“A banca quer fazer crédito, não ganha dinheiro por ter o dinheiro parado em depósitos”, atirou nesta terça-feira Miguel Maya, um dos vários banqueiros que não esconderam ter ouvido com algum desagrado as críticas feitas ao setor pelo ministro da Economia e da Coesão Territorial, poucas horas antes, na abertura da mesma conferência num hotel em Lisboa. “Picados”, os banqueiros convidaram o Governo e os seus representantes a olharem para as razões que justificam porque é que as empresas pedem pouco crédito: “porque é que demora seis meses a licenciar um investimento ou [obter autorização para] mais um turno de produção?“, perguntou o líder do Millennium BCP.
O ministro Castro Almeida tinha criticado os bancos por terem mais depósitos do que créditos (das empresas, em ambos), uma “situação anómala” que, segundo o governante, “acontece pela primeira vez em 45 anos”. As declarações provocaram um claro celeuma entre os membros de um painel onde estavam banqueiros como Miguel Maya, Paulo Macedo (CGD), João Pedro Oliveira e Costa (BPI) e Isabel Guerreiro (a nova presidente do Santander Portugal).
O presidente do Millennium BCP assinalou que “a banca portuguesa tem um rácio de transformação [depósitos versus crédito] abaixo de 70%, onde eu gostaria de estar era no 90% e 95%”. O objetivo de qualquer banqueiro, acrescentou, é “alargar a perspetiva de risco sempre com a ideia de que estamos a conceder crédito e não a dar crédito, como aconteceu no passado”.
Não consigo encontrar uma única razão que levasse os bancos a ter excesso de prudência”, acrescentou Miguel Maya, notando que “com tanta liquidez, o normal seria ter a tentação para fazer disparates, depois daqui a 10 anos tínhamos os jornalistas a dizer que os bancos tinham falhado novamente”.
Se há pouco crédito às empresas, “o problema está do lado da procura, mas não estou a endossar a responsabilidade aos empresários”. O que se deve perguntar, diz Miguel Maya, é “porque é que não investem? Porque é que esperam seis meses por um licenciamento?”. O presidente do BCP fala nos “custos de contexto”, que levam a que haja menor dinâmica no investimento empresarial.
https://observador.pt/2026/03/10/ministro-da-economia-critica-bancos-por-terem-mais-depositos-do-que-credito-as-empresas/
Além de Miguel Maya, João Pedro Oliveira e Costa, do BPI, considerou que “todos temos de estar focados no trabalho que temos, cada um de nós, de fazer“, pelo que confessou “algum espanto” por ouvir o ministro a criticar os bancos por haver pouco crédito às empresas. Já Isabel Guerreiro, nova presidente do Santander Portugal, afirmou que Portugal tem dos spreads mais baixos da Europa, cobrados às empresas, o que “mostra que há concorrência e vontade de emprestar a bons projetos. Não há, sempre, é procura“, lamentou.
Anteriormente, Paulo Macedo, da CGD, lembrou que as empresas têm muitos depósitos fruto, também, do processo de desalavancagem (redução de dívida) que houve nos últimos anos – aliás, a existência dessas “reservas substanciais”, que existem em algumas empresas (não todas), que permitem acautelar os riscos geopolíticos e macroeconómicos que existem atualmente.
O que eu vejo é uma concorrência enorme não só no crédito á habitação mas no crédito às empresas, em termos de preço”, defendeu Paulo Macedo. “Cada um falará por si mas todos os bancos têm a perspetiva de aumento de crédito às empresas e aumentos de quota de mercado”, acrescentou.
Pedro Leitão, (ainda) presidente da comissão executiva do Montepio, também fez questão de “refutar absolutamente” a ideia, transmitida pelo ministro da Economia, de que “os bancos, de alguma forma, estão indisponíveis para dar crédito” às empresas. Os bancos não fazem mais do que cumprir com as questões regulatórias e com o nível de procura que existe por parte das empresas.
“Se a economia não crescer a uma taxa mais ambiciosa, se não houver progresso, os números vão crescer com os pés na terra para não tropeçarmos mais à frente”, afirmou Pedro Leitão, num comentário secundado por Miguel Maya, do BCP, que salientou que a operação polaca deste grande banco cresceu 20% no crédito às empresas no ano passado. E porquê? Porque na Polónia existe “uma dinâmica” que considera não existir em Portugal, nem uma “ambição de maior crescimento económico e mais políticas de apoio ao desenvolvimento empresarial”.
O presidente da comissão executiva do Millennium BCP acrescentou que não é por um crédito ter uma garantia pública até 80%, como aludiu Castro Almeida, que o banco faz bem em fazer esse financiamento sem “o devido rigor”.
“A banca, mesmo quando tem uma garantia a 80%, isso não chega, pelo menos não chega para o BCP”, afirmou Miguel Maya. “Se nós estamos a pensar que o facto de termos garantia de 80% deve-se dar o crédito isso é um erro, porque se emprestamos a uma pessoa ou empresa que detetamos que não vai ter capacidade estamos a comprar um problema mais à frente” para os depositantes que confiaram o seu dinheiro aos bancos e aos contribuintes – “porque alguém tem, sempre, de pagar“.