se o nome de Steve Bannon, conselheiro de estratégia de Donald Trump durante a primeira administração do republicano.

Estes nomes, e consequentemente as suas críticas, não representam a maioria do Partido Republicano — como é possível ver nas sondagens que continuam a mostram que a grande maioria dos eleitores republicanos apoiam a guerra contra o Irão e como os aliados do Presidente têm feito questão de relembrar. Porém, têm um peso relevante que é preciso considerar. “Carlson, Bannon, Kelly — eles são empresários. Eles não estariam a fazer isto se não tivessem um grande público para esta mensagem”, argumentou Curt Mills, editor da revista The American Conservative, à ABC News.

Na verdade, é relativamente fácil identificar e caracterizar este público: uma população jovem, principalmente masculina, anteriormente desinteressada da política e cujos podcasts foram a porta de entrada para o mundo do MAGA. “Para o espectro mais novo, a intervenção externa não está no seu radar”, declara ao canal norte-americano Jack Posobiec, comentador conservador próximo da administração Trump e membro da Turning Point, organização política fundada por Kirk.

“Eles querem o alívio económico como prioridade número 1. Estão interessados em Epstein, detenções e deportações”, elabora, num olhar sobre o público com que contacta regularmente. O foco da administração numa área de pouco interesse para estes eleitores, somado às críticas dos influencers cujos conteúdos consomem regularmente, pode levar esta faixa da população a sentir-se alienada pelo movimento MAGA e a afastar-se do Presidente que ajudou a colocar na Casa Branca.

A “kill talk” de Hegseth e os memes da Casa Branca. Como “tornar a guerra fixe”

No dia 3 de janeiro — quando Nicolás Maduro foi capturado na Venezuela —, Donald Trump seguiu as operações das Forças Armadas norte-americanas na sua residência em Mar-a-Lago. No final, comparou a experiência a “um programa de televisão”. Quase dois meses depois, o cenário repetiu-se: vários ecrãs no seu resort na Flórida e a Truth Social na ponta dos dedos. Desta vez, o Presidente publicou nas redes sociais um vídeo em que falava ao público norte-americano com um boné na cabeça e, dias mais tarde, disse à CNN que as Forças Armadas estavam “a dar um enxerto de porrada” ao Irão.

A imagem de um Presidente Trump de boné a utilizar expressões coloquiais e a recorrer às redes sociais para anunciar medidas não é nova. Ao longo de dois mandatos, Donald Trump rapidamente habituou o seu público a expressões e posições pouco presidenciáveis. Mas o efeito é ainda mais gritante quando se trata de anunciar uma guerra, destaca Casey Kelly, professor de comunicação da Universidade de Nebraska-Lincoln, num artigo de análise.

Esta realidade contrasta com a de Presidentes passados, que acompanhavam operações militares dentro da Situation Room e falavam ao povo norte-americano a partir da Resolute Desk, na Sala Oval, procurando justificar junto dos eleitores a necessidade de uma realidade tão dura — e dispendiosa — de uma guerra no estrangeiro, compara o especialista em narrativas políticas e culturais da direita norte-americana.

https://twitter.com/WhiteHouse/status/2029741548791853331

O efeito acentuou-se à medida que a guerra se foi desenrolando e os restantes membros da administração entraram em cena. Em conferências de imprensa, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, falou sobre a guerra em termos semelhantes ao Presidente, com coloquialismos e uma utilização generosa de palavras como “morte”, “destruição”, “dominante” e “guerreiros”. “Hegseth utilizou o que é chamado de ‘kill talk‘, uma estratégia verbal, tipicamente dirigida a novos recrutas militares, que nega a humanidade dos inimigos e mascara os custos terríveis da violência”, pondera Casey Kelly no seu artigo. Hegseth, enquanto veterano, estará familiarizado com esta forma de comunicação que fala sobre a guerra como um filme de ação.

A isto soma-se a gestão de redes sociais que tem sido feita, onde se multiplicam os memes sobre a guerra. Entre eles, destaca-se um vídeo com frases icónicas do cinema para celebrar a “justiça à americana” e um meme retirado do jogo de guerra na primeira pessoa “Call of Duty” — ambas as publicações foram feitas pela Casa Branca e o meme posteriormente apagado.

Esta forma de comunicação leva os críticos do Presidente a insistir que Washington não tem um plano concreto para a guerra no Irão e está a utilizar uma estratégia de comunicação confusa para mascarar esse facto. Porém, mais do que isso, alguns especialistas apontam que esta pode ser uma estratégia consciente para alcançar as audiências dos podcasters republicanos desencantados com a guerra — um público “hipermasculino e insolente”, que responde de forma positiva a esta linguagem e postura igualmente hipermasculina de Hegseth, classifica o professor Kelly. Ou, como definiu à Reuters James Glassman, antigo secretário de Estado adjunto para as relações públicas na administração de George W. Bush: “Isto parece ser um esforço de vender a guerra depois de ter começado, tornando-a fixe, fazendo-a parecer um videojogo”.

Guerra prolongada pode estender insatisfação ao resto do Partido Republicano

Não sendo novas as críticas ao significado do lema “América Primeiro”, também não são novas as justificações do Presidente para as mudanças de posição. “Considerando que eu é que desenvolvi o ‘América Primeiro’, eu acho que eu é que decido [o que isso significa]”, dizia Donald Trump à The Atlantic em junho do ano passado. As sondagens dão razão ao Presidente: mesmo com a economia ainda degradada, a publicação errática dos ficheiros Epstein, a aprovação de uma mega lei fiscal controversa e sucessivas intervenções externas, a taxa de aprovação do Presidente junto dos eleitores do Partido Republicano continua acima dos 50% — ainda que os números variem bastante entre sondagens.

"Estou preocupado é com a desmoralização das margens. Não nos diz nada dizer que 80% dos eleitores republicanos apoiam esta coisa no Irão. Não estamos a lutar pelo eleitor republicano médio. Se perderem 50 mil pessoas que não aparecem [para votar], perdem a Geórgia. Podem dar-se ao luxo de perder 5% de votos? Eu acho que não."
Curt Mills, editor da revista "The American Conservative"

No que toca à guerra no Irão, uma sondagem da YouGov olha em particular para as diferenças intrapartidárias: a percentagem de republicanos que apoiam a ofensiva no Médio Oriente chega acima dos 60% se considerados apenas os republicanos que se autoidentificam como MAGA. Na teoria, isto pode ser difícil de explicar, pois os republicanos tradicionais são mais intervencionistas, enquanto os republicanos MAGA são mais isolacionistas. Na prática, a lealdade do movimento a Trump explica os números, aponta Colin Dueck, antigo conselheiro de política externa do Partido Republicano, à The Economist. “Eles confiam completamente nos instintos dele para a guerra“, resume.

Contudo, por cima da análise de todos os especialistas paira uma realidade cada vez mais próxima: a das eleições intercalares. “Estou preocupado é com a desmoralização das margens. Não nos diz nada dizer que 80% dos eleitores republicanos apoiam esta coisa no Irão. Não estamos a lutar pelo eleitor republicano médio”, considera Curt Mills à ABC. “Se perderem 50 mil pessoas que não aparecem [para votar], perdem a Geórgia. Podem dar-se ao luxo de perder 5% de votos? Eu acho que não”, remata. Em média, cada episódio do podcast de Tucker Carlson é ouvido um milhão de vezes. A mesma sondagem da YouGov revela que o apoio dos independentes à guerra no Irão tem um indicativo de -27 (um resultado que subtrai aqueles que se opõem àqueles que apoiam a guerra).

Apesar da fricção atual no seio do movimento MAGA, ambas as partes concordam que o arrastar da guerra é, na verdade, o cenário que mais pode prejudicar os resultados das eleições de novembro e a sobrevivência política do Presidente. “Ele tem um mês. Depois disso, as pessoas vão começar a ver isto como um conflito arrastado”, sentenciou à ABC Natalie Winters, influencer que trabalha como “correspondente na Casa Branca” do podcast de Steve Bannon.

A mesma leitura é feita por Brad Todd, analista do Partido Republicano, à Bloomberg. “O perigo é a administração não ser rápida, não ser decisiva e arrastar-se. Se eles começarem a enviar a 101.ª Divisão [uma unidade de elite especializada em infiltrações e ataques aéreos] para lá e começarem a colocar bases temporárias dentro do Irão, aí é que vai ser um problema. O problema deles com o Iraque e o Afeganistão é que duraram para sempre”, elaborou.

Por agora, os planos da Casa Branca e do Pentágono parecem estar dentro da “margem de erro”. O tempo máximo estimado para a operação é de seis semanas, mas o Presidente afirmou, esta segunda-feira, que a guerra “vai acabar muito rapidamente”. No que toca aos objetivos, tanto Trump como Hegseth afastaram a possibilidade de os Estados Unidos entrarem na chamada “guerra de construção de nações”, ou seja, conflitos que têm como objetivo declarado alcançar a democratização do Estado invadido. Donald Trump respondeu mesmo à CNN que o Irão do futuro não precisa de ser um Estado democrático. Contudo, a já famosa imprevisibilidade do Presidente levanta incertezas entre a sua base de apoio sobre o cumprimento efetivo destas promessas — e sobre se a lealdade do MAGA a Trump pode continuar a sobreviver se estas forem quebradas.