O presidente da Mercadona, cadeia espanhola de supermercados, vê com bons olhos o regresso do IVA zero à alimentação. Na apresentação dos resultados de 2025 da empresa, que decorreram esta terça-feira em Valência, Juan Roig falou sobre a incerteza global, motivada pelo conflito no Médio Oriente, e o impacto que pode ter sobre o consumo, sobretudo devido ao aumento do preço do petróleo. Para Juan Roig, a aplicação do IVA Zero a um cabaz de bens essenciais tanto em Portugal como em Espanha seria “muito bom”. “Gostaríamos muito que os governos de Espanha e Portugal adotassem o IVA zero nos alimentos amanhã”, declarou. “Mas isso não depende de nós”.
Na ronda de perguntas e respostas depois da apresentação dos resultados, Juan Roig foi questionado sobre o contexto atual de incerteza económica e como é que a situação no Irão poderá vir a afetar as vendas e o consumo. O presidente da Mercadona insistiu que o “futuro é incerto” e que a empresa, tal como todo o setor, terá de se “adaptar” ao que vier. Garante que ainda não aumentou preços nem aumentará se não for necessário. Tudo vai depender do que acontecer na fonte. “Se as matérias primas aumentam ou baixam, nós aumentamos ou baixamos os preços. Nós não temos influência no preço das matérias primas”, destacou.
“Se o preço do azeite sobe, temos de aumentá-lo. O que mais queremos é baixar preços, nenhum empresário fica contente por aumentar preços. Mas dependemos das matérias primas. Qualquer coisa que se passe no mundo vai ter efeito nos nossos preços”, constatou Juan Roig, que não quis antecipar os efeitos de possíveis disrupções na cadeia de abastecimento.
“Quem podia imaginar que íamos passar pela Covid-19? Parece que foi um sonho mau que a humanidade teve mas passámos por ela. Quem poderia imaginar a DANA [a depressão que causou fortes inundações em Valência] ou a guerra da Ucrânia. Agora toca-nos a guerra no Irão. Costumo dizer que os empresários andam numa prancha de surf e vão apanhando as ondas. Temos de nos adaptar. O que se vai passar com o Irão? Não sei, ontem o petróleo subiu imenso, depois Trump falou e disse que a guerra vai durar pouco… Tudo depende de onde virá a onda, e nós ou vamos apanhá-la pela direita ou pela esquerda. Faremos frente ao que vier”.
A Mercadona fechou 2025 com lucros de 26 milhões de euros em Portugal, uma subida expressiva face aos sete milhões de euros do ano passado. As vendas foram de 2.092 milhões, mais 18%. “Estamos muito satisfeitos com as vendas em Portugal”, assumiu o presidente.
Em 2026 a empresa espera abrir mais 12 lojas e investir 150 milhões de euros. Está prevista a chegada ao Algarve para “depois do verão”, porque antes da época alta do turismo “não estaríamos preparados”. Descartada está, para já, a expansão para as ilhas. O presidente da Mercadona continua a achar que a empresa tem de ser “mais portuguesa”, mas nos resultados espera que seja mais espanhola. “Temos de ter cerca de 45 ou 50 milhões em lucro, Portugal tem de se equiparar a Espanha no que toca ao lucro por loja”. Mas o balanço é positivo.
“Até há 3 anos perdíamos dinheiro [em Portugal]. É preciso fazer muita coisa, conhecer melhor os produtos, aprender a cultura. Com o tempo percebemos que havia produtos que tínhamos de ter em loja, outros que não, que tínhamos de melhorar a oferta de frescos…”. Juan Roig assume que a empresa ainda tem um longo caminho a percorrer em Portugal. Em todos os sentidos. “Os portugueses entendem o espanhol e conhecem muito de Espanha, nós conhecemos menos. Mas estamos a tratar de saber tanto sobre Portugal como os portugueses sabem sobre Espanha”.
A empresa espanhola contratou 500 pessoas no ano passado em Portugal e conta atualmente com 7500 trabalhadores. O investimento total em 2025 foi de 140 milhões de euros. Desde que abriu a primeira loja em Portugal, em 2019, o investimento totaliza cerca de 1.230 milhões de euros. A Mercadona conta com 70 lojas e prevê abrir mais 12 em 2026. A empresa revela ainda ter comprado 1.500 milhões de euros a cerca de 1.000 fornecedores nacionais. “Fazemos 85% das compras em Espanha e Portugal, não fazemos todas porque não é possível. O ananás compramos na Costa Rica porque não há em Portugal nem em Espanha”, exemplifica.
Na operação global, em Portugal e Espanha, a Mercadona teve lucros de 1.729 milhões de euros, uma subida de 25% face ao ano anterior. Cerca de 80% dos lucros serão reinvestidos e o restante será distribuído como dividendo aos acionistas.
As vendas aumentaram 8% para 41.858 milhões de euros, o que significa que Portugal ainda vale menos de 5% das vendas da cadeia espanhola. A Mercadona tem uma quota de mercado de 28,5% em Espanha, que cresceu 0,6 pontos no ano passado. A empresa refere que em Portugal a quota de mercado está nos 8,8%, tendo aumentado 0,8 pontos em 2025. O online vale 2,5% das vendas da Mercadona e há de chegar a Portugal, antecipa Juan Roig, mas ainda não há um calendário previsto. “Temos de fazer e dominar outras coisas primeiro em Portugal”.
A Mercadona vai evoluir para um novo tipo de loja, no qual conta investir cerca de 3.700 milhões de euros, e que deverá chegar a todas as lojas do grupo até 2033. Em Portugal a adoção do modelo “Loja 9” deverá ser mais “rápida”, diz Juan Roig, porque as lojas estão “mais preparadas”.
Para 2026 Juan Roig espera aumentar as vendas em 3,5% para 43,2 mil milhões de euros, consolidar os lucros de 2025 e contratar mais mil pessoas. “A nossa obrigação é que 2026 seja melhor que 2025. Esperamos que não se passe nada a nível mundial e que continuemos a ter estes resultados” em 2026, aponta. Afastada está também a entrada num terceiro mercado enquanto o português não estiver completamente dominado.
https://observador.pt/2024/03/12/mercadona-aumentou-vendas-em-90-em-portugal-e-nao-perdeu-dinheiro-pela-primeira-vez-temos-de-ser-mais-portugueses/